Política

Surpresas na comemoração dos 24 anos do partido

07/02/2004 00:00

AE

Créditos da foto: AE

Rio de Janeiro - Foi uma festa diferente de todas as outras. A comemoração do vigésimo-quarto aniversário da fundação do Partido dos Trabalhadores, realizada numa sexta-feira, dia 13, teve ingredientes inesperados. A começar por reunir no Rio de Janeiro, coisa inédita, toda a cúpula do partido numa cerimônia oficial. Algumas surpresas pouco agradáveis ocorreram, como a presença de manifestantes hostis na porta do Hotel Glória ou a aparição na imprensa do primeiro escândalo de corrupção envolvendo um funcionário do segundo escalão do governo, fato que, mesmo ignorado nos diversos discursos, contribuiu para jogar água no chope petista. Surpresas positivas também não faltaram, como o discurso de improviso, e carregado de emoção, do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ou as importantes análises políticas feitas pelos homenageados da noite: Apolônio de Carvalho e Antonio Candido.

Embalado pelas ótimas reflexões de Apolônio e Candido, que o antecederam, Lula abandonou o discurso que havia preparado antes mesmo de começar a lê-lo. Depois de pedir desculpas "às companheiras" Clara Ant e Miriam Belchior, assessoras da Presidência, por ter exigido durante os últimos dias um levantamento de "tudo o que o governo tinha feito", o presidente disse que havia refletido e desistido do discurso que pensara em fazer: "Que pronunciamento deve fazer um presidente da República na festa dos 24 anos do PT? Não tem sentido vir a esse encontro para ficar falando coisas do governo. Quero falar coisas do meu partido. Estou aqui como mais um militante do PT", disse, sob intensos aplausos dos cerca de mil presentes ao salão nobre do hotel.

Em seguida, lamentando a existência de "companheiros que falam mal do PT ou que até mesmo falam em deixar a legenda PT", Lula pediu uma reflexão dos presentes sobre a importância do partido, e indagou: "Onde estariam pessoas do valor de Antonio Candido e Apolônio de Carvalho se não fosse no PT? Em que partido estaríamos militando cada um de nós se não existisse o PT? Quando falávamos em criar um partido lá entre os metalúrgicos do ABC, no final dos anos 70, éramos tratados como loucos. Mas, se não fosse o PT, eu provavelmente não teria militância política hoje em dia", disse.

Lula disse que "Deus é um cara muito bacana" pois permitiu que ele chegasse à Presidência mais maduro: "Eu brincava que, se não ganhássemos dessa vez, iríamos acabar ganhando um dia quando estivéssemos bem velhinhos e aí não teria mais graça. Agora, percebo que, se tivesse ganhado antes, não teria a capacidade de fazer as coisas que estou fazendo agora", afirmou. O presidente acha que sua turma, a "turma dos 50", atingiu o auge da maturidade do ser humano, e brincou: "Nessa idade, a gente aprende a brigar menos e a ter mais paciência, não é Chico Alencar? Imagina, Chico, quando você tiver uns cinqüenta e pouco...", disse, arrancando gargalhadas da platéia e provocando o deputado federal carioca, único representante notável da chamada esquerda do partido presente ao evento.

Falando de política, Lula disse que a dimensão histórica do PT "é maior do que muitos de nós enxergamos", e que o partido não pode errar no governo, pois "virou referência até mesmo no exterior" e "deu cidadania a uma parte importante da esquerda da América Latina". O presidente citou a capacidade de diálogo com as diversas forças políticas do país como o principal trunfo do PT hoje e pediu aos militantes que lutem para consolidar o governo politicamente: "A solidez econômica é muito importante, mas ela depende da solidez política. Não podemos errar na política porque a marca do partido é o seu comportamento ético e sua honra", disse, provavelmente fazendo alusão ao, sem, no entanto citar diretamente o, caso de corrupção envolvendo o servidor Waldomiro Diniz, assessor do ministro José Dirceu na Casa Civil. O ministro foi citado diretamente quando Lula comentou o bom humor que vem mantendo durante o governo: "Presidente não pode se dar ao luxo de não estar de bom humor. Eu não consigo ficar de mau humor nem quando o Zé Dirceu está de mau humor", disse, provocando novos risos.

Solidariedade a José Dirceu
Mesmo tendo entrado mudo e saído calado do evento, o ministro José Dirceu acabou sendo o segundo personagem mais importante da festa. Um tanto abatido pela denúncia envolvendo Waldomiro Diniz, ele foi ovacionado pela platéia duas vezes: quando foi chamado à mesa (com direito aos primeiros gritos de "PT, PT...") e quando foi citado na homenagem aos ex-presidentes do partido. Dirceu evitou a imprensa na entrada e na saída do evento, mas sua defesa foi assumida pelo presidente nacional do PT, José Genoino, que pediu manifestações de "carinho e confiança ao companheiro Zé Dirceu, que tão bem presidiu o partido por oito anos, possibilitando nossa chegada à Presidência da República".

Em material divulgado pela revista Época, Waldomiro Diniz aparece numa filmagem feita em 2002, quando era presidente da Loterj, prometendo ajuda ao bicheiro carioca Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Em troca, aparece no vídeo pedindo contribuições para as campanhas a governador de Rosinha Matheus (PSB, atualmente no PMDB) e Benedita da Silva (PT) no Rio e de Geraldo Magela (PT) em Brasília. O fato de Waldomiro jamais ter sido filiado ao PT, no entanto, foi lembrado por todos: "Em primeiro lugar, o Waldomiro não era filiado ao partido e, em segundo, os candidatos do PT no Rio e em Brasília tiveram suas contas aprovadas pela Justiça Eleitoral", disse Genoino.

A mesma linha foi adotada pelo presidente do PT no Rio, deputado estadual Gilberto Palmares, que afirmou desconhecer qualquer doação à campanha de Benedita que tenha chegado por intermédio de Waldomiro: "Acho que ele nem fez campanha para a Benedita", disse, não explicando, no entanto, por que a petista deixou que Waldomiro permanecesse na presidência da Loterj durante seus nove meses de governo. Chico Alencar lembrava a todo momento que "Waldomiro jamais foi indicado para nenhum cargo" pelo PT do Rio e pedia uma "apuração sem panos quentes": "Como é prática no PT, vamos lutar para que se investiguem a fundo essas denúncias. É preciso ver se as práticas nefastas de dois anos atrás continuaram", disse o deputado. Alencar não acredita que as denúncias possam prejudicar a campanha do PT para a Prefeitura do Rio: "Isso não enfraquece o partido, mas nos incomoda bastante. O escândalo não vai atrapalhar a campanha porque o Jorge Bittar tem estatura moral e ética para enfrentar a crise", disse, referindo-se ao candidato do partido no Rio.

O senador Eduardo Suplicy classificou o caso como "de grande complexidade e importância" e acha que o partido deve apoiar o pedido de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito; "A pessoa citada tem cargo no governo e envolvimento com diversos partidos políticos. A complexidade do caso justifica uma CPI", disse. Alguns parlamentares petistas, como Paulo Delgado e Professor Luizinho, no entanto, se manifestaram contra a instalação de uma CPI: "É melhor que haja uma apuração rápida, pois as provas já estão aí. Uma CPI só iria atrasar as investigações e criar um clima de hostilidade política", disse o segundo.

Presenças e Ausências
Seria injusto falar da festa pelos 24 anos do PT sem citar a brilhante - e emocionante - participação dos homenageados Antonio Candido e Apolônio de Carvalho. O ex-comandante, fundador do Partido Comunista do Brasil, afirmou que o PT "foi o portador da última pá de cal na ditadura", e que agora, "tendo passado a sua infância e a sua adolescência, está governando com maturidade". Do alto de seus 92 anos, e saudado com gritos de "general" pela platéia, Apolônio pediu calma aos impacientes: "O partido está no caminho certo. Não se pode pensar no socialismo como algo que possa ser criado da noite para o dia. As verdadeiras transformações não serão feitas por nenhum partido político ou movimento social, mas sim pelo povo", disse.

Antonio Candido lembrou vivos e mortos e homenageou outros "velhos companheiros" do PT, como Mario Pedrosa, Sergio Buarque de Hollanda, Maria da Conceição Tavares e Lélia Abramo, entre outros. Afirmou-se "humilhado em sua pálida figura de pequeno burguês, que nunca correu riscos" ao se ver homenageado ao lado de Apolônio Carvalho "que arriscou a vida nos campos de batalha". Citou a pluralidade e a flexibilidade histórica do PT como as qualidades que permitirão que o partido não se afaste de seus ideais mesmo tendo chegado ao poder e também pediu paciência aos críticos do governo, para deleite de Lula: "Pode parecer que estamos nos afastando de nossos ideais quando, na verdade, estamos preparando o melhor momento de fazer valer esses ideais", disse.

Também foram homenageados os ex-presidentes do PT, pela ordem: Lula, Olívio Dutra, Luiz Gushiken, Rui Falcão e José Dirceu. A constelação petista compareceu em bom número. Na mesa, além dos já citados, ficaram Genoino, Palmares, o senador Aloizio Mercadante, o presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, a ministra da Secretaria das Mulheres, Nilcea Freire, e a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, além da senadora Ideli Salvatti e do líder da bancada do partido na Câmara, Arlindo Chinaglia. Na platéia estavam os ministros Antonio Palocci, Humberto Costa e Nilmario Miranda.

Algumas ausências também foram notadas. A mais marcante foi a da ex-ministra da Ação Social, Benedita da Silva, que está viajando em férias. Apesar de Benedita ter viajado antes de estourar o escândalo de Waldomiro Diniz, a falta de quem a defendesse do envolvimento em mais uma irregularidade causou um clima de constrangimento entre os militantes. Outra ausência sentida foi a de representantes da chamada esquerda do PT, muitos deles já desligados da legenda, que tem forte identidade com os militantes e o povo do Rio e que, em outros tempos, não poderiam faltar a uma festa de aniversário do partido. Entre as ausências sentidas e lamentadas por muitos militantes: Vladimir Palmeira, Milton Temer, Antonio Neiva, Cid Benjamin, César Benjamin, Carlos Nelson Coutinho, entre outros.

O que não faltou, e esta também foi uma surpresa, foram manifestantes na porta do Hotel Glória. Não eram muitos - cerca de 30 militantes do PDT e outros tantos do PSTU - mas as vaias e as hostilidades que proferiram contra quem chegava ao evento deixaram muitos petistas em crise, numa cena hilária. A graça só foi embora quando um grupo de manifestantes petistas chegou e iniciou-se uma briga, logo controlada pela polícia. Sensível ao mal-estar de alguns militantes, Lula fez uma última brincadeira antes de encerrar seu discurso: "A gente não pode ficar espantado, porque o que vimos hoje aqui na porta, nós cansamos de fazer em outras portas", disse, provocando novos risos.

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