Política

Teoria da "federalização" das disputas locais não se confirma

24/09/2004 00:00


São Paulo - A dez dias do primeiro turno das eleições, a capital paulista vive a expectativa de uma disputa acirrada pela Prefeitura de São Paulo. E quanto mais a votação vai se aproximando, a outrora vibrante tinta do anunciado caráter de "plebiscito do governo federal" atribuído aos pleitos locais esmaece dia após dia.

Desde os primeiros movimentos da campanha, ainda no primeiro semestre deste ano, analistas e políticos direta ou indiretamente interessados apostavam na tal "federalização das eleições municipais". Por trás do nome técnico, eles empenharam suas fichas na ligação direta, principalmente nos grandes centros urbanos, entre as escolhas locais e o desempenho do Poder Executivo.

O que fica cada vez mais claro, no entanto, é que a briga nas urnas entre os dois principais concorrentes ao comando da capital paulista - José Serra (PSDB) e Marta Suplicy (PT) - não será decidida por dilemas de envergadura federal nem redundará em redefinições significativas na correlação de forças políticas no plano nacional.

"Não se pode dar às eleições municipais um valor maior do que elas têm", pondera o professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), Octaciano Nogueira Filho. Segundo ele, a revalidação de quem está no Poder Executivo Federal não está em jogo. A própria legislação eleitoral, recorda, separa em dois anos os dois tipos de eleições (presidenciais e municipais) justamente para não "federalizar" as eleições municipais e nem "municipalizar" as eleições presidenciais.

Na opinião do professor, existe uma preocupação exagerada neste sentido, que cada vez mais perde força. "Essa história de antecipação das eleições de 2006 não procede", complementa. "São pleitos distintos. Não existe uma correlação direta entre as duas eleições". Só para ilustrar, ele acrescenta que no município do Rio de Janeiro, por exemplo, o candidato do PT (Jorge Bittar) vai mal nas pesquisas e ninguém assume o risco de dizer categoricamente que o presidente Lula não recebe a aprovação da população Guanabara.

"Se a Marta ganhar e a economia for mal nos próximos dois anos, o resultado de São Paulo pouco importará diretamente para uma provável candidatura à reeleição do Lula", frisa Nogueira. "Agora se a Marta perder, não será a primeira vez. E se o derrotado for o Serra, tampouco será algo inédito", ironiza o professor da UnB. Ou seja, o resultado imediato das eleições não afeta a conjuntura social e econômica de modo significativo.

Nas ruas de São Paulo, a disputa vem sendo travada em questões locais. Na abordagem aos milhões de motoristas parados nos cruzamentos da cidade, a primeira pergunta que se ouve dos militantes da campanha da candidata à reeleição Marta Suplicy é: "O senhor (ou a senhora) simpatiza com a prefeita e com as mudanças que ela vem fazendo na cidade?"

Toda a campanha de Serra também está direcionada ao município (sempre muito próxima da administração estadual) e quase não resvala em problemas nem questões nacionais que envolvam diretamente o ataque ao governo federal.

Influência natural
Fica evidente, portanto, que muitas projeções deram uma dimensão nacional que a eleição de São Paulo não tem. "São Paulo repercute naturalmente, mas não existe essa influência tão abrangente assim", comenta o professor Nogueira. O raciocínio tem mais lastro se for feito no sentido inverso. Quem estiver à frente da Prefeitura de uma grande cidade como São Paulo dificilmente conseguirá balançar a escada do governo federal, mas a vitória em uma eleição na capital paulista não deixa de ser uma credencial para quem está de olho no Palácio do Planalto. "É claro que qualquer político que se destaca em São Paulo ganha projeção nacional. Estamos falando de um dos maiores orçamentos do País".

Se a teoria da "federalização" não encontra reflexo no plano real, a tendência de polarização entre tucanos em petistas como forças políticas dominantes da política nacional parece ganhar mais consistência.

"As principais figuras políticas hoje são do PT e do PSDB", destaca Nogueira. "Os senadores mais combativos (Arthur Virgílio-AM e Tasso Jereissati-CE) são do PSDB. Quem perdeu o segundo turno das presidenciais de 2002 foi o próprio Serra. O próximo adversário colocado para 2006 é o [governador de São Paulo, Geraldo] Alckmin", enumera. "Enquanto isso, o PFL [diga-se o senador Antônio Carlos Magalhães-BA] está jantando com Lula".

Mesmo com a forte presença de partidos como o PFL e como o PMDB nos pequenos e médios municípios brasileiros, o professor acredita que a polarização entre PSDB e PT emergirá das urnas nas disputas eleitorais municipais. "A conjuntura sustenta essas duas forças. Não há mistério. A ampla maioria dos políticos com consistência política que estão aí fazem parte de um desses dois grupos". 

Veja especial:
> Eleições 2004



Conteúdo Relacionado