Política

Tomadas pelo bolsonarismo, as ruas geram outra crise

 

28/05/2019 10:35

 

 
Como costuma acontecer em quase todas as suas iniciativas, é difícil entender qual era exatamente o objetivo de Jair Bolsonaro ao convocar as manifestações de rua em defesa do seu governo e alguns de seus programas emblemáticos, com ênfase na reforma da Previdência. Mas o fato é que sua equipe seguiu sua receita principal: mobilizou seus exércitos de robôs nas redes sociais, comandados por seu filho Carlos, para depois aparecer o mandatário se fazendo de desentendido, e dizendo que as manifestações eram “espontâneas”, e que não apareceria em público, para deixar claro que não se tratava de uma iniciativa pessoal ou do seu governo.

Os primeiros chamados distribuídos massivamente nas redes incitavam ataques ao Congresso, com foco nos partidos de centro, e eram de uma agressividade pouco comum para com o Supremo Tribunal Federal. Vários deles pediam abertamente a intervenção imediata das Forças Armadas, para assegurar ao presidente o espaço para levar adiante as reformas pretendidas.

Pressionado pelos militares que integram o governo (de forma delicada, os meios de comunicação dizem que ele é “aconselhado” por eles), Bolsonaro desistiu de aparecer em algum dos atos, mas defendeu “o direito democrático de se manifestar” a favor do seu governo, porém “respeitando as instituições e atuando dentro da lei”. Contudo, se a ideia era superar as manifestações do dia 15 de maio, quando as ruas foram ocupadas por setores que repudiam os cortes no orçamento da Educação Pública, deveríamos considerar estes atos governistas como um fiasco.

Os cálculos mais conservadores indicam que as manifestações contra o governo superaram a cifra de 1,5 milhão de aderentes, espalhados por ao menos 280 municípios brasileiros, enquanto as contas mais otimistas de ontem chegam no máximo nos 350 mil, em menos de uma centena de municípios.

Entretanto, se a ideia era reforçar o conflito com o Congresso, especialmente com os partidos de centro-direita e da direita tradicional, que reúnem quase a metade dos deputados, devemos admitir que foi um sucesso absoluto.

Um dos alvos preferidos foi precisamente o presidente da Câmara, o experiente Rodrigo Maia, que é simplesmente quem controla a agenda do Congresso Nacional. Vários dos assessores mais próximos do presidente, incluindo os militares que o rodeiam, foram explícitos ao advertir Bolsonaro sobre os riscos de aumentar de forma desproporcional os conflitos entre o seu governo e a Câmara. Ademais, a extravagante ideia de convocar manifestações de rua, quando ainda não se cumpriu sequer cinco meses de mandato, provocou fissuras graves, não solo entre o governo e os aliados de direita como dentro do próprio partido do presidente, o PSL (Partido Social Liberal, que conta com pouco mais de 10% das cadeiras.

É verdade que a maioria das demandas escutadas neste domingo visavam defender os ministros da Economia, Paulo Guedes (responsável pela polêmica reforma da Previdência), e da Justiça, Sérgio Moro, o ex-juiz que condenou Lula da Silva sem provas para poder ganhar seu cargo no governo, e que agora se esforça para impulsar um “pacote anticrime”, que é criticado por dez de cada dez juristas brasileiros.

Porém, também é verdade que as manifestações trouxeram uma chuva de críticas especialmente violentas contra Rodrigo Maia e até contra o vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão, além dos integrantes do Superior Tribunal Federal. Aliás, não foram poucos os que defenderam diretamente o fechamento do Congresso e a dissolução da Corte, e sua substituição por “gente confiável”.

Apesar de ter dito que não teria nenhuma participação nos atos, o fato é que Bolsonaro passou o dia nas redes sociais difundindo imagens e mensagens de manifestantes. Disse que as ruas se encheram de pessoas “que se opõem à velha política, com suas velhas práticas”.

Antes de se sentar na cadeira presidencial, Bolsonaro foi deputado por longos 28 anos. De “velha política” ele conhece bastante. De como presidir um país sem destroçá-lo, não tem a menor ideia. Ontem, deixou isso bem claro, mais uma vez, provando que não precisa de oposição para tropeçar em problemas. Ele os fabrica com rara eficácia.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli



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