Política

Transporte público fluvial pode servir para desafogar o trânsito no Recife

21/09/2012 00:00

Laudenice Oliveira

Recife - Manhãs de caos, final de tarde de grandes transtornos e estresses. Esse é o cotidiano de quem necessita transitar no Recife, em especial os trabalhadores. São quilômetros de engarrafamentos nas principais vias da cidade. Pessoas em ônibus, motos, automóveis e bicicletas disputam cada espaço aberto nas avenidas e ruas na esperança de chegarem ao seu destino, pelo menos, no horário desejado. Hoje, os moradores da Região Metropolitana do Recife (RMR) saem mais cedo de casa e retornam mais tarde aos seus lares por causa do trânsito.

O problema de mobilidade na capital pernambucana parece não ter fim. A cada dia cresce a frota de veículos em circulação. Entre 1990 e junho de 2012, aumentou em 188%, significando a entrada em circulação de meio milhão de novos veículos, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito de Pernambuco (Detran-PE). Destes, mais de 370 mil são automóveis.

Já o transporte público não atende às necessidades dos usuários. Os ônibus lotados são uma constante, além da demora para passar nos pontos de passageiros. O tempo de embarque pode ficar entre 10 e 50 minutos. De acordo com o Sistema de Transporte Público de Passageiros (STTP) da Região Metropolitana, uma frota de 3 mil ônibus transporta por dia 2 milhões de usuários.

Para o engenheiro de tráfego do Detran Wilson Aquino, a situação chegou a um ponto insustentável. “É importante entender que a cidade está parada e urge soluções. Ainda vejo que a saída é o transporte coletivo público. É tirar isso como prioridade e ter competência na sua gestão”, declara.

Integrações
Wilson Aquino aponta um caminho: seria importante identificar corredores principais e dar prioridade à circulação do transporte público, construindo uma rede básica de integrações. Por essa concepção, os coletivos vindos das periferias e municípios metropolitanos iriam até terminais de integração, de onde outros modais levariam os usuários até o grande centro.

A ideia já foi de alguma forma colocada em prática no Recife, através do Sistema Estrutural Integrado (SEI), apesar de diversos terminais ainda não terem sido concluídos. Aquino, entretanto, enfatiza que seu conceito precisa ser revisto, já que o SEI não atende à atual demanda. “Ele ainda está baseado no conceito da minimização do tempo de viagens, e não se trata apenas disso”, sentencia.

Para o engenheiro, há uma gama de iniciativas que precisam ser consideradas e colocadas em práticas. A curto prazo, ele elenca a alteração na engenharia de tráfego, a fiscalização sistemática e a educação no trânsito. Observa que as tecnologias devem ser utilizadas para ordenamento e fluidez das artérias. “Os semáforos precisam ser automáticos, não podem ser mais de tempo”, afirma.

A longo prazo, Aquino defende o planejamento e o controle do solo mais eficientes. “É preciso reunir os municípios da Região Metropolitana para que se diga qual cidade se
quer e quais soluções integradas precisam ser tomadas”, propõe.

À procura de soluções
Diversos são os projetos pensados para melhorar a mobilidade na cidade do Recife. O governo do estado trouxe à baila um que causou reboliço em alguns setores. Na perspectiva de aumentar a velocidade de deslocamento dos veículos na Agamenon Magalhães, uma das principais avenidas da capital, foi anunciada a construção de quatro viadutos nessa artéria. A iniciativa rendeu, inclusive, uma audiência no Ministério Público de Pernambuco, no mês de março. O resultado foi a solicitação de mais esclarecimentos sobre a obra, inclusive um estudo de impactos ambientais e urbanísticos.

A polêmica foi gerada a partir dos questionamentos de um grupo de arquitetos e moradores do local. O Escritório César Barros Arquitetura chegou a apresentar outro projeto em substituição ao do governo. “A construção de viadutos é uma opção falida. Um conceito da década de 1920, que é segregador, pois seu espaço não se relaciona com o pedestre. A saída é democratizar o espaço público”, argumenta César Barros.

De acordo com ele, é necessário humanizar o espaço urbano para que a mobilidade, em especial nas grandes cidades, traga qualidade de vida para a população. “O bom é que possamos escolher a forma de nos deslocar. A pé – caminhando pelas calçadas, que precisam estar em boas condições, arborizadas –, de bicicleta, de metrô, de carro, de ônibus. O cidadão deve poder optar, e o planejamento da cidade e do bairro precisa contemplar isso. Precisamos resgatar o nosso ambiente urbano”, defende o arquiteto.

No lugar dos viadutos, o escritório de arquitetura apresentou uma proposta que inclui a criação de ciclovias e a racionalização das linhas de ônibus – 472 das que trafegam no centro expandido deixariam de circular na área. Propôs ainda a construção de sete pontes que dariam continuidade às vias que são interrompidas por rios e a implantação de sete pontilhões. Estima-se um gasto de R$ 170 milhões. “É para olhar o bairro de maneira plena e compartilhada com a comunidade”, explica Barros.

Diante do desconforto provocado pela proposta de construção dos viadutos, o governador Eduardo Campos já deu sinal de que há possibilidades de repensar a obra. “O que queremos mostrar é que estamos abertos a ouvir propostas que venham a melhorar o projeto. Sempre estivemos dispostos a incorporar uma boa ideia”, disse em 27 de julho, durante lançamento de outro projeto de mobilidade para o Recife, o Rios da Gente.

Mobilidade pelas águas
A proposta, que tem o objetivo de desafogar o trânsito na capital pernambucana, é tornar navegável o rio Capibaribe com transporte público fluvial, ideia que vem sendo pensada há décadas. A data prevista para o usuário utilizar o serviço é abril de 2014. O primeiro passo foi a liberação do edital de dragagem do Capibaribe.

O projeto prevê a navegabilidade de 13,4 quilômetros do rio. Estima-se que 335 mil passageiros possam utilizar esse sistema de transporte público por mês, que consistirá em embarcações com capacidade para transportar 86 passageiros por viagem. A estimativa de custos para execução do projeto é de R$ 289 milhões. Durante o lançamento do Rios da Gente, no Centro de Convenções em Olinda (PE), o secretário estadual das Cidades, Danilo Cabral, destacou que essa seria “a garantia de uma mobilidade urbana sustentável”.

Mais do que soluções sustentáveis, a realidade é que os gestores públicos precisam encontrar saídas urgentes para garantir a mobilidade no Recife. Do contrário, a cidade pode entrar em colapso em pouco tempo, com a falta de estrutura diante do aumento da demanda de deslocamento que virá com a Copa de 2014.

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