Política

Trump, Putin e Bolsonaro foram complacentes. Agora, a pandemia os deixou vulneráveis.

Líderes mundiais podem acabar pagando um preço político pelo seu cinismo e incompetência

19/05/2020 13:43

Bolsonaro e seus ministros chegando a Brasília (Joédson Alves/EPA)

Créditos da foto: Bolsonaro e seus ministros chegando a Brasília (Joédson Alves/EPA)

 
Se Boris Johnson está lidando errado com a pandemia, ele não está sozinho. Alegando falsamente que tudo está sob controle, desviando de responsabilidades, se escondendo da opinião pública, explorando a crise para ganho político, amontoando distrações artificiais e culpando a mídia: esses são padrões comuns de comportamento exibidos por alguns dos líderes mais poderosos – e instáveis – do mundo.

Eles pagarão um preço pelos seus cinismos e incompetências? É possível que alguns paguem, mesmo que demore um pouco. A pandemia está mudando os cálculos políticos ao redor do globo. Líderes que nunca pareciam vulneráveis, de repente parecem mais. Isso poderia mudar o cálculo estratégico e alterar o equilíbrio de poder entre países de maneiras inesperadas e permanentes.

A performance de Donald Trump é uma lição sobre como não lidar com uma emergência. Pode se tornar um estudo de caso obrigatório para futuros estudantes de gerenciamento de crise. Trump minimizou a ameaça no início, ofereceu garantias falsas, e fracassou em bolar um plano. Desde então, ele acusa a China de disseminar deliberadamente a “praga” enquanto usa a crise como arma para difamar seu rival Democrata, Joe Biden.

As falhas de caráter do presidente não precisam de ensaio nessa situação. Mas parece que um Trump desesperado vai fazer o que for preciso para reinicializar seus potenciais eleitores para a reeleição. Se isso significa fomentar uma guerra fria com a China, ou estimular divisões raciais e sentimentos anti-imigrante e anti-muçulmano, ele está preparado. E se tudo isso fracassar, ele pode tentar adiar as eleições de novembro, um cenário não descartado pelo seu genro bajulador.

O coronavírus fez de Trump um tipo de leproso. A falta de liderança federal e seu apoio ao fim prematuro dos confinamentos que ele nunca apoiou verdadeiramente parecem estar favorecendo um aumento nos casos de Covid-19 em pequenas cidades do centro-oeste e comunidades rurais de Iowa até o Texas. Esses são os corações dos EUA de Trump, onde seus eleitores mais fiéis vivem.

Como resultado, os Republicanos concorrendo ao Congresso estão fugindo de Trump, com medo de se infectarem pelas mentiras e desconfiança que cercam a Casa Branca. Enquanto empregos desaparecem às dezenas de milhões, as esperanças dos Democratas de ganhar o Senado estão aumentando. A liderança de Biden em estados importantes está ampliando, alimentada pelo colapso econômico e as gafes de Trump.

Vladimir Putin é outro líder que está em sérios problemas. Apenas alguns meses atrás, ele parecia invencível. Todo o falatório na Rússia era sobre “reformas” constitucionais que tornariam ele, efetivamente, um presidente vitalício. No momento, esses planos estão estagnados, talvez permanentemente. A decisão de Putin de se blindar dos danos, se isolando de Moscou, prejudicou bastante sua imagem de líder durão corajoso.

Depois de semanas de complacência, a Rússia se encontra com a segunda taxa mais rápida de infecção por Covid-19 no mundo. O primeiro-ministro de Putin, Mikhail Mishustin, escolhido a dedo, está hospitalizado, bem como o porta-voz do Kremlim, Dmitry Peskov. Em vídeo conferências realizadas para discutir a crise, Putin parece mais entediado que preocupado. A empatia nunca foi um forte seu.

As implicações políticas são potencialmente amplas. Ansioso para evitar levar a culpa por ambos desastres econômico e político, Putin designou a responsabilidade de gerenciamento da crise para as regiões, que precisam se proteger sozinhas. Os ricos homens de negócio – os chamados oligarcas – tomaram a frente. Com essas maneiras, o poder de um líder se desgasta e se esvai.

Outros políticos estão mostrando um nível de despreocupação irresponsável que faz Boris Johnson parecer positivo por comparação. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, atingiu um novo nível de irresponsabilidade ao ridicularizar medidas de proteção pública. O Brasil tem a maior taxa de mortalidade por Covid-19 na América Latina. Mas Bolsonaro prefere churrascos a visitas hospitalares. Ele ainda vai pagar com o seu emprego em um país onde o impeachment presidencial funciona de fato.

Na Turquia, enquanto isso, o vírus trouxe um bocado de assuntos de volta para assombrar. Uma economia estruturalmente frágil, uma sociedade civil e imprensa esburacadas, e um clima de medo criados por Recep Erdogan não se provaram diretrizes para um esforço de unificação nacional – levando a análises de que o reinado do presidente-sultão pode estar chegando ao fim.

Áreas de maioria curda ao leste da Turquia, por exemplo, os cenários de conflitos frequentes com o governo central, foram atingidas fortemente, segundo relatos. Nurcan Baysal, ativista e autora de Diyarbakir, conta um relato familiar de trabalhadores da saúde com medo de ir trabalhar pela falta de equipamentos de proteção. Mas é um problema político, também.

“Hoje, não temos testes suficientes, médicos suficientes, nem sociedade civil, nem prefeitos e nem medidas suficientes para atacar o coronavírus em cidades curdas”, disse Baysal – em parte porque muitos médicos e enfermeiras curdos foram demitidos nos expurgos de Erdogan.

Participante central nesse drama global, o imperador dos tempos modernos da China, Xi Jiping, não está prestes a cair – mesmo merecendo ser demitido. Ao invés, um empoderado Xi arrisca a sorte ao procurar transformar a calamidade em uma vitória de relações públicas para o poder brando chinês, fortalecendo a influência de Pequim às custas do enfraquecimento de países ocidentais.

Os EUA tateando, e a Rússia e a Europa debilitadas, oferecem a Xi uma oportunidade macabra para avançar sua visão da China como potência global dominante. Mas as provocações agressivas dos seus diplomatas e quadros de partido estão alimentando um contra-ataque internacional.

A pressão para retaliar e colocar Pequim em quarentena está crescendo, politica e economicamente. E isso impulsiona a narrativa de campanha confrontacional de Trump.

Trump alega que a China quer negar a ele um segundo mandato. Ainda assim, o oposto pode ser verdade. Xi reconhece um idiota útil quando vê um – e esse presidente estadunidense é facilmente superado. Pensar que as táticas de oposição da China podem ajudar a reeleger Trump é suficiente para enojar qualquer um.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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