Política

Trump e Bolsonaro, um só coração

Trump y Bolsonaro se tornaram referentes mundiais de uma direita perigosa e violenta. Odeiam a diversidade sexual e cultural, exaltam o militarismo e são inimigos dos imigrantes. Ambos questionam o desarmamento nuclear, não acreditam na crise climática e são categóricos em afirmar a necessidade de esmagar as ideias de esquerda. Suas políticas unilaterais não ajudam a pacificar o mundo, exacerbam a agressividade da extrema direita e colocam mais fogo nos conflitos internacionais.

21/03/2019 12:54

 

Os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro se reuniram em Washington para fortalecer uma amizade que nasce de claras concordâncias ideológicas. O fazem num momento trágico, após um ataque de supremacistas brancos que assassinou 49 pessoas, imigrantes muçulmanos, em mesquitas da cidade de Christchurch, na Nova Zelândia.

O principal suspeito do ataque, o australiano Brenton Harrison Tarrant, transmitiu ao vivo o massacre, com uma câmara colocada em seu capacete. Segundo o revelado pelo The New York Times, nesse mesmo dia o indivíduo havia publicado um manifesto em que se identificava com Anders Breivik, o terrorista de extrema direta norueguês que matou 77 pessoas em 2011, e também com Dylann Roof, supremacista branco que matou 9 afro-americanos em uma igreja da Carolina do Sul, em 2015. Agregou em seu manifesto uma saudação ao presidente Trump como “símbolo renovado da identidade branca”.

Trump y Bolsonaro se tornaram referentes mundiais de uma direita perigosa e violenta. Odeiam a diversidade sexual e cultural, exaltam o militarismo e são inimigos dos imigrantes. Ambos questionam o desarmamento nuclear, não acreditam na crise climática e são categóricos em afirmar a necessidade de esmagar as ideias de esquerda. Suas políticas unilaterais não ajudam a pacificar o mundo, exacerbam a agressividade da extrema direita e colocam mais fogo nos conflitos internacionais.

O presidente do Brasil não vacila em destacar sua admiração pela ditadura militar do seu país (1964-1985) e em respaldar o uso da tortura contra opositores de esquerda. Seu questionamento ao PT e a Lula vai além da conjuntura. Ele pretende acabar com a influência do socialismo no Brasil: “Não podemos seguir flertando com o socialismo, o comunismo, o populismo e o extremismo de esquerda”.

Por outra parte, Bolsonaro propôs combater o crime nas cidades e na Amazônia, entregando à polícia autoridade para abrir fogo contra supostos delinquentes. Paralelamente, disse que modificará as leis para permitir que os brasileiros possam comprar e utilizar armas. A presença de oito generais em seu gabinete não parece ser casual. A militarização do Brasil já começou.

O presidente do Brasil também questionou o pacto migratório das Nações Unidas, e anunciou a retirada do país do acordo, seguindo a política de Trump sobre um tema de alta sensibilidade para la Humanidade.

Nesses temas, como em vários outros, há concordâncias evidentes entre Bolsonaro y Trump. “Sou um admirador do presidente Donald Trump. Ele quer um Estados Unidos grande, eu quero um Brasil grande”, disse em sua primeira conferência de imprensa, depois de seu esmagador triunfo. Por isso, é muito perigosa uma reunião entre esses dois líderes dos maiores países das Américas, e ainda por cima secreta.

O presidente Trump colocou no centro de suas políticas o tema migratório. Atacou persistentemente a caravana de migrantes centro-americanos que tenta chegar aos Estados Unidos, inclusive militarizando a fronteira com o México. Além disso, durante todo o seu mandato tem perseverado na proposta da construção de um muro contra aqueles que querem entrar por terra neste país da América do Norte.

Em fevereiro deste ano, Trump deu um discurso sobre o Estado da União, foi enfático em dizer que “esta noite renovamos nossa determinação de que os Estados Unidos nunca serão um país socialista”. Certamente, atacava o governo venezuelano; e também aludia a um eventual concorrente eleitoral nas eleições de 2020: Bernie Sanders, que se declara abertamente como socialista democrático.

Existem claras semelhanças entre ambos os líderes, e não só sobre a Venezuela. Sua reunião privada pode ter sido um momento para desafogar toda a raiva contra imigrantes, muçulmanos, a diversidade sexual e o socialismo. É provável que tenham compartilhado sua forte rejeição ao multilateralismo ou a qualquer reivindicação progressista.

A presença da extrema direita liderando os dois maiores países das Américas não anuncia nada bom para a nossa região, nem para o mundo. Na realidade, não se trata de algo isolado. A xenofobia, o autoritarismo e o questionamento às ideias liberais e socialdemocratas se alastram pela Europa. A ultradireita tem Salvini na Itália e Orbán na Hungria. Strache na Áustria também se encontra em posições de poder. Também está presente em outros países com peso suficiente para marcar a agenda política: UKIP no Reino Unido, a Frente Nacional na França, além da Alternativa para a Alemanha.

Os anos vindouros serão difíceis para a democracia, a liberdade e as posições progressistas.

A crise econômica de 2008 alimentou a insatisfação popular na Europa e nos Estados Unidos. A classe operária e os setores médios se viram seriamente afetadas em suas condições de vida. Os partidos socialdemocratas, liberais e conservadores foram incapazes de atender suas demandas. Se colocaram ao lado do capital financeiro, fizeram cortes nos serviços públicos e favoreceram a desproteção social.

A incapacidade dos políticos tradicionais criou as bases para a direitização de grande parte da Europa e dos Estados Unidos, e agora do Brasil. Por sua parte, as invasões e guerras no Iraque, Síria e Líbia multiplicaram a crise dos refugiados e ampliaram a xenofobia e o nacionalismo, o que levou a questionamentos ao projeto da União Europeia, como ficou evidente no caso do Brexit.

Por sua parte, a América Latina viu a “esquerda do Século XXI” e o progressismo não ser capaz de implementar um modelo alternativo ao neoliberalismo. Passaram por diferentes governos e não impulsaram políticas de transformação produtiva, mantendo a lógica do extrativismo rentista. Tampouco realizaram políticas sociais universais, ficando presos na focalização dos programas. E, o mais grave de tudo, se perderam na corrução.

Estados Unidos, depois de décadas de relações distantes com o Brasil, encontrou em Bolsonaro um forte aliado. Ambos os governos não só tentam unir forças para derrubar Nicolás Maduro como a partir de agora defendem a mesma estratégia geopolítica “que terá um profundo impacto não só neste hemisfério como em todo o mundo”, segundo John Bolton, conselheiro de Segurança Nacional de Trump.

Trump e Bolsonaro são agora um mesmo coração, e se transformara em referentes de uma direita perigosa e violenta.

Roberto Pizarro é economista com estudos de pós-graduação na Universidade de Sussex (Reino Unido). Investigador Grupo Nova Economia. Foi professor da Faculdade de Economia da Universidade do Chile, ministro de Planificação, embaixador do Chile no Equador e reitor da Universidade Academia de Humanismo Cristão (Chile)

*Publicado originalmente em eldesconcierto.cl | Tradução de Victor Farinelli

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