Política

Um roteiro de ficção científica para esses dias de quarentena e incerteza

 

06/04/2020 16:15

 

 

A ficção científica (FC) não é o gênero literário mais comemorado, o que explica que somente um dos seus grandes nomes tenha sido até hoje agraciado pelo Nobel. Por outro, não há gênero que mais nos faça pensar em saídas para problemas possivelmente insolúveis, e muitas vezes construir um imaginário de fantasias, seja otimista seja pessimista para o futuro, passado e presente da humanidade.

O roteiro que segue é breve e muitos irão dizer que falta esse ou aquele autor. O roteiro é construído a partir das minhas leituras e com base em dois pressupostos: i) a leitura ficcional se torna mais interessante quanto mais desafio são postos para nossa imaginação, não seria ficção se fosse obvio; ii) a melhor ficção combina ruptura temporal, mudança sociológica e reconfiguração espacial.

A ruptura temporal se dá tanto em movimentos de alteração históricas abruptas e também em saltos temporais tênues. Muitas vezes os movimentos de alteração históricas mais radicais se processam em tempos curtos, como se dias valessem por anos e anos valessem por séculos, como prognosticou Lenin.

As mudanças sociológicas são também parte das formas de ver ideológico dos autores, sendo que parcela considerável da ficção científica modela o tempo conforme uma sociologia pouco dinâmica, o que é curioso já que as maiores alterações na história são dos padrões sociais. Acrescente-se a isso a ausência em grande medida nas ficções de configuração econômica. Alguns dos autores mais recentes buscaram construir um dialogo mais amplo com alterações sociais, crises econômicas e ambientais, porém os clássicos dessa literatura são poucos afeitos a tratar das condições e rupturas econômicas e sociais. Neste texto os convido somente a visitarem alguns clássicos dos séculos XIX e XX, autores mais recentes ficarão para outro artigo.

Por fim, a reconfiguração espacial, algo que os autores tratam, em grande medida, na forma de choques entre civilizações de níveis tecnológicos próximos e com formações espaciais integradas. Bem, vamos ver os nossos autores e buscaremos marcar os que rompem de algum modo os pontos acima expostos.

Nossa breve excursão se inicia com dois autores vitorianos, figuras que transitando do auge do inebriante século XIX emergem no século XX ainda bastante incertos com as possibilidades da humanidade e de sua ciência, em grande medida positivistas, mas irrequietos. Julgo que Júlio Verne (francês) e H.G. Wells (inglês) são em grande medida exemplares da produção de uma FC que explode os fatores acima que nos guiam.

Verne (1828-1905) é o exemplo típico de um pequeno burguês parisiense de meados do século XIX. Na primavera de 1851encontramos Júlio Verne nos cafés ocupados por tropas bonapartistas, porém na companhia de figuras como Victor Hugo e Alexandre Dumas.

Na cabeça daquele homem mapas e viagens fantásticas. Foi assim que em uma tarde de 1868, Verne tem a magnífica ideia de supor a ida do homem a lua. Este libelo as viagens espaciais, intitulado “Da Terra à Lua”, se torna, talvez, a obra inicial de compreensão do papel geopolítico futuro dos EUA, sem contar a impossível caneta de Marx e sua correspondência jornalística com o “New York Tribune”, que já estabelecia o que se tornaria no século XX, esse que agora é o Império em agonia imposto pelos ventos asiáticos e pela metamorfose ambiental e sanitária que satura o ar em toda e qualquer parte do planeta.

“Da Terra à Lua[1]” tem um inicio fantástico e que nos faz vislumbrar como o capitalismo do século XX se desenvolverá: a indústria armamentista e a produção de guerras permanentes. A guerra de sessão estadunidense tinha acabado de se encerrar e Verne a acompanhou, tal como Marx, meticulosamente o avanço da indústria bélica, porém seu interesse romanesco o desviou para uma possibilidade que será um marco: a viagem espacial e a dificuldade de construir uma logística que possibilitasse este salto tecnológico.

Esse profeta do futuro inimaginável que já tinha previsto o submarino, no fantástico “20 mil léguas submarinas[2]” e a manipulação genética na fabulosa ficção “A Ilha Misteriosa”[3], nesta apaixonante ficção que se torna realidade curiosamente cem anos depois de sua publicação (1968), o autor antevê tanto a necessidade de combustível químico que lance uma capsula espacial, quanto, curiosamente o uso da Flórida (onde fica Cabo Canaveral) como ponto de lançamento: “o jato incandescente se elevou numa altura prodigiosa, as chamas iluminaram toda a Flórida e, por um tempo incalculável, a noite foi substituída pelo dia em quase toda a região”.

Em um salto vamos a Marte e a presença virótica tão central nestes dias, pelos pinceis de H. G. Wells (1866-1946), temos em “A Guerra dos Mundos”[4], a melhor descrição da disputa geopolítica, tecnológica e de diversidade biológica que se pode dar em termos planetários ficcionais. Neste clássico publicado em capa dura em 1898, temos a antecipação mais ambiciosa das forças em colisão de mundos diferentes e da presença fantástica do VÍRUS, sim é uma virose que derrota as forças de ocupação Marcianas e possibilita o domínio da humanidade no sistema solar. Em um único livro esse biólogo romancista, porque Wells era cientista e trabalhava com o principal biólogo do final do século XIX, o “cão de Darwin” e avô de Aldous Huxley, Thomas Huxley, consegue nos presentear com a antecipação das guerras robóticas, das reações viróticas e, principalmente, da recomposição de relações de poder num quadro de disputa entre forças desiguais.

Wells já nos tinha brindado com a impossibilidade da viagem linear no tempo e com a critica a noção da história progressiva, em seu “Máquina do tempo” não resta mais a gloriosa possibilidade humana e sua verve centrada na evolução nos faz escorregar até o fim da humanidade. Porém, neste fantástico a “Guerra dos Mundos”, ele interpõe a lógica capitalista de tudo sugar na forma de seres fantásticos em grande medida somente “cérebro” e distantes da condição de vida natural, distantes de todas “essas flutuações orgânicas de humores e emoções”. Antecipa, portanto, a inteligência artificial e essa proximidade de uma humanidade desumanizada, o que os marcianos de Wells são. Por fim derrotados por um VÍRUS!

Entramos no século XX, esse nosso criador e também destruidor de almas e papéis. São muitos autores e alguns são talvez autores de outras realidades, talvez de universos paralelos e que mediante dobras espaciais ou buracos inter-universos nos presentearam com tanta imaginação. Vou me deter em sete autores que constroem um mosaico impenetrável das realidades em mutação daquele e deste século: Huxley; Orwell; Hesse; Dick; Bradbury; Adams e Asimov.

Aldous Huxley, neto do Huxley que era mentor do Wells, inaugura a ficção distópica que se torna o padrão ficcional dos dias atuais. Porém, esse autor era de uma grandiloquência sem igual, sua lógica e interatividade com o tempo complexo o torna um romancista sem igual e talvez, acho eu, insuperável. “Admirável Mundo Novo”[5] é uma obra prima, reúne ao mesmo tempo a fantasia de Shakespeare[6], o realismo de Charles Dickens[7] e a angústia feroz de Alan Poe[8].

O “Admirável mundo Novo” deve ser lido em suspiros, a lógica do autor mistura cognição sociológica expressa na forma e sociedade vislumbrada: controle social, psicologia integrada, desigualdades falsamente suprimidas pelo exilio espacial. A disputa social, entre o isolamento daqueles que estavam submetidos a radiação atômica, um tipo de vírus tão ou mais mortal presente no nosso agora e futuro próximos, ou o esquecimento da história, coisa que Huxley vai retomar em “O macaco e a essência”, seu último romance que pensa como a humanidade terá o fim antes de se pensar enquanto civilização.

Esse distópico formidável será seguido por um ficcionista sociológico por essência, agente da humanidade e radical socialista: George Orwell. Eric Arthur Blair tinha lutado na guerra civil espanhola, e no belíssimo romance de Padura[9] aparece como o jornalista que luta pela causa republicana, uma fantástica e emocionante configuração do construtor de futuros como pensava Marx do Manifesto.

“1984” é hoje em tempos de vírus e fim das relações cordiais um magnífico brinde. A incapacidade de controle não mais existe e o “grande irmão” se torna a essência da própria vida contra o algoz que se naturaliza: é o vírus Brothers! É o vírus Brothers! A fantasia construída pelo autor que mais previu o fim da condição humana estabelece outra dificuldade: será possível a humanidade continuar existindo com o fim da criatividade e seu completo controle pelas máquinas e inteligências artificiais?

Ray Bradbury vem aumentar essa angústia, autor conhecido por “Fahrenheit 451”[10], mas em “A cidade inteira dorme”[11] temos o mais doloroso momento da ficção científica, coisa da angústia de um capitalismo sempre querendo e uma humanidade mais e mais vazia, assim: “havia mil pessoas nas vitrines, rígidas e silentes, e três pessoas na rua, os ecos seguindo-as como tiros vindos das fachadas das lojas...”. A construção de uma ficção sociológica alcança o auge neste autor, possibilitando, pela primeira vez, observar o fim da lógica capitalista e a caótica construção da barbárie.

Será nesta desconstrução fantástica que o mago da fantasia psicológica se imporá.

Philip Dick viverá o suficiente para pensar a deformação da psique humana e o estabelecimento de mundos radicais e grotescos. Vale com certeza ler dois trabalhos fantásticos desse mago: O caçador de androides e o homem do Castelo alto. Vale ressaltar o que há de melhor neste dois trabalhos, a dificuldade da humanidade se ajustar frente as crises avassaladoras que ela própria produz, estabelecendo o que é a sequencia de uma humanidade perdida pela sua incapacidade de controlar a tecnologia, ou talvez mais correta o controle completo do capital sobre humanidade. Dick deveria ter se encontrado com Marx, ou com a versão estadunidense atual dele em Marshall Bermam[12], e estabelecido como espaço e realidade futura são destrutivos no sistema capitalista. Assim como os personagens de Dick suas almas são efêmeras e a ideia de história se refaz a cada novo click ficcional, talvez já estejamos no mundo de Dick.

Após tanto azar da humanidade vale muito chegar ao otimismo do mais celebre e fantástico ganhado do “Nebula”, o prêmio Nobel da FC. Não há como desmerecer esse gênio e tão pouco celebrado, refiro-me a Isaac Asimov e sua pessoal contribuição para o destino da humanidade.

Asimov seria uma espécie de fio continuador de Verne e Wells, seja pelo otimismo futurista da humanidade, seja pela criatividade dos autores, sem desmerecer a loucura criativa dos demais. A obra extensa deste autor nos faz levar para duas produções fantásticas: “Fundação” e “Os próprios deuses”.

A trilogia “Fundação”[13] é uma obra inigualável, seja pela aventura histórica que oferece, seja pela construção psicológica dos personagens e da possibilidade idílica da humanidade. Asimov está para o século XX como Homero estava para antiguidade. Nestes dois autores a humanidade se supera e se reconstrói. No clássico Grego a “Odisseia” se estabelece como vitória da racionalidade sobre o mítico. Em Asimov a “Fundação” reestabelece a racionalidade humana e se expande para além do mítico.

A outra obra que recomendo do autor russo erradicado nos EUA, que considero magnético é “Os próprios Deuses”. A ausência de humanidade e a descoberta de saídas para os principais problemas desta incognoscível civilização está exposto nesta ficção. Nosso autor se despoja completamente do século XX e está em outro universo temporal. Nesta obra pela primeira vez a ficção científica deixa de estar no Universo plano de continuidade linear, e passamos a ter um Universo multidimensional e torto, quase próximo aos caos existencial.

É esse Asimov caótico que estabelece o cômico e sem igual Douglas Adams. O incoerente “Mochileiro das Galáxias” possibilita viajar pelo tempo contínuo sem sair do lugar, por conta de que o Universo se expande em tempo continuo. A comicidade de “Arthur Dent” e sua critica avassaladora ao capitalismo e ao Universo em destruição permanente faz desta obra uma leitura que suaviza qualquer angústia nestes tempos, mostrando que podemos e haveremos de viajar pelo universo e chegar até seus impossíveis confins, mesmo que o último restaurante esteja nas “bordas da Galáxia”. Para se viajar no Universo não podemos requerer tecnologias mecânicas ou quânticas, a única forma são as tecnologias da imaginação e da projeção da ruptura das ideias caóticas, a metafisica retornando ao mundo do caos.

Fecho esse guia, com uma fusão de cientificidade e racionalidade oriental. Hermann Hesse é uma leitura difícil, mas central para se pensar o futuro da ficção científica no ocidente. Fato curioso é que essa obra “O Jogo das Contas de Vidro”[14] é o único romance futurista que ganhou o Nobel. O que nos interessa, porém, é que no exercício ficcional da continuidade da humanidade três forças estabelecidas por Hesse atuam de forma avassaladora nestes dias de destemperança e incoerência racional: i) “a renúncia à criação de obras de arte”, uma subordinação total a negação do que é a própria humanidade. Aqui Hesse e Huxley parecem ser únicos; ii) a negação da individualidade e a afirmação da universalidade enquanto condição histórica da humanidade; iii) a critica filosófica a alienação, numa perspectiva de que somente a construção definitiva da “árvore humana” possibilitará a ruptura com o “egoísmo” que impossibilita as viagens para outros universos.

A leitura da ficção científica dos dois últimos séculos se torna neste momento critico da humanidade um exercício mais que necessário. Aprender o futuro da humanidade está em conceber futuros dispersos e condições caóticas que somente a ficção científica possibilita a abertura de mentes e ideias para superar o presente angustiante.

José Raimundo Trindade (Professor da UFPA) 

[1] https://www.baixelivros.com.br/aventura/da-terra-a-lua-pdf

[2] https://www.baixelivros.com.br/aventura/20-000-leguas-submarinas-pdf

[3] http://lelivros.love/book/baixar-livro-a-ilha-misteriosa-julio-verne-em-pdf-epub-e-mobi/

[4] https://www.elivrosgratis.com/download/3260/a-guerra-dos-mundos-h-g-wells.html

[5] http://lelivros.love/book/download-admiravel-mundo-novo-aldous-huxley-em-epub-mobi-e-pdf/

[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/William_Shakespeare

[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Dickens

[8] https://pt.wikipedia.org/wiki/Edgar_Allan_Poe

[9] https://www.boitempoeditorial.com.br/autor/leonardo-padura-243

[10] https://www3.livrariacultura.com.br/fahrenheit-451-30170608/p?utmi_cp=13574&gclid=CjwKCAjw4KD0BRBUEiwA7MFNTZi__qomGf2HFJG-Ejoaa1aYtDnOg4j2AknuZfaQr4QHwu3eAvkacxoC44IQAvD_BwE

[11] https://docplayer.com.br/14662660-A-cidade-inteira-dorme.html

[12] https://pt.wikipedia.org/wiki/Marshall_Berman

[13] https://www3.livrariacultura.com.br/trilogia-da-fundacao-box-11027212/p?utmi_cp=13574&gclid=CjwKCAjw4KD0BRBUEiwA7MFNTYJzFMxm4nsFar9gv3n73YcSpxuXMv3m2pkEBOxpDKbt6IxhqrQDdhoC-0MQAvD_BwE

[14] https://www.skoob.com.br/livro/pdf/o-jogo-das-contas-de-vidro/livro:1821/edicao:2469

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