Política

Uma chama acesa na Justiça brasileira

 

09/07/2018 10:52

 

 
Ainda não está claro o que acontecerá com Lula nos próximos dias. Mas mesmo que continue preso em Curitiba de forma ilegal, como vem sendo o caso até agora, algo já será diferente. Algo que mudou a partir deste 8 de julho de 2018. Já se vê com maior claridade a manipulação dentro dos órgãos judiciários brasileiros. Estes fatos contribuem para que a sociedade brasileira ganhe mais consciência do momento de inflexão em que se encontra a nação. Nas próximas semanas, o futuro do Brasil estará em jogo nas urnas. Uma candidatura de Lula nas presidenciais marcadas para o mês de outubro permitiria à América Latina a chance de recuperar o caminho do desenvolvimento e da integração, aprendendo dos erros e avançando com as transformações que ainda estão pendentes.

Quando a democracia é sequestrada, já não há Justiça. O golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, em 2016 foi o primeiro ataque ao processo de transformação que era impulsado no Brasil. Os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), como todo ciclo político, foram heterogêneos. Trouxeram avanços inéditos, mas não conseguiram reconfigurar a correlação de forças com o verdadeiro poder das elites brasileiras. No dia que Dilma foi reeleita, em outubro de 2014, vencendo por pequena margem ao candidato da direita, Aécio Neves, as forças conservadoras decretaram que já haviam esperado demais, e passaram a trabalhar para recuperar o que sentem que lhes pertence e que as urnas se negavam a dar.

A partir da ilegítima destituição de Dilma, pensavam que haviam decretado o fim da esquerda brasileira. Os golpistas, gananciosos, implementaram políticas de ajuste que levaram o opaco Michel Temer a cair nas pesquisas, e ficar num patamar abaixo dos 5% de aprovação. Qualquer semelhança com a realidade argentina não é pura coincidência. A sociedade, passiva e desconfiada dos rumos que o país foi tomando, simplesmente comparou e tomou consciência que os avanços não chegaram por um passe de mágica. Então, iniciou-se o segundo estágio do golpe: destruir a credibilidade de Lula, prendendo-o e impedindo sua candidatura. Especulou-se que essa seria a morte política definitiva do PT e de seus líderes, Lula e Dilma. Mas novamente se equivocaram. Lula cresce e continua encabeçando todas as pesquisas. Triunfa em todos os cenários onde seu nome é apresentado. Cada novo indicador social e econômico do gigante latino-americano demonstra a decomposição do modelo golpista, o que se traduz em impulso na imagem e nos votos do torneiro mecânico.

Desacreditado entre os meios de comunicação, perseguido, condenando mesmo sendo inocente, e finalmente preso, Lula vai construindo sua verdadeira dimensão histórica. Entre o sangue e o tempo, decidiu pelo tempo. Rodeado de seguidores, aceitou cumprir uma condenação questionável, e questionada por juristas e líderes globais, com a convicção de que o tempo coloca cada personagem no lugar que lhe corresponde. Como disse Pepe Mujica, Lula não está preocupado por sua situação pessoal, senão que pelo enorme retrocesso que o Brasil vem sofrendo, e o impacto disso especialmente entre os mais pobres da população.

O desembargados Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, com sede em Porto Alegre, concedeu um “habeas corpus” a Lula a partir da apresentação, na sexta-feira passada, feita por deputados do PT, e exigiu que a medida fosse cumprida de forma urgente. O juiz Sérgio Moro, um dos responsáveis por sustentar o estado de exceção no qual o Brasil se encontra, estava de férias em Portugal, mas interrompeu esse descanso para, de forma ilegal, contrariar a decisão da segunda instância, superior à sua, tentando exercer sua influência para que ele não fosse libertado.

A decisão de Favreto revela que dentro de um setor da Justiça brasileira surgiu um sinal de rebeldia contra o sistema persecutório que se impõe. Ainda que fracasse desta vez, não deixa de ser um passo adiante. Quem lidera os cenários eleitorais quando não é cogitado como candidato é o ex-militar Jair Bolsonaro, um fascista que declarou que “o erro da ditadura foi ter torturado e não matado” e que “Pinochet deveria ter matado mais gente”. Lula é um reformista. Como dirigente sindical, fez do consenso e do diálogo um dogma. A sociedade espera, atenta. O futuro é imprevisível. O “habeas corpus” é um choque para a sociedade e para os dirigentes de esquerda da América Latina. Nos desperta e nos lembra que a única luta que se perde é a que se abandona. Semanas atrás, perguntei a Dilma Rousseff por que o povoo brasileiro era tão passivo diante da injusta perseguição e prisão de seu líder. “A reação do povo brasileiro é explosiva”, respondeu ela. Talvez, neste domingo vimos acender um pavio.



Conteúdo Relacionado