Política

Uma doença chamada Desbrasil

 

07/08/2019 13:05

 

 
Em 1932, Sigmund Freud e Albert Einstein discutiram as possíveis causas dos conflitos armados entre as nações. Os diálogos registrados em cartas e publicados em 1932, sob o título Por que a guerra? nos ensinam como governos autoritários, em tempos obscuros, forjam a realidade para liberar todo a agressividade contida na mente humana. Fundamentalismo religioso, fobias, patriotismo extremado e intolerância são elevados a níveis excepcionais, para, em seguida, hostilizar quem pensa diferente.

As reflexões de Freud e Einstein são atemporais. Vivemos a Revolução 4.0, na qual dados compartilhados em redes sociais são usados para traçar perfis psicológicos e padrões de comportamento. Grupos políticos antidemocráticos se valem dessas informações para se eleger, convencendo milhares de que seus planos de (anti)governo são a solução para a crise econômica. Ultrapassada, a verdade pode ser recriada e recontada.

No cotidiano brasileiro, a quebra dos principais marcos civilizatórios tornou-se usual. Com brutal agilidade, o governo federal avança sobre minorias sociais. Para isso, utiliza a mentira: sempre que algo não está de acordo com o paradigma daqueles que comandam o País, sua principal figura entra em cena, para perseguir e silenciar.

O nascimento do clã que governa nossa nação se deu em função de mentiras. Logo, para sua sobrevivência, é necessário mentir continuamente ou construir pós-verdades. O chefe do Estado Brasileiro afirmou, recentemente, que o IBGE mentiu quando divulgou o aumento do desemprego em sua gestão. Afirmou também que a fome e o racismo não existem no Brasil. Utilizou a pós-verdade tanto como instrumento para reforçar a perversidade contra grupos socialmente minoritários, quanto para tentar extinguir lei de vital importância: qualificar povos originários em reservas como “animais em zoológico” e viabilizar o encerramento das aulas práticas para a obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) são exemplos disso.

Este cenário tem levado pessoas a padecer de um nova doença: a desbrasilidade, caracterizada pela desesperança quanto ao futuro do País. Psiquiatras e psicólogos referem significativo aumento do número de pacientes relatando sintomas idênticos: ansiedade, exaustão e pânico. É como se não fosse possível pensar na possibilidade de um futuro, pois os fatos do presente são esmagadoramente entristecedores.

Como lidar com tal estado de coisas? A resposta de Freud a Einstein talvez seja um caminho: “tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra.” De fato, será pela via da identificação com nossas próprias emoções e formando grupos que exercitem a empatia, que poderemos retornar à civilização!

Armando Januário dos Santos. Sexólogo. Pós-graduando em psicanálise. Concluinte da graduação em Psicologia. Graduado em Letras com Inglês. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br 

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