Política

Uma farsa chamada Lava Jato (parte II): leitura psicanalítica do termo canalha

 

11/06/2019 10:51

 

 

Ontem, gravei um áudio, chamando o Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, de canalha. Enviei para grupos de whatsapp e também para vários contatos. Um desses, em especial, me inspira profundo amor e encanto. Preocupada, essa pessoa me advertiu sobre os supostos perigos que, em sua opinião, eu estaria correndo: “Cuidado com esse termo [canalha]. Nas condições que esse país está, você pode ser preso!” Refletindo nessas palavras, decidi prosseguir examinando aquele que considero o maior escândalo político da história da República Nova. À luz da psicanálise, explicarei por que o uso do termo canalha é adequado tanto para Moro quanto para o procurador da República e coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, bem como de todos os envolvidos nas conversas do Telegram, divulgadas pelo The Intercept.

O termo canalha é oriundo da palavra latina canalia, que significa “bando de cães”. O psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) afirmou em dois dos seus trabalhos – Estou falando com as paredes, lição VII (1972) e Televisão (1974) – que o canalha não deve ser aceito por um analista. Essa recusa se deve pelo fato de: (1) o canalha, uma vez analisado, poder se tornar um tolo, não apenas como um inofensivo sujeito bobo, mas como um perigoso idiota, que pode relativizar e mesmo banalizar a crueldade, a ponto de cometer crimes contra a humanidade; (2) o canalha estar fechado para o inconsciente. Na prática, isso representa o estado denso e cerrado no qual o psiquismo do canalha se encontra. Ele se opõe à psicodinâmica dos processos inconscientes, a exemplo de sonhos e atos falhos, negando a ética psicanalítica; (3) um canalha, após a análise, pode se posicionar como analista, agindo dentro da sua ausência de princípios morais contra quem o procura para ser analisado, ferindo, assim, a ética, que deve constantemente permear a prática da psicanálise.

Observe o perfil de quem pratica canalhices: contrário à ética, manipulador e trapaceiro. O canalha não se submete às regras sociais; ele possui e segue um conjunto de leis pessoais e particulares. Mais: ele é a própria lei e desfruta imensamente quando utiliza do seu código legislativo peculiar – e por vezes ilegal – para acessar todo tipo de vantagens. O canalha se delicia quando, a partir do uso de métodos sórdidos, alcança seus interesses. Isso nos lembra quem?

A parcialidade de Moro sempre saltou aos olhos de todos. Quem não percebeu que aquele juiz, posando para fotos em eventos ao lado de forças políticas adversárias aos réus que julgava, era tendencioso? Sempre ao lado de membros do PSDB, Moro deixou claro, entre sorrisos e afagos, qual é o seu lado. A Lava Jato foi o bilhete de ingresso utilizado para ele distorcer a realidade, enquanto se apresentava como uma pessoa antissistema, um verdadeiro outsider, com amplos poderes para condenar os terríveis corruptos que, no campo político, estariam saqueando a Nação.

A realidade, porém, caminha em trajetória oposta. Sérgio Moro, conforme já explicitado na primeira parte desse artigo (https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Uma-farsa-chama-Lava-Jato/4/44296), em uma sucessão de atos que ultrapassam a competência de um juiz, agiu como ativista político e coordenador do Ministério Público Federal (MPF), auxiliando nas investigações. Ao mesmo tempo promotor, advogado de acusação e juiz, Moro liderou as ações do MPF e da Polícia Federal. Antes, ele passava a impressão de um juiz medieval. Agora, com o conteúdo divulgado pelo The Intercept ­– conforme seu jornalista e co-fundador, Glenn Greenwald, apenas 1% do conteúdo de 1.700 páginas foi à público –, temos a certeza de que desde o início da Lava Jato, ele, além de mediévico, manejou a realidade para fins eleitorais.

Na prática, a Lava Jato é um partido político que atuou para fornecer informações privilegiadas a outros partidos, com o intuito de inviabilizar o Partido dos Trabalhadores (PT) na corrida presidencial de 2018. Essa tese se fundamenta não apenas nos documentos publicizados pelo The Intercept: a direita brasileira sabia que em um processo democrático transparente, seria quase impossível vencer. As urnas não deixariam passar o projeto antipovo arquitetado pelos segmentos conservadores da sociedade. Era preciso, então, distorcer a realidade. Isso envolveu não apenas o golpe de 2016 e a prisão do presidente Lula. Era necessário interditar qualquer nome indicado pelo maior líder popular da história brasileira. Ele não poderia dar entrevistas da prisão, sob pena de, ainda nessa condição, desconstruir a realidade artificialmente criada por Moro e a Lava Jato. Por isso, derrubar a decisão do ministro Ricardo Lewandowski, que autorizou entrevistas à Lula, era imperioso e urgente. Entre rezas e desespero, os procuradores deixaram clara a sua posição: era vital barrar a entrevista de Lula, ou pelo menos torná-la frágil, transformando-a em uma coletiva. Horas depois, alívio e comemoração: o Partido Novo, através de liminar, conseguiu derrubar a decisão de Lewandowski. Nas conversas do Telegram, o Novo é chamado de “nossa PGR”, ou seja, um grupo político-partidário é alçado à condição de Procuradoria Geral da República! Neste ponto, o discurso de euforia daqueles que operam com seu próprio sistema de leis, levando vantagens ilícitas, se encaixa com perfeição no postulado lacaniano sobre os canalhas: eles vibram quando atingem seu intento.

Não se trata de ofensa, tampouco de disseminação de ódio. Antes, a observação realizada aqui, demonstra como, seja pela origem do termo, seja pela interpretação psicanalítica do seu uso moderno, a única palavra que consegue expressar as atitudes de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e a força-tarefa da Operação Lava Jato, reveladas nas conversas de Telegram, é canalhice. Sob o pretexto de combate à corrupção, eles atropelaram o rito jurídico, como um bando de cães famintos. Sob a evasiva de lutar contra ilicitudes, eles destruíram a cadeia industrial brasileira. Tristes constatações, especialmente para quem viu lisura nessa ação organizada. O que ocorreu, de fato, foi um conjunto de proezas que ferem de morte a Constituição.

Resta a Moro e Dallagnol, se afastar dos seus cargos. Essa posição, já sugerida pelo Conselho Federal e o Colégio de Presidentes Seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), se estende a todos os envolvidos nas conversas divulgadas pelo The Intercept. Caso não sigam tal recomendação, comprovarão mais uma vez a ausência ética no interior da sua psique, o que, segundo a argumentação lacaniana, é a essência de quem, em nome do seu próprio usufruto e convicto das suas crenças, alegremente manipula os outros, acreditando estar desobrigado de qualquer censura social: o canalha!

Armando Januário dos Santos. Sexólogo. Psicanalista em formação. Concluinte da graduação em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br 

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