Política

Valério complica vida de Dirceu e confirma dinheiro para o PSDB

09/08/2005 00:00

Valter Campanato/ABr

Créditos da foto: Valter Campanato/ABr

Brasília - O publicitário mais famoso do Brasil chegou ao seu depoimento na CPMI da Compra de Votos avisando que contaria “toda a verdade”. Indagado por que havia omitido informações em sua primeira audiência, na CPMI dos Correios, Valério confirmou a versão já antecipada por sua mulher de que estava esperando os envolvidos “abrirem o jogo”. Com os depoimentos de Delúbio Soares, Silvio Pereira, José Dirceu e com a descoberta de parte do esquema, Marcos Valério resolveu "revelar a verdade", entregando uma lista de 31 nomes que teriam sacado de suas contas ao Procurador Geral da República, Antônio Fernando Souza, e prometendo contar tudo às instâncias investigativas, principalmente as CPMIs. O “tudo” de Valério na verdade foi uma nova versão que acrescenta só o suficiente à antiga para tirar as atenções de si e colocá-las nos bancos Rural e BMG, e no PT e governo.

A estratégia do publicitário foi se colocar como apenas um operador, um laranja de Delúbio Soares. Para validar sua versão, tem buscado mostrar que o valor retirado de suas contas bate com os empréstimos feitos, e que, por conta disso, teria sido apenas o operador, uma pessoa com capital suficiente para conseguir os financiamentos e logística para repassá-los. O fato central para justificar esta tese foi o fato dos bancos terem renovado o financiamento com suas empresas embutindo os juros e sem exigir pagamento de qualquer parcela.

“A partir do momento que os bancos renovam sem pagar juros, a gente sabe por que acontece”, sugeriu. Das afirmações dele, foi possível ler um caminho indicado para as investigações centrado nas ações dos bancos e no que levou-os a facilitar os financiamentos, pois aí estaria o conflito de interesses mais pesado, a trilha para chegar aos “graúdos” e a chave do esquema.

Para reforçar esta argumentação, voltou a citar o nome do ex-ministro José Dirceu, pois sua tese não sobreviveria se Delúbio operasse a tal “influência” sobre os bancos sozinho, sem poder oferecer qualquer benefício relacionado ao governo em troca. Ele afirmou que Delúbio havia lhe garantido que os empréstimos repassados ao PT eram de conhecimento do ex-ministro da Casa Civil. Apesar de envolver o nome do Dirceu no esquema, se negou a afirmar com certeza que um dos depósitos destinados a um Roberto Marques se tratasse de um repasse ao homônimo assessor informal de José Dirceu. O cheque, que teria sido sacado por Marques, acabou sendo retirado por Luis Carlos Manzano, numa troca que não foi explicada por Valério.

Outro argumento para sustentar sua tese foi relativo a quais garantias ele teria recebido para operar os empréstimos. Afinal, se havia uma movimentação por cima junto aos bancos, ele primeiro teria de ter aceitado fazer a captação de recursos, ação que sem qualquer garantia pode gerar suspeitas sob suas intenções. Indagado pelo relator da CPI, deputado Ibrahim Abi-Ackel (PP-MG), sobre estas garantias, Valério respondeu: "De acordo com o senhor Delúbio Soares, o PT tinha uma arrecadação anual de R$ 50 milhões e deveria dobrar com a entrada de novos elementos no governo. Além disso, ele me cansou de falar que tinha o aval do senhor José Dirceu". De acordo com a avaliação do publicitário, pode-se interpretar que o fator determinante para a aceitação da tarefa não foi o patrimônio financeiro do PT, mas o político. “Não queria negar um favor ao partido do governo”, respondeu.

Colocou que esta motivação não tinha tido qualquer conseqüência prática, como um favorecimento ou superfaturamento dos contratos de publicidade ganhos por suas empresas, mas que era sempre bom ter uma boa relação com o partido “do governo”. “Em 1998, fiz campanha para o Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e depois com a entrada do Itamar [Franco] perdi as contas referentes ao governo estadual. Em 1998 foi a DM9 que fez campanha para o Fernando Henrique e ganhou várias contas. O mesmo com o Duda Mendonça no governo Lula”, ilustrou convocando sempre os deputados para “serem francos”.

Para reforçar sua defesa, Valério também repetiu a fala de Delúbio Soares sobre a contabilidade irregular nas campanhas e como empresas têm participação tanto no provimento do serviço sem nota fiscal quanto na doação “por fora. Para tentar “dividir” sua responsabilidade dentro de suas próprias empresas, lembrou que os cheques eram sempre assinados por dois sócios, sugerindo que os outros donos das agências também teriam a mesma responsabilidade.

Entre as poucas novidades do depoimento, Marcos Valério trouxe a lista de 31 nomes apresentada ao Procurador Geral da República e apresentou informações sobre outros 79 nomes que teriam recebido dinheiro durante a campanha de Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais. “Eu sei de mais pessoas, mas não tenho os comprovantes para provar. Quem pode falar mais sobre isso é o Cláudio Mourão, que determinou os pagamentos”, afirmou, sugerindo mais um nome para a já extensa lista de futuros depoentes. O publicitário explicou que teria feito o empréstimo de pouco mais de R$ 10 milhões em 1998 a pedido de Clésio Andrade, seu ex-sócio e candidato à vice na chapa de Azeredo, mas que, após as eleições, Andrade teria se recusado a pagar, acrescentando que o fato gerou uma disputa judicial “já conhecida lá em Belo Horizonte”.

A informação coloca ainda mais os tucanos no alvo das investigações. A denúncia da presença do Valerioduto na campanha de Azeredo começa a entrar no ritmo do escândalo do mensalão, com lista de sacadores e nomes para novos depoimentos. Alguns integrantes da CPI trataram de reforçar o clima valorizando a acusação sobre os tucanos e criticando a argumentação de que este fato seria história e não teria mais importância, como afirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “Não podemos esquecer a história por que para ter o Brasil limpo é preciso lavar tudo, e não só o que está aparecendo agora”, disse a senadora Ana Júlia Carepa (PT-PA). O episódio mineiro contribui para entender Valério como operador financeiro sem ideologia, mas que visualizou espaços no poder para o enriquecimento de suas empresas, e conseqüentemente seu.

Conexão Lisboa
Outra novidade do depoimento de Valério foram as esperadas respostas sobre a mais nova denúncia da crise do mensalão, uma suposta negociação com a Portugal Telecom para sanar dívidas do PT e do PTB que teria tido aval de parte da alta cúpula do governo federal. Valério contou que realizou uma série de viagens para Portugal e que teria sido apresentado ao presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa. Segundo ele, todas as visitas teriam sido em razão da intenção de apresentar as suas agências à empresa telefônica, que viria a comprar a Telemig Celular, a “maior conta de publicidade de Minas Gerais”.

Questionado sobre uma suposta reunião com o ministro português Antônio Mexia, noticiada pelo periódico português Expresso, afirmou que foi acompanhando Horta e Costa e não se apresentou como representante do governo brasileiro, como afirmava a matéria. Reportagem do jornal O Estado de São Paulo em quatro de agosto mostrou a negação de Mexia sobre esta suposta caracterização de Valério. O governo brasileiro também negou o acontecido. “A Presidência da República nega enfaticamente que o sr. Marcos Valério tenha sido, em qualquer momento, autorizado a apresentar-se como "consultor do Presidente do Brasil" junto ao governo português ou em qualquer outra situação. A representação do governo brasileiro fora do País dá-se exclusivamente pela indicação formal, com endosso oficial, o que nunca ocorreu. Tampouco a Embaixada do Brasil, em Portugal, intermediou qualquer audiência com o então ministro António Mexia”, afirma nota do Porta-Voz.

A presença de Emerson Palmieri, tesoureiro informal do PTB, denunciada por Roberto Jefferson (PTB-RJ) foi justificada com uma explicação frágil que envolve uma crítica ao próprio Jefferson. “O Palmieri era amigo meu, eu tinha uma grande intimidade. Em uma das viagens que fiz a Portugal ele quis ir comigo para sumir pois não agüentava mais a pressão do Roberto Jefferson”, disse. Valério trouxe novos elementos para incriminar o petebista e reavivou o acusação de corrupção no Instituto de Resseguros do Brasil. “O Palmieri me disse que estava sofrendo pressão para ir pegar um dinheiro lá no IRB com o genro do Jefferson, um tal de ‘Nescau’, mas que não queria e que não ia fazer aquilo”, colocou.


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