Política

Vamos aprender com o Velho, antes de decidir sobre as eleições

Em 1945, Getúlio Vargas, após o golpe da direita, evitou apoiar algum candidato até poucos dias antes da eleição. Lula não precisa ter pressa para escolher seu "sucessor" na eleição de outubro

18/05/2018 11:42

ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE S. PAULO

Créditos da foto: ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE S. PAULO

 

"Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra", Carlos Drummond de Andrade.

Quem é o Velho? Vargas, ora. Os tempos eram outros: 1945. Getúlio tinha 63 anos e já era "o Velho". Mais velho ainda seria em 1950, reconduzido ao poder central, aos 68 anos.

Em 1945, ele tinha sido apeado do poder. Por um golpe de direita, diga-se de passagem, que engambelou algumas das esquerdas de então com promessas de redemocratização quando, na verdade, já tratava de alinhar o Brasil aos lados Estados Unidos na nascente Guerra Fria, pós-Segunda Guerra.

Vargas seguiu para um "exílio interno", em suas estâncias de São Borja. Naquele final de 45, seguiu-o um cortejo de políticos de todas as facções do PSD e do PTB, recém criados, além de outros, com perguntas sobre o que fazer, todos em viagens de aviões, fretados ou não.

Mas também o seguiu o olhar atento das mídias jornalísticas, então centradas no Rio de Janeiro e um pouco em São Paulo, com perguntas e respostas sobre o que "desfazer". Traduzindo: tudo o que Vargas dizia ou desdizia, era imediatamente comentado, desdito, desmentido, triturado, sob o olhar daquela mídia mainstream que não era muito diferente da de hoje.

Falava-se no ditador Vargas; mas o Vargas detestado era o das leis trabalhistas, o ídolo dos trabalhadores, o rei da CLT. Havia campanhas nesta mídia para que Vargas fosse exilado, fosse expulso do país, para que fosse silenciado. Porque ele continuava sendo a principal referência política no Brasil.

No pós-Estado Novo, marcaram-se as eleições presidenciais e parlamentares para o começo de dezembro: para o dia 2 de dezembro, para ser mais preciso, pouco mais de um mês depois do golpe militar que depusera Getúlio, em 29 de outubro. Embora as eleições parlamentares e para os governos estaduais só se completassem em janeiro do ano seguinte.

Para a Presidência, definiram-se quatro candidatos:

Pela UDN, que então ainda congregava alguns deslumbrados das esquerdas, o flamboyant Brigadeiro Eduardo Gomes, da Aeronáutica, bonitão, solteirão, atraente. Deu origem a um dos slogans mais divertidos da política brasileira: "Vote no Brigadeiro, que é bonito e é solteiro". As "brigadeiras" fabricavam o famoso docinho de chocolate, que ficou com o seu nome (exceto no Rio Grande do Sul, onde se chama "negrinho"), e o vendiam para coletar fundos para a campanha. Era disparado o favorito e o preferido da mídia.

Pelo PSD, o obtuso general Eurico Gaspar Dutra, que contribuíra para a queda de Vargas, mas que tergiversava, prometendo, entre outras coisas, manter as conquistas do trabalhismo, coisa que na verdade não fez depois de eleito: durante seu governo, a legislação não foi desfeita, é verdade, mas não houve um único reajuste do salário mínimo, coisa que levou a uma série de revoltas e quebra-quebras em várias cidades do Brasil, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O PCB lançou o engenheiro Yedo Fiúza que acabou em terceiro, com 500 mil e tantos votos. E houve também o obscuro Rubem Telles, que ganhou apenas em Rio Branco (hoje Roraima) e terminou com pouco mais de 10 mil votos.

A pergunta que não queria calar era: o que fará Getúlio? Apoiará um nome do PTB (que acabou não tendo candidato)? Dutra, visto por muitos petebistas como "o traidor"? Pregará o voto nulo? Nada fará nem dirá?

E a Esfinge de São Borja permanecia em silêncio. Raposa velha estava ali.

Mas a cada hipótese que era lançada em seu nome, a mídia carioca e paulista caía em cima, revirando-a, triturando-a, denunciando-a, na tentativa de neutraliza-la e espatifar a imagem do ex-presidente.

Getúlio só quebrou o silêncio a poucos dias da eleição, apoiando Dutra num manifesto escrito de divulgação nacional. E decidiu-a. A maré virou, o General teve três milhões e duzentos mil votos e o Brigadeiro, pouco mais de dois milhões.

Um dado interessante: antecipando o comportamento da Globo na eleição de Brizola, em 1982, para o governo do estado do Rio de Janeiro, a mídia carioca, logo depois da votação de 1945, tentou, durante dias, manter a imagem (fake news, diríamos hoje) que o Brigadeiro estava ganhando, embora na contagem oficial ele já estivesse perdendo.

Claro está que as condições eleitorais de 1945 e as de hoje são muito diferentes. Basta dizer que Getúlio foi candidato ao Senado e como deputado federal tanto pelo PSD quanto pelo PTB e em diferentes estados.

Mas há uma lição em comum. Hoje, neste Brasil de tantas incertezas e da certeza golpista, muitos querem que o presidente Lula, hoje "exilado" não em alguma estância fronteiriça, nem mesmo no triplex que não é nem nunca foi seu, mas num cárcere em condições ignominiosas, não podendo receber visitas nem de seu médico, defina logo o seu "sucessor" na eleição de outubro, que nem sabemos se ocorrerá.

Ora, assim como em 1945, a mídia mainstream e sorrateira permanece à espera do menor de seus movimentos, para cair-lhe em cima na tentativa de destroça-lo. Se Lula fizesse tal definição agora, por exemplo, além de outras consequências políticas, esta mídia, a Lava Jato, os procuradores do Principado de Curitiba, a Polícia Federal etc. cairiam em cima dele durante meses para destroçar a sua imagem, a sua vida etc.

Portanto, quando mais não seja por outras razões, cai bem que Lula, assim como a Esfinge de São Borja, permaneça quieto a este respeito por enquanto, e  continue sendo a pulga na camisola, a pedra no sapato, a batata quente nas mãos, a pedra no meio do caminho de seus carrascos.

*Publicado originalmente na Rede Brasil Atual

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