Política

Vittorio Agnoletto: ''Se tivessem declarado a 'zona vermelha' milhares de vidas teriam sido salvas''

'Senza Respiro' ("Sem Fôlego") e o Prefácio do Presidente Lula tornaram-se uma grande referência sobre a pandemia para os movimentos sociais, associações e grande parte das forças sindicais e políticas de esquerda e progressistas na Itália e na Europa. A primeira edição se esgotou em apenas dois dias. Entrevista exclusiva a Carlos Tibúrcio

18/12/2020 16:33

 

 
Vittorio, por que você decidiu escrever "Senza Respiro"?

O livro, Tibúrcio, tem três objetivos principais: ajudar os leitores a não esquecer o que aconteceu, evitando a tendência natural das pessoas de remover da memória suas experiências dolorosas; o segundo é oferecer uma visão geral e cientificamente comprovada dos eventos, permitindo a identificação dos responsáveis por decisões que favoreceram a ação do vírus e causaram um aumento extraordinário de mortes; e, por fim, propor as mudanças necessárias na organização da saúde e para a construção de um serviço de saúde universal e gratuito. Dediquei bastante espaço ao que aconteceu na Lombardia não só pela enorme quantidade de pessoas que morreram devido ao Coronavírus, mas também porque essa região representa na Itália e na Europa uma das experiências mais avançadas do neoliberalismo e do domínio do mercado na área da saúde.

O que você nos conta sobre o lançamento do livro?

O que posso lhe dizer é que o livro e o Prefácio do Presidente Lula tornaram-se uma grande referência sobre a pandemia para os movimentos sociais, associações e grande parte das forças sindicais e políticas de esquerda e progressistas na Itália e na Europa. A primeira edição do livro se esgotou em apenas dois dias. Aproveito então para agradecer novamente ao Presidente Lula.

Como foi o comportamento das mídias, a corporativa hegemônica e a alternativa contra-hegemônica? A mídia corporativa deu espaço ao livro?

Praticamente, não. Houve uma censura muito forte por parte da grande mídia oficial, tanto por aquela diretamente controlada pela direita, que inclusive governa a região da Lombardia há vinte e cinco anos, como também pela mídia controlada pelo governo nacional. A grande e ampla difusão se deu por meio das mídias alternativas.

Quais as razões específicas para isso?

Vou explicar os motivos.

Se fosse uma nação independente, a Lombardia hoje estaria em primeiro lugar no mundo em termos de mortes, com cerca de 240 mortes por 100.000 habitantes.

Na Lombardia, houve e ainda há uma verdadeira tragédia e o governo regional não quer absolutamente falar sobre isso.

E o governo nacional não quer entrar em conflito com o governo da Lombardia, que é a região mais rica e populosa da Itália.

A razão principal para isso é a seguinte: o judiciário iniciou muitas investigações, a principal delas diz respeito à não declaração de uma "zona vermelha" (lockdown) na província de Bérgamo, de onde se desenvolveu o principal surto em toda a Europa.

Bérgamo é a cidade do mundo mais afetada pelo Coronavírus em relação à população.

Tanto o governo nacional quanto o regional poderiam ou deveriam ter decidido decretar a "zona vermelha", mas não o fizeram por causa da pressão que a Confindustria (a FIESP de lá) exerceu sobre eles.

Se eles tivessem declarado a “zona vermelha”, milhares de vidas teriam sido salvas. Simples assim.

É preciso saber que os magistrados já interrogaram representantes dos governos, mas ainda não formalizaram as acusações.

Assim, os dois governos, nacional e regional, evitam confrontos e tentam proteger um ao outro.

Um exemplo concreto: 100.000 cidadãos lombardos assinaram uma petição, juntamente conosco, pedindo ao governo nacional para enviar um alto funcionário do governo para cuidar da saúde na Lombardia, para evitar outros desastres. E o governo nem mesmo respondeu. “Senza Respiro” conta o ocorrido, com documentos e depoimentos, e o livro foi entregue aos magistrados. Por esses motivos, a censura da mídia hegemônica foi total.

Exceto por algumas matérias curtas em televisões nacionais e locais, tudo acontece na web porque reuniões públicas não são permitidas devido à Covid. Por esta razão, a cobertura da imprensa está quase inteiramente online. Além disso, usamos muito rádios locais, mais de duzentas rádios.

A verdade é que por meio da web, sites online e rádios, estamos conseguindo contornar a censura oficial. Nesta situação, o prefácio do presidente Lula foi muito apreciado, não só pela esquerda de origem marxista, mas também pelo mundo católico, por exemplo, pelo presidente nacional da ACLI (Associação Católica dos Trabalhadores Italianos) que organizou a apresentação do livro.

Depois do lançamento, como está sendo a promoção e a distribuição?

Desde 29 de outubro, quando o livro chegou às livrarias, fiz mais de 60 apresentações online com um total de dezenas de milhares de participantes.

E todas essas apresentações foram organizadas por forças sociais, movimentos e forças políticas de esquerda e progressistas, com seus secretários políticos nacionais participando ativamente de várias delas.

Outras 70 apresentações já estão programadas para dezembro e janeiro.

As apresentações contaram com a presença de pesquisadores e cientistas de importância nacional e europeia.

Quais os próximos passos em relação a “Senza Respiro”?

A organização Medicina Democratica promoverá no Fórum Social Mundial Virtual uma atividade sobre a pandemia e o livro, para a qual já convidou o ex-Presidente Lula, o Partido da Esquerda Européia - seção italiana, Rifondazione Comunista – e alguns ativistas sociais de diferentes continentes. Será então um evento de alcance global.

Gostaria também de destacar outra iniciativa: Juntamente com outros nove campanheiros de várias nações europeias, apresentei uma petição para recolher 1 milhão de assinaturas para pedir à Comissão Europeia que reveja as regras sobre patentes de medicamentos (Trips Agreements). Vou lhe informar o link, porque certamente poderá ser do interesse do seu público: www.noprofitonpandemic.eu

Queria terminar dizendo que na atividade proposta pela Esquerda Europeia no FSM também discutiremos esse proposta; e aproveitar para deixar mais um abraço de agradecimento ao Presidente Lula.







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