Primeiros Passos

Cobertura da onda de violência em São Paulo evidencia preconceitos da mídia

Folha e Estadão priorizam a versão oficial dos conflitos, destacando sempre os supostos vínculos entre o tráfico de drogas e os mortos pela polícia.

15/08/2012 00:00

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Créditos da foto: Arquivo

Repleta de imprudências e omissões, a cobertura dos dois jornais de maior circulação em São Paulo sobre a onda de violência iniciada há quase três meses, reafirma uma posição elitizada e preconceituosa que não contribui para a explicação sobre os recentes fatos. Essa conclusão foi feita a partir da análise que a Carta Maior realizou sobre as matérias publicadas na Folha de S. Paulo e o Estado de São Paulo, entre os dias 28 de maio e 10 de agosto, observando a frequência, os destaques, as fontes e alguns dos termos mais utilizados pelos diários. Diante da pesquisa, o jornalista Silvio Mieli comentou o resultado e criticou o fato de vermos pela mídia uma "militarização do cotidiano".

Atraso

Sabe-se que o aumento de mortes praticadas por policiais já vinha ocorrendo na cidade
e a cobertura, tendo como exemplo o dia 22 de maio quando a Rota matou seis homens
em um posto de gasolina no Cambuci, se resumia a pequenas notas nos cadernos
Cotidiano e Metrópole. Neste caso, a polícia não relacionou os mortos com o PCC
(Primeiro Comando da Capital). Mas, apenas o dia 30 de maio foi tomado como marco
inicial da cobertura pela mídia impressa da onda de violência que vem acontecendo nos
últimos dois meses. É nessa data que Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo noticiaram
a morte de seis supostos membros do PCC por oficiais da Rota (Rondas Ostensivas
Tobias de Aguiar), sendo que um deles foi torturado e executado.

Se a cobertura deste jornais se iniciaram no dia 30 de maio, para o jornal da família
Frias, a onda de violência na cidade se iniciou no dia 13 de junho, por ser data do
primeiro policial morto. A tese do jornal é exposta em um infográfico, publicado no dia
28 de junho, sobre a onda de violência que acomete a cidade, no qual exclui as chacinas,
apresentando apenas as localizações das mortes de policiais, as bases da PM atacadas e
os ônibus queimados.

Toque de recolher e drogas

No dia 31, a Folha deu a seguinte manchete sobre outro caso: “Bandidos impõem
toque de recolher na zona leste”, enfatizando o clima de medo na região a partir de
declarações de moradores. Em 28 de junho, porém, a Polícia Militar utilizou o mesmo
procedimento para tirar as pessoas da rua, mas o diário não utilizou os termos “impôs”
e “toque de recolher”, preferindo dizer que a “PM orientou comércios e escolas a
fecharem” ou “pediu o fechamento adiantado de estabelecimentos”. Já seu concorrente,
trouxe a abordagem violenta da polícia contra a população – que utilizou bombas de
efeito moral, segundo os moradores -, mas, sua manchete diz apenas que “tensão faz
ônibus deixarem de circular e causa toque de recolher na periferia”.

Apenas no mês seguinte o jornal deu outra abordagem a um fato semelhante, quando
trouxe a notícia de seis mortos em apenas quatro horas no Jaçanã após toque de recolher
imposto pela Rota. A Folha optou por destacar que o bairro era o mesmo onde um PM
havia sido morto uma semana antes. Na mesma matéria, colocou a declaração do pai
de uma das vítimas, na qual afirma que como seu filho era envolvido com o tráfico,
seu rumo só poderia ter sido “a cadeia ou o caixão”. Daniel de Melo, 21, levou quatro
tiros na cabeça. Essa é a justificativa oficial utilizada, que os jornais reproduzem,
para legitimar os homicídios ocorridos na periferia da cidade, como fica evidente na
afirmação do comandante da PM em Ferraz de Vasconcelos, Joel Chen, ao dizer que
“muitos desses mortos são usuários de drogas. E os crimes ocorreram em áreas que são
pontos de vendas de entorpecentes”.

O Estado de S. Paulo utilizou do mesmo expediente ao noticiar a morte de oito pessoas
em Osasco no dia 13 de julho. Sem ao menos identificar todos os mortos, o jornal
publicou que “dos dez homens baleados, alguns usavam drogas, de acordo com seus
familiares”. Para o jornalista e professor da PUC-SP Silvio Mieli, esse tipo de cobertura
remete a aspectos que foram forjados na ditadura militar e no estado de exceção
permanente que provocou. “Foi implantada uma ‘militarização do cotidiano’, uma
cultura desejada pela classe dominante brasileira e que foi posta em prática a partir de
1964, sendo a PM uma das vertentes desse processo. Ela está baseada evidentemente
no uso da violência para com os mais fracos, para os que vivem na periferia, para os
movimentos organizados e contra todos aqueles que se insurgirem contra o monopólio e
a hegemonia dessa violência”, disse o professor.

Suspeitos e bandidos

Outro aspecto obscuro na cobertura empreendida pelos diários é quanto à identificação
dos mortos ou responsáveis por crimes. Os termos “suspeitos” e “bandidos” são
utilizados com pouco ou nenhum critério nem justificativa, como nas matérias das
manchetes: “Dois homens são mortos pela Rota após perseguição na zona leste” (Folha,
03/07) e “Rota mata mais dois suspeitos” (Estado, 18/07). Além disso, há datas em que
os periódicos nem sequer identificam as vítimas, omitindo nome, idade, profissão e até
mesmo se possuía algum envolvimento com o crime, como nos textos das matérias: “SP
e Poá têm 9 mortos em menos de 12 horas” (Estado, 27/06); “São Paulo tem a terceira
chacina em 4 dias” (Folha, 27/06); “Capão Redondo tem 11 homicídios desde sexta-
feira” (Folha, 28/06).

No dia 27 de junho, a principal notícia era acerca de uma chacina em Poá e de mais
ônibus queimados. A Folha colocou uma matéria sobre os arrastões que vinham
acontecendo na capital na mesma página, em quadro ao lado, contribuindo para uma
interpretação de que tivesse algum tipo de relação entre os casos ou tentando justificar
as atitudes da polícia, enquanto seu concorrente deu capa aos ônibus incendiados e
apenas uma nota para as mortes, sem identificar as vítimas.

Outro caso emblemático é o sumiço de dois jovens do bairro Presidente Dutra, em
Guarulhos, na qual ambos os jornais noticiaram o protesto feito pelos moradores da
região quando já havia cinco dias que os adolescentes estavam desparecidos. Os diários
não acompanharam o caso, e no dia 26 de julho, o portal R7 trouxe a notícia de que dois
PMs foram presos suspeitos de envolvimento com o sumiço dos jovens. No dia 01/08, o
mesmo portal noticiou que foram conseguidas imagens de uma viatura da PM na mesma
hora e local do ocorrido. Mas a Folha e o Estado nunca mais falaram sobre o episódio.
Segundo Mieli, isso ocorre pois, a mídia coisifica os indivíduos, “trata seres racionais
e sensíveis, dotados de linguagem e de liberdade como se fossem coisas inertes e
passivas”.

Desigualdade

A morte do empresário Ricardo Prudente de Aquino, 39, é paradigmática na cobertura
dos jornais analisados. A partir desse caso, mais matérias passaram a ser feitas
questionando os procedimentos da PM de São Paulo. No dia 22/07, a Folha citou pela
primeira vez o método Giraldi, no qual os policiais deveriam basear suas abordagens e
que não teria sido seguido no caso de Ricardo. No entanto, pelo que se pode perceber
das próprias matérias anteriores (“Rota mata 4 na mesma avenida em dois dias” -
Folha, 04/07), esse foi apenas mais um caso de uma abordagem padrão que vem sendo
utilizada pela polícia: é dada uma ordem para parar o veículo, esta não é acatada,
há perseguição e troca de tiros, o “suspeito” é morto e nenhum policial é ferido. Não
obstante, no mesmo dia da morte do empresário, um jovem chamado Bruno, de 19 anos,
envolveu-se em uma perseguição com a PM e foi morto com um tiro na cabeça após
o veículo em que estava ser alvejado por 25 tiros. Um caso muito semelhante ao de
Ricardo, mas que não mereceu o mesmo destaque por parte de Folha e Estado.

O jovem Bruno não teve sua foto publicada, sua mãe não foi entrevistada, não buscou-
se descobrir suas aspirações de vida. A dramatização feita em cima da morte de Ricardo
(“ex-cozinheiro do D.O.M., vitima queria se tornar pai”) não ficou limitada a essas
matérias, com o mesmo ocorrendo nos dias 23 e 24 de junho (Folha) e 01 de julho
(Estado), os quais apresentam sonhos, histórias e elogios aos policiais mortos em
declarações de suas viúvas e colegas de profissão. Já Eleandro Cavalcanti de Abreu,
21, não usufruiu da prerrogativa dada aos policiais. Morto ao ser baleado em frente a
um bar, o jovem só recebeu atenção da imprensa pois um grupo de moradores de seu
bairro, Jardim Ângela, incendiou um ônibus em protesto e entregou uma camiseta com
uma foto sua para o motorista. Eleandro não possuía qualquer antecedente criminal e,
segundo sua mãe, que recebeu não mais do que três linhas no jornal, havia saído para
comprar uma pizza.

Descontextualização e voz oficial

Outro aspecto da cobertura dos diários é a falta de relação dos atuais acontecimentos
com os crimes de maio de 2006, quando conflito entre polícia militar e PCC gerou mais
de 500 civis mortos. Em 2011, foi apresentado o relatório “São Paulo sob achaque”,
elaborado pela ONG de defesa de direitos humanos Justiça Global e pela Clínica
Internacional de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard, o qual indica
que a corrupção policial foi o estopim para os ataques e que o governo paulista tinha
conhecimento das pretensões do PCC. Surgiu desse caso também, o movimento
Mães de Maio, criado por parentes de jovens assassinados no período, que luta pela
desmilitarização das polícias brasileiras e enxerga nos casos recentes a semelhança
dos ocorridos há seis anos. Não há, durante o período analisado, qualquer menção
aos crimes de maio de 2006 nas matérias de Folha e Estado de S. Paulo, a não ser em
um editorial do primeiro dia de junho, o qual defende que, em relação ao toque de
recolher ocorrido no dia anterior, diz que “o governo estadual precisa padronizar um
procedimento rápido contra esse tipo de ação”. Além disso, os jornais ignoraram o
protesto contra o genocídio da população pobre e negra de São Paulo, que reuniu cerca
200 pessoas no vão livre do MASP no dia 11 de julho.

Em editorial do dia 09 de julho, a Folha afirma que “a disposição do comandante-geral
da PM de pôr maior contingente nas ruas parece correta e digna de apoio do Estado”. A
maioria das declarações que acompanham algumas matérias seguem na mesma direção
de apoio. Entre os ouvidos estão o governador, o comandante da PM, o secretário de
segurança pública, o chefe da polícia civil. Movimentos sociais, como as Mães de Maio,
são ignorados, e no mesmo dia em que publicou a declaração de uma cientista social
que apontou existirem “grupos autônomos da polícia, que respondem por conta própria
à dinâmica que encontram nas ruas”, o jornal confrontou a declaração com um “outro
lado”, dando voz ao tenente-coronel da Rota, Salvador Modesto Madia, que disse estar
preocupado apenas com a legalidade das mortes. Madia é réu no processo do Massacre
do Carandiru, acusado de matar cerca de 77 pessoas.

Percebe-se a tentativa permanente de construção de que haja dois lado em conflito,
e que, resta aos leitores, decidir quem apoiar. O tratamento das notícias pela grande
imprensa, alterna matérias que ora demonizam o PCC, ora demonstram os equívocos
da polícia, mas sempre reproduz a versão oficial dos fatos violentos. Para Mieli, isso
evidencia que a mídia foi contaminada por um hiper-realismo ultraviolento, ao afirmar
que “sob o pretexto de reportar a violência que nos cerca, o tom da cobertura vai na
linha ‘Tropa de Elite’, ou seja, simplesmente descreve-se a violência praticada por
quem quer que seja e fica só nisso. Em comum a todas essas formas de realismo está a
incapacidade de aprofundar as ações violentas, contextualizá-las, verticalizá-las”.
Apesar de matérias que apontam para abusos e erros da Polícia Militar, na maioria
das vezes baseados em dados estatísticos, a análise geral da cobertura dos casos de
violência em São Paulo feita por Folha e Estado evidencia determinadas omissões e
irresponsabilidades no trato das notícias, que acabam por aproximar a visão dos diários
com as ações da polícia, dando a impressão de que a vida de uns, baseado em sua raça e
classe social, vale mais do que a de outros.



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