Primeiros Passos

Os entulhos da ditadura na imprensa do Brasil de hoje

Com jornalistas presos ilegalmente e matérias sendo revisadas pela Polícia Federal, a censura na ditadura provou que a ordem do patrão é a absoluta.

28/04/2014 00:00

Arquivo

Créditos da foto: Arquivo


 
"Em 1500 o Brasil foi descoberto, em 1964 o Brasil é redescoberto," passagem do caderno especial da Folha de São Paulo lançado no dia 31 de março de 1964, antes de ser anunciado o golpe. Dotados de um cinismo extremo, os principais meios de comunicação brasileiros do século XXl e que tiveram papel fundamental na disseminação do ódio golpista em 64, recontam a história com suas próprias palavras e sempre apostando na imparcialidade. A passagem da Folha acima é um exemplo claro do poder que a mídia possuía na época e que não se apagou até hoje.
  
Depois de terem tomado a ordem democrática das mãos do povo, os barões da mídia fingem arrependimento para blindar qualquer tipo de crítica e transmitir uma imagem mais conciliadora. Com excessão dos veículos Última Hora e TV Excelsior, os meios de massa da época apoiaram a ditadura explicitamente.
 
Manipulação
Em entrevista com o pesquisador e professor Luiz Antonio Dias, chefe do Departamento de História da PUC-SP, apontei para uma matéria publicada no blog Viomundo de Luiz Carlos Azenha, que tratava da manipulação de uma informação dada por Dias a um jornalista do O Globo. No Viomundo: "Há alguns dias, o professor recebeu uma ligação de um jornalista de O Globo. Como estava na rua e não dispunha dos números exatos nas mãos, arredondou: disse que as reformas de Jango tinham cerca de 70% de apoio popular. No outro dia foi olhar no jornal e constatou: segundo o jornalista, 30% dos entrevistados rejeitavam as reformas! Ou seja, o jornalista optou pelo viés negativo e cometeu um erro, já que o número real dos que rejeitavam era de 9% — os demais não sabiam ou não responderam. É a manipulação de informações, versão 2014!"
 
No O Globo:
                                                                                                  Fotos: globo.com

 
Perguntei ao professor se alguma coisa havia mudado no universo midiático desde a época do Golpe. Segundo ele: "Sobre o caso do jornal O Globo, particularmente, creio que existem duas possibilidades: a) texto mal redigido por falta de experiência ou empenho; b) informação deliberadamente alterada para reforçar a ideia de repúdio, que era o que ela queria afirmar desde o início de nossas conversas. Acho que hoje as coisas são melhores por conta da multiplicidade de veículos alternativos, por conta da internet, onde podemos conferir a veracidade das informações, no entanto, os interesses dos donos dos meios continuam, em algumas situações, se sobrepondo à informação e a verdade.”


                                                                                              Foto: Google
 
Manchetes da grande mídia em 64
 
Censura e Controle
"Concordar com a ação policial de ontem e hoje e com a Lei da Anistia é concordar com uma mídia absurda de 5 famílias que comandam o nosso país." Essas foram as palavras de Adriano Diogo, Deputado Estadual pelo PT, no Julgamento da Lei da Anistia: Tribunal Tiradentes lll, realizado na PUC-SP. Ovacionado pelo público, Adriano expôs o que muitos dos jovens da atualidade pensam a respeito dos controladores do país. Também abrangendo assuntos de interesse dos movimentos estudantis, Fábio Comparato, jurista e professor da USP, no mesmo evento, disse: "O direito só se aplica quando os interesses dos empresários estão em jogo. Como se explica o salto assustador do número de emissoras da Globo (de 3 para 11) em 1964?"
 
Com jornalistas presos ilegalmente e matérias sendo revisadas pela Polícia Federal, a censura na ditadura provou que a ordem do patrão é a absoluta. Somente a classe dominante exerce o controle. Não é o governo que censura um artigo, é o patrão, o dono do jornal. A autocensura está lá como uma estratégia e, como toda empresa tem um dono, nos meios de comunicação só é publicado o que o patrão acha conveniente. Roberto Marinho, por exemplo, atacava a TV Cultura como forma de apoio à ditadura. Ele era como um serviçal do regime e ao mesmo tempo patrono da elite conservadora.
 
Democracia?
A influência da grande mídia na transição incompleta da democracia depois da ditadura para os dias atuais é extenuante. Conversei com Venício Lima, jornalista e sociólogo, sobre o assunto. “A estrutura oligopolizada, não regulamentada e excludente da imprensa, controlada por poucos grupos restringe a liberdade de expressão afetando a população. Como diria Paulo Freire, 'nós praticamos a cultura do silêncio, o povo sofre uma censura disfarçada e é excluído da esfera pública devido os interesses privados de poucos'," disse o jornalista.
 
A mídia alternativa abriu um espaço para uma maior democratização da informação. Porém, os censores ditatorias ainda se fazem presente na realidade de alguns veículos e jornalistas. A função da grande imprensa não foi cumprida na época da intervenção militar e não é cumprida na atualidade. É escancarado o jogo de interesses por trás das empresas e famílias que controlam a informação. A ditadura midiática ainda existe. Sua vítima? O povo.



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