Primeiros Passos

Sobre pianos e turntables

Na academia, muito se fala sobre as implicações sociais do funk. Pouco se fala da estética e dinamismo criativo emergidos de um movimento complexo.

29/11/2013 00:00


Desde a conturbada gestão de Ana de Hollanda à frente do Ministério da Cultura, a gestão pública na área tem sido debatida cada vez mais. Embora louvável, esse aumento em quantidade nem sempre vem acompanhado de qualidade. No que diz respeito à música, um dos tópicos mais polêmicos gira em torno do funk carioca. Tirando os que se prestam ao preconceito puro e simples, é possível observar duas tendências ao olhar o fenômeno que costumam prevalecer.
 
Há quem trate o gênero em um tom patriarcal e inflija um olhar maniqueísta sobre os artistas dali oriundos, contrapondo-os entre politizados e alienados. Existiria, de um lado, o artista preocupado com sua comunidade e, de outro, aquele cuja atenção se dirige exclusivamente para sua ascensão social. Logo, é um olhar violento que retira de um movimento complexo apenas o que lhe apraz.
 
A outra revela seu germe no distanciamento e contamina parte da academia - sublinhado pelo fato da maioria dos estudos sobre o funk pertencer às prateleiras de Antropologia. Ou seja, uma ciência fundada na questão da alteridade teve de tentar dar conta do fenômeno. Com isso, pouco se fala da estética e dinamismo criativo dali emergidos, e sim de suas implicações sociais.
 
Não é preciso muito para notar o quanto essas visões são limitadas, mas há exemplos ainda mais escatológicos dentro do progressismo. No dia 16 de setembro, em debate promovido pelo Programa de Educação Tutorial do Departamento de Filosofia da FFLCH-USP, o professor Vladimir Safatle afirmou categoricamente que “o funk não deu em nada”. Embora ele defendesse que a divisão entre culturas popular e erudita não fosse mais suficiente - o que parece bastante razoável -, suas falas revelavam grande ignorância sobre manifestações tidas como populares.
 
Um ponto consensual entre aqueles preocupados com a gestão pública da cultura é a necessidade urgente da universalização do acesso ao ensino e produção artística. Isto se daria, por exemplo, com multiplicação de centros culturais pela cidade, que levassem para além do centro ensino de longo prazo e aprofundado de história e fruição das artes, bem como oferecesse meios para produção de novo conteúdo.
 
Quando a crítica à precariedade dos aparelhos culturais do Estado vem acompanhada de distanciamento, desconhecimento e preconceito em relação a fenômenos populares como o funk, ela se torna imediatamente surda e ecoa em um ou outro gabinete mofado. Enquanto se discute o que é arte ou o que seria sub-serviço à indústria cultural hoje, tanto não são construídos conservatórios como são reprimidos bailes funk. Como em vários casos em que a consequência do sectarismo na esquerda grita, quem ganha com a falta de unidade é justamente a estrutura que se tenta combater.
 
Um discurso verdadeiramente progressista de ampliação ao acesso à cultura deve necessariamente alojar sob o mesmo teto pianos de cauda e turntables. É preciso que seja proporcionado indistintamente o contato com toda a arte produzida até então e inserir a todos no diálogo com linguagens contemporâneas. Para tanto, é preciso que esteja à mão do novo artista o ensino que até hoje lhe foi negado e os instrumentos para que possa ressignificar e criticar a sua realidade da maneira que lhe parecer apropriado. Seja através de uma composição eletroacústica ou de uma rima proibidona.

(*) Andrei Reina é estudante de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP.







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