Primeiros Passos

Tentaram impopularizar o carnaval

O que faria uma Escola de Samba tradicional e popular do carnaval carioca homenagear alguém como Boni?

11/03/2014 00:00

Fernando Maia/RioTur

Créditos da foto: Fernando Maia/RioTur

A natureza histórica do carnaval carioca, falando tanto em termos de blocos de rua quanto do desfile oficial das Escolas de Samba, tem em sua marca fundamental o caráter popular e espontâneo de suas manifestações. Personagens, famosos ou não, que fazem ou fizeram parte de acontecimentos políticos e sociais são lembrados, admirados por seus feitos humanistas e lutas de resistência ao sistema injusto e opressor. Mas não somente, também pessoas que ocupam um lugar no imaginário popular por sua irreverência e história de vida, no campo das artes, do esporte e do entretenimento. Além, é claro, da boa e velha ironia popular, ridicularizando políticos e figuras abominadas.

Para citar apenas alguns exemplos, vejamos: com o enredo “Kizomba, a festa da raça”, um grito de resistência cultural mobilizou a comunidades negras do Brasil e exterior, além de seus apoiadores, assim a Vila Isabel conquistou o título de 1988; para não me estender, dentro e fora do Rio podemos citar homenageados como Sílvio Santos, Pelé, Nilton Santos, Chico Science, os blocos de rua, Roberto Carlos, Zé do Caixão, Nelson Cavaquinho, obras de arte, o jogo do bicho, Luiz Gonzaga, Joãozinho Trinta, personagens do folclore, Chaves, o Rio São Francisco, Cuba, Clara Nunes, a Liberdade, o Trabalhador, o Prata Preta, Luiz Carlos Prestes “o cavaleiro da esperança”, o Amor. A lista se estende...
 
Mas a questão a quero chegar é: o que faria uma Escola de Samba tradicional e popular do carnaval carioca, no lugar que é referência nacional e internacional da festa, homenagear alguém como Boni, personagem cujo maior feito político e social, pelo menos dos que se tem notícia, foi a manipulação do debate entre Lula e Collor em favor do candidato conservador, além de apontado por próximos como um ser tenebroso?
 
É claro que isso é uma pergunta retórica, pois todos sabemos que o capital tem invadido se não as quadras, os escritórios das Escolas de Samba. Mas até que ponto valeria o risco, para o Carnaval, de tamanha falta de noção? Além disso, creio que muitos, além de mim, devem ter ficado apreensivos quanto a possibilidade de tal enredo sair vencedor, levando-se em conta o peso e a tradição vitoriosa da Escola. É claro que isso representaria a total perda de credibilidade dos Desfiles, não de agora questionados. Mas felizmente, para o carnaval popular, a Beija-flor fracassou, em especial devido ao seu enredo. Porém, é preciso lembrar que não só de enredo se faz um desfile, e é possível que as articulações que levaram a tal escolha, que ignoro completamente, possam ter causado um impacto negativo mesmo nos membros históricos e construtores da comunidade, levando a uma derrota que a fez, depois de 21 anos, ficar de fora do desfile das campeãs.

É claro que além disso houve muita reclamação, falando de equívocos e injustiças. Mas devemos lembrar também que a avenida é lugar de muita paixão, e nesses termos talvez seja o único palco que rivalize com outra grande paixão, o futebol. Questionamentos e injustiças já vem de muito tempo, fazem parte do Carnaval assim como seu caráter popular.
 
Só para finalizar, lembremos de um outro desfile histórico: em 1989 o tema "Ratos e Urubus" trouxe o lixo e os mendigos para passarela (tema, por sinal, extremamente atual, não?), e na comissão de frente! Todos esperavam que o título fosse para adivinhem qual escola? A Beija-flor, de Joãozinho Trinta, obrigada a encobrir a imagem do Cristo Redentor por uma concatenação de interesses conservadores, e num sinal de protesto o fizeram com plástico de lixo. Mas ela ficou em segundo lugar. Entretanto, o que ficou marcado foi a popularidade e a provocação ao sistema, ao contrário de seu oposto, como ocorreu esse ano.
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Leandro Liberali é historiador.







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