Saúde

"Sou a médica mais longe no Brasil", diz cubana

A entrevista com a médica cubana Ceramides Almora Carbonell, publicada por Carta Maior em 27/8, se tornou um viral na internet e ajudou a entender como ...

03/10/2013 00:00

Najla Passos

Créditos da foto: Najla Passos

Brasília - Em meio à polêmica criada com a chegada ao país dos primeiros profissionais estrangeiros que atuarão no Programa Mais Médicos, a entrevista com a médica cubana Ceramides Almora Carbonell, publicada por Carta Maior em 27/8, ajudou o Brasil a entender como a experiência de saúde de Cuba pode ser fundamental para a consolidação de um sistema de saúde pública eficiente no país. E se tornou um viral na internet: só no portal da Carta Maior, foi curtida por 9,4 mil usuários do facebook.

Nesta semana, Ceramides começou a trabalhar em Calçoene, a última cidade antes do Oiapoque, considerado o ponto norte mais extremo do Brasil até 1998, quando o governo federal reconheceu oficialmente que existia uma paragem ainda mais longínqua: Caburaí. E Carta Maior resolveu voltar a ouvi-la sobre suas expectativas em relação à prática médica em um lugar tão difícil. “Sou a médica mais longe no Brasil”, brinca ela, que ainda se enrola com o português, mas garante que a língua não é barreira para seu trabalho. “Meus pacientes estão me entendendo muito bem. É só eu falar devagar”, explica.

O município, ligado à capital Macapá por 359 Km de estrada asfaltada, tem uma população de 9.740 habitantes, mas contava com apenas dois médicos. A média no Brasil de 17,6 médicos por 10 mil pessoas já é criticada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Na Europa, por exemplo, são 33,3 para o mesmo contingente. Em países desenvolvidos como a Áustria e a Suíça, são 48 e 40, respectivamente. Ceramides já entendeu que terá que atender muita gente, mas diz que não se assusta. “Isso não é problema. Eu gosto de trabalhar”.

Com uma área de 14, e mil Km2 e densidade populacional de 0,63 habitantes por Km2, Calçoene é o local em que mais chove no Brasil: três vezes mais do que em toda a cidade de São Paulo. As doenças tropicais abundam. A população, na sua maioria, é pobre. O IDH do município está situado na linha da pobreza. Para Ceramides, a cidade, no geral, é muito parecida com outras pela qual já passou, em Cuba e na bolívia. “Há um rio que margeia toda a cidade e também tem a Praia do Goiabal, há 23 Km, que ainda não tive tempo de conhecer. Ainda”, brinca ela.

Formação local
No Brasil desde 24/8, Ceramides passou pelo curso preparatório de três semanas do Ministério da Saúde, em Brasília (DF). Em Macapá (AP), enfrentou mais uma semana de sala de aula sobre as condições epidemiológicas e de saúde do Estado. “Aprendi muito sobre as políticas de saúde do Amapá, conheci mais sobre as doenças mais comuns, visitei hospitais estaduais, clínicas de reabilitação, postos de saúde”, explica ela.

Chegou em Calçoene no domingo (22), mas não pode começar a trabalhar de imediato porque o Conselho Regional de Saúde do Amapá atrasou em uma semana a concessão do seu registro. Sempre otimista, ela garante que não enfrentou nenhuma hostilidade dos colegas brasileiros. Na segunda (30), conseguiu o documento provisório.

Aproveitou a semana livre para conhecer os futuros pacientes. Andou pela cidade, visitou casas, conversou com jovens e idosos, diagnosticou as doenças que mais irá enfrentar. “Há muitos jovens, principalmente pescadores, e a expectativa de vida aqui é de 70 anos. Mas também há muitas doenças: malária, leishmaniose, verminoses, hipertensão e diabetes... dengue também, mas não nesta época, que dizem que é de seca, embora tenha chovido muito”, conta ela.

Esta semana, está fazendo seu planejamento estratégico de trabalho e, por isso, conversando muito com os demais médicos, enfermeiros, agentes de saúde e também com pessoas comuns. “Acho importante garantir a interssetorialidade e a participação ativa da população”, esclarece.