Saúde

"A pandemia cristaliza um momento em que a confiança necessária à vida em sociedade é posta em dúvida"

O antropólogo Laurent Dousset mostra, na tribuna do "Monde", como a incerteza em geral, e mais particularmente aquela que nasce da crise sanitária, pode se constituir em ponto de partida de transformações sociais muitas vezes fundamentais

06/09/2020 18:27

(Reprodução/Le Mondé)

Créditos da foto: (Reprodução/Le Mondé)

 
A vida em comunidade é impossível sem a produção de certezas que permitem ao ser humano evoluir em seus ambientes sem necessitar, a cada momento, refletir sobre as razões profundas [subjacentes], a legitimidade ou as consequências de suas práticas. As certezas permitem antecipar-se, das mais banais às mais complexas: poder comprar pão na padaria (e não no balcão da SNCF [Société Nationale des Chemins de Fer]) sem ter que repensar toda a história e todas as etapas técnicas que permitiram a existência do trigo cultivado, o princípio do cozimento, o dinheiro como meio de troca, os lugares específicos destinados às atividades particulares, etc.

Essa capacidade de antecipar-se é indispensável a uma vida "normal" em sociedade. Em nenhum lugar os atores sociais, estejam entre os mais humildes ou entre os dominantes, ocidentais ou membros de pequenas sociedades distantes, dominam e nem mesmo apreendem todos os sistemas de representação, códigos e símbolos, normas e valores sociais que, no entanto, constituem a base dessas certezas. Os humanos os aplicam sem ter que avaliá-los ou julgá-los e, mais frequentemente, sem mesmo ter consciência deles.

Uma vez que aceitamos a ideia de que a vida social não pode existir sem um conjunto de certezas, e que também percebemos que essas certezas não são em nada neutras ou objetivas, mas histórica e, portanto, culturalmente situadas, devemos concluir que tais certezas não passam de produções sociais. A título de comprovação, outras sociedades em outros lugares vivem de acordo com outras certezas que, no entanto, também consideram tão "naturais" e "racionais". Certezas são convenções, consensos, regimes de verdade.

Então, se a produção de certezas é uma característica fundamental do social, onde colocar a incerteza e como analisar a incerteza produzida pela pandemia para antecipar suas consequências?

Incerteza rizomática

Se a certeza permite viver uma certa normalidade e mesmo banalidade, ao produzir a ilusão de controle do mundo, a incerteza, por sua vez, é uma situação que suscita inquietações, perplexidades, sentimentos de antecipação insatisfeitos ou impossíveis. Cristaliza um momento no qual, para além da única razão imediata que o produziu, a confiança nos códigos, normas, valores e instituições sociais que deveriam ter permitido a antecipação, por mais necessária que fosse à vida em sociedade, está enfraquecida, para não dizer questionada.

Esta é uma das primeiras conclusões a que o antropólogo chega ao estudar situações de incerteza em sua própria sociedade como em outras: o enfraquecimento da confiança nunca se limita à única razão ou ao único domínio que produziu incerteza, mas se estende de maneira viral ou rizomática a valores e instituições sociais que, no entanto, parecem, a primeira vista, distantes do problema colocado.

A facilidade seria relegar essas excrescências ao segundo plano e limitar a atenção ao que é concebido como a causa e a consequência direta da produção da incerteza. Porém, na França como em outros lugares, até nos países menos familiares como Papua Nova Guiné, outras “teorias” abundam: as que explicam a pandemia como uma estratégia chinesa de controle ou destruição do mundo, ou aquelas que suspeitam que a classe dominante deseja limitar a capacidade de ação das classes dominadas. Essas teorias obviamente nos dizem muito mais do que apenas preocupações com a saúde, mas falam de lutas pelo poder e da preocupação de estar entre os perdedores.

Essa primeira observação nos leva a uma segunda proposição fundamental. A situação de incerteza, que é, portanto, antes de mais nada o produto de uma deficiência ou lacuna do sistema social como um todo (e não apenas de seus constituintes específicos), não pode perdurar e deve ser resolvida, tornando assim possível o retorno a um estado em que a antecipação se torne novamente possível. Os processos e dinâmicas de identificação de causas e culpados são etapas fundamentais. A morte de um ente querido - para citar um dos exemplos mais comuns - que gera um certo grau de incerteza pela ruptura do quotidiano que produz, é objeto de buscas de consenso em torno das causas, razões e do valor da morte; consenso que é necessário para permitir o luto e retomar uma vida “normal”.

Novos objetivos ideológicos

No entanto, particularmente no caso de incertezas generalizadas, como uma epidemia, a única resposta à causa imediata (o vírus, no caso) da deficiência do sistema social é insuficiente: são os princípios e as hierarquias de valores de todo o conjunto sociocultural - ainda que amplamente idealizados pelos atores - que devem responder.

Vimos que, antes mesmo de conhecer mais precisamente as peculiaridades biológicas e contagiosas do ator / agressor invisível, são as instituições e mesmo o sistema sociopolítico como um todo que é questionado. Pois a necessidade de redescobrir um certo grau de normalidade nas práticas - e, portanto, de recuperar a capacidade de antecipação - produz reformulações do que uns e outros julgam "importante", "central", "fundamental". A incerteza é resolvida pela explicitação e hierarquização dos valores sociais e condutas considerados justos, pela negociação e busca de consensos, fazendo assim emergir novas frações e grupos de opiniões e intenções, bem como novos desenhos ideológicos, manifestando novas relações de força e até novas formas de relações de poder.

A respeito disso, as controvérsias em torno da hidroxicloroquina oferecem um ilustração, pois levaram à explicitação de frações entre cientistas e personalidades políticas, mas também alimentaram uma forma de regionalismo que certamente não é nova (Marselha contra Paris), mas que, neste contexto, assumiu toda uma outra dimensão, muito mais importante do que a competição entre atletas ou a acusação mútua de arrogância.

Porque nenhum sistema de representação, nenhuma organização social, nenhuma instituição ou sociedade como um todo é capaz de produzir certezas sobre cada eventualidade, e porque toda sociedade é regularmente confrontada com eventos que não foram antecipados, a incerteza é antes de mais nada, e a pretexto e disfarçadamente de uma procurada continuidade, o ponto de partida de transformações sociais muitas vezes fundamentais.

Periculosidade do invisível

As hierarquizações e processos de transformação também tornam visíveis as tensões, por assim dizer, identitárias, alojadas no interior dos próprios indivíduos. Nas sociedades ocidentais, a pandemia parece reintroduzir ou tornar palpável a noção do invisível e, em particular, de sua periculosidade (ou de sua invenção, para quem acredita na conspiração). Se o corpo e a aparência do outro já eram fonte de construção da pessoa pela rejeição ou ao contrário [pela] admiração e imitação, torna-se agora, ainda mais do que antes, objeto de desconfiança e foco de perigo, até de morte. Quem não se absteve de tossir em público para não levantar suspeitas?

Apesar da periculosidade do invisível potencialmente alojado no corpo de cada outro, a necessidade de união com próximos por parentesco ou afinidade nunca foi sentida e expressa de forma tão explícita; como se essa proximidade afetiva ou ideológica e, portanto, a confiança em alguns outros, fosse garantia de imunidade. Pois, a confiança no outro escolhido, esse descuido, constitui o primeiro passo no processo de explicitação e hierarquização dos valores sociais (alguns diriam muito rapidamente de retorno aos antigos valores), cujo objetivo é a resolução de incerteza.

O social, a sociedade, talvez mesmo a nação, são antes de mais nada um conjunto de relações sociais que, apesar ou mesmo graças à diversidade de atores, crenças, normas e valores, permite esta confiança através da existência de certezas (mesmo que possam ser contestadas). Estas não precisam ser verdadeiras ou falsas em termos absolutos, desde que permitam antecipar comportamentos. A incerteza tende a minar essa confiança. Dá origem a novas hierarquias de valor e, portanto, a novas tensões, tanto simbólicas no interior dos indivíduos, quanto políticas entre os indivíduos.

Responder à pandemia é, obviamente, ser capaz de encontrar soluções sanitárias e econômicas para salvar indivíduos e famílias. Mas, responder [a tais requisitos] pode significar também e sobretudo ter em conta uma realidade que vai além do nível individual e que não é só dos campos da saúde e da crise econômica resultante. Significa também compreender o fato que qualquer incerteza, ainda mais em um caso tão global como este, põe em causa toda a estrutura social ao questionar os imaginários e os valores que a sustentam.

Laurent Dousset é antropólogo, diretor de estudos da EHESS. É autor de Pour une anthropologie de l'incertitude (CNRS éditions, 2018).

*Publicado originalmente em 'Le Monde' | Tradução de Aluisio Schumacher