Saúde

"Isso nunca poderia acontecer hoje": em 1975, extraordinária campanha de vacinação no Brasil

O Brasil vacinou 80 milhões de pessoas em poucos meses contra a meningite graças a uma vacina desenvolvida na França. Uma dessas proezas, misto de ambição, ousadia e paixão, que marca aqueles que participam e surpreende os que tomam conhecimento.

02/03/2021 09:53

(Fundação Mérieux)

Créditos da foto: (Fundação Mérieux)

 

Uma tese em medicina, outra em história da ciência, nunca publicadas. Um curta-metragem documental, exclusivamente para divulgação interna, vangloriando-se de uma operação realizada com muita energia. E caixas de documentos, cuidadosamente armazenados nos arquivos da Fundação Mérieux. A campanha de vacinação realizada no Brasil contra a meningite meningocócica em 1975 deixou poucos vestígios visíveis na história da saúde sanitária francesa. "Vivemos em um país bastante centrado em si mesmo", explica Alain Mérieux, chefe do Institut Mérieux de 1968 a 1994, agora presidente da fundação com o mesmo nome. "O que acontece no exterior raramente ocupa um lugar muito importante aqui."

No entanto, a aventura realizada há trinta e sete anos, a cerca de 9.000 quilômetros de Paris, é realmente um feito de know-how nacional. Uma dessas proezas, misto de ambição, ousadia e paixão, que marca aqueles que participam e surpreende os que tomam conhecimento.

De abril a junho de 1975, a empresa farmacêutica de Lyon e as autoridades brasileiras vacinaram mais de 80 milhões de pessoas ameaçadas por uma terrível epidemia de meningite cerebroespinhal. Na megacidade de São Paulo, 10 milhões de pessoas foram imunizadas em cinco dias, um recorde absoluto na história da imunização. Números que deixam qualquer um tonto e ressoam estranhamente com as notícias de saúde atuais.

"Não tente comparar", avisa Alain Mérieux, "era outra época. As regras sanitárias não eram as mesmas, as relações internacionais eram diferentes e a indústria farmacêutica tinha outras prioridades além da exclusiva rentabilidade."

Então, vamos tentar nos distanciar da atual pandemia e voltar à década de 1970. "Para falar a verdade, precisamos inclusive voltar dez anos para entender essa história", precisa Jacques Berger, quarenta anos passados na Mérieux, onde terminou´como Diretor de Operações. "Tudo começou em uma reunião da OMS em 1963." A Organização Mundial da Saúde (OMS) reuniu as empresas farmacêuticas. Buscava um laboratório apto para trabalhar em uma meningite endêmica que afetava a África. "Todos cochilaram e Charles Mérieux levantou o dedo", diz ele.

O homem tem fama de determinado, tão hiperativo quanto idealista. Forçado, após a morte do irmão mais velho, a assumir o pequeno laboratório da família, ele o transformou em uma ambiciosa empresa, produzindo vacinas e tratamentos, tanto humanos quanto veterinários.

O que diabos ele vai fazer nessa situação difícil? "Visto hoje, pode-se perguntar", admite o historiador da ciência Baptiste Baylac-Paouly, que em 2018 defendeu uma tese sobre aquele momento. O Institut Mérieux não tinha experiência no assunto. Não tínhamos um modelo animal disponível. Tínhamos um tratamento, sulfonamidas, que encontrava cada vez mais resistência. E o mercado era inexistente, já que a doença era galopante apenas nos países pobres. Mas tanto faz, era necessário fazê-lo."

África e Brasil, mesma luta

Charles Mérieux (1907-2001) está convencido de que tais aventuras sempre trazem algo. Sua empresa vai conquistar know-how, acredita ele. Então, sela uma amizade. Léon Lapeyssonnie (1915-2001) é um médico militar à antiga. "Amante do intercâmbio humano e da África, tem como lema: veja longe", conta Frédéric Benoliel, seu genro, agora assessor de comércio exterior no Japão, que participou do final da campanha brasileira do Institut Mérieux.

Incansável explorador do inóspito, Lapeyssonnie, como quer ser chamado, esquecendo-se do fato de ser "médico generalista", travou na África uma batalha incansável contra a doença do sono e depois contra o cólera. Tendo se tornado um especialista regional da OMS,encabeçou o esforço para acabar com a "cinturão da meningite", espalhado do Senegal até a Etiópia, dos surtos epidêmicos que matavam milhares de crianças todo ano. "Ele nunca desistia de seu objetivo", lembra Alain Mérieux, "e não se deveria incomodá-lo com os detalhes. Lembro de uma reunião em que um funcionário da administração irritado lhe pediu que enfrentasse os fatos. Ele se levantou e disse: "Senhor, um general francês nunca se rende, nem mesmo frente às evidências."

Em dez anos, Lapeyssonnie, Mérieux e suas equipes desenvolveram a primeira vacina contra o meningococo A. Testada em vários países africanos, do Sudão à Nigéria, ela interrompeu vários surtos infecciosos locais. Sucesso aclamado no Boletim da OMS, em abril de 1974. A publicação passa despercebida na França.

Não no Brasil. É preciso dizer que, nos últimos anos, o gigante sul-americano também enfrentava uma epidemia de meningite cerebroespinhal. Naquele início do inverno austral, a situação se transforma em carnificina. Dezenas de crianças morrem todos os dias em várias cidades do país, principalmente em São Paulo. Ao meningococo de tipo C, que prevalecia até então, somou-se a cepa africana, tipo A. Tornando-se rapidamente dominante, não respondia à vacina americana então utilizada.

Para Paulo de Almeida Machado, ministro da Saúde da ditadura militar em Brasília, as informações da OMS lhe parecem uma tábua de salvação. Ele contata Charles Mérieux. Em 1969, o carismático patrão vendeu 50,1% de sua empresa para a Rhône-Poulenc e deixa as rédeas para seu filho Alain. "Mas ele manteve um lugar importante no empreendimento, insiste o Sr. Baylac-Paouly. E, para ele, o projeto brasileiro torna-se essencial. Vemos isso em sua correspondência, em particular nas trocas com Lapeyssonnie. "Com o médico militar, ele testa a hipótese de uma vacinação massiva e rápida, privilegiada [pelas autoridades] em Brasília. Por fim, no dia 24 de agosto, o Doutor Machado faz a viagem a Marcy-l'Etoile, perto de Lyon, onde o Instituto reunia laboratórios e fábrica.

"Apostamos"

Quantas doses ele vem pedir naquele dia? Ninguém realmente sabe. Diz a lenda que o ministro teria fornecido um número em uma aproximação da língua francesa e que, para espanto geral, o teria escrito em seu maço de cigarros: 50 milhões.

Se a anedota for verdadeira, isso é tudo que havia como compromisso escrito. "Avançamos em confiança, sem nenhum contrato, insiste Alain Mérieux. Assim como iniciamos a construção de um novo prédio sem autorização para a obra, apenas avisando o prefeito."

Para o Institut Mérieux, a produção dessas 50 milhões de doses, que logo serão 60, depois 80 e finalmente 90 milhões, representou um desafio. A empresa nunca produziu mais do que algumas centenas de milhares de uma vez. Naquele momento, são necessárias 2 milhões a partir do final de setembro para as primeiras mini-campanhas de testes. Mobilização geral, portanto. Os que costumam folgar em agosto encurtam suas férias. "E aqueles que, como eu, partiam em setembro não levaram nada", lembra Jacques Berger, então um jovem responsável comercial para a América do Sul.

Toda a produção é reorganizada, vacinas animais são transferidas [a outras empresas], outras vacinas humanas terceirizadas. Dos fermentadores, onde as bactérias são cultivadas, às centrífugas, que separam o produto ativo do líquido de purificação, as dimensões [dos equipamentos] são modificadas. Aos tanques de 50 litros adiciona-se outro, desta vez de 1.100 litros. E como se isso não fosse suficiente, do outro lado do Atlântico, a gigante Merck, que fornecia vacinas meningocócicas C, notifica atraso [na produção]. "Apostamos e, em dois meses e meio, projetamos, fabricamos e testamos uma vacina bivalente, contendo as duas cepas", diz Alain Mérieux.

No dia 15 de novembro, com a entrega do novo prédio, concluído em menos de três meses, a produção começa e, no dia 31 de dezembro, conforme prometido, o laboratório efetua a primeira entrega. Um voo da Air Inter faz a ligação a Orly, onde um avião da brasileira Varig assume até o Rio. Tudo isso respeitando uma refrigeração de -20 ° C. "Mas o avião teve uma pane", diz Berger, responsável pela escolta. Liguei para o Brasil e eles desviaram o vôo de Londres, que pousou no final da pista, e carregamos nossas doses. Nosso único contratempo, por assim dizer, em toda a operação. "

Mérieux ganhou sua primeira aposta. Mas os brasileiros ganhariam a deles, a administração da vacina? "Francamente, não acreditávamos nisso", diz Berger. "Eles faziam tudo ao estilo brasileiro, como se fosse uma festa", resume Alain Mérieux. Primeira cidade vacinada, Rio de Janeiro, onde 4 milhões dos 4,8 milhões de habitantes receberam uma injeção em doze dias. "Tinha que ser feito antes do carnaval, insiste o senhor Berger, porque não se tratava de cancelar as festividades, e a contaminação poderia ser massiva."

"Alinhamento dos planetas"

Escalada a primeira montanha, uma segunda se aproxima. O Everest: São Paulo e seus 10 milhões de habitantes. A preparação é meticulosa. Centenas de postos de vacinação são montados por toda a cidade, em escolas, igrejas, em frente a estações de trem, em pontos de ônibus, em cruzamentos, marcados por enormes balões flutuando no ar. Altofalantes lançam o hino composto para a ocasião, o Samba de vacinação. Equipes de cinco voluntários imunizam em linha de produção. Beneficiam-se, é verdade, de um novo sistema, um injetor de ar comprimido e sem agulha, o "Ped-O-Jet", que vai desaparecer com a AIDS, por suspeita de alimentar as contaminações.

Mas estamos dez anos antes da AIDS. Em cinco dias, São Paulo está imunizada. Depois, nos três meses seguintes, todo o Brasil, 8,5 milhões de quilômetros quadrados, de Sul a Norte, da costa atlântica à Amazônia, é percorrido, por avião, caminhão ou barco a motor. Até o final de junho, 90 milhões de doses haviam sido usadas neste país de 110 milhões de pessoas. A meta de vacinar mais de 70% da população foi superada.

A epidemia desaparece. Não volta mais. O Brasil respira e, para o Institut Mérieux, se abre uma nova era: o laboratório adquire uma dimensão internacional, simplesmente uma nova dimensão. Seu volume de negócios passa de 20 milhões de francos em 1974, com menos de 5% de exportações, para 411 milhões em 1977, dos quais 25% de exportações.

"Eles aproveitaram um incrível alinhamento dos planetas", conclui Baylac-Paouly. Mas também assumiram um enorme risco industrial, guiados por uma preocupação com a saúde pública. Hoje isso nunca poderia ocorreria. "Nem mesmo ver 90 milhões de doses de uma nova vacina produzida em poucos meses na França para combater uma epidemia emergente. Mas vamos parar a comparação por aí. Digamos apenas [que] era outra época.

*Publicado originalmente em 'Le Monde' | Tradução de Aluisio Schumacher