Saúde

A fase mais traiçoeira da pandemia pode ser agora

A fase mais perigosa da crise da Covid-19 nos Estados Unidos pode ser agora, não na primavera passada. Se a economia fraquejar pela segunda vez, seja por causa de estímulos fiscais inadequados ou pela temporada de gripe e uma segunda onda de Covid-19, ela não receberá o apoio monetário e fiscal adicional que a protegeu na primavera

11/09/2020 17:03

(Johannes Eisele/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: (Johannes Eisele/AFP via Getty Images)

 
BERKELEY - Abril marcou a fase mais dramática e, diriam alguns, perigosa da crise da COVID-19 nos Estados Unidos. As mortes estavam atingindo seus picos, os corpos estavam se acumulando em caminhões refrigerados do lado de fora dos hospitais na cidade de Nova York, e respiradores e equipamentos de proteção individual estavam em falta. A economia estava despencando do proverbial penhasco, com o desemprego explodindo para 14,7%.

Desde então, o fornecimento de equipamentos médicos e de proteção melhorou. Os médicos estão descobrindo quando colocar os pacientes em respiradores e quando retirá-los. Reconhecemos a importância de proteger as populações vulneráveis, incluindo os idosos. Os infectados são agora mais jovens em média, reduzindo ainda mais as fatalidades. Com a ajuda da Lei de Ajuda, Alívio e Segurança Econômica do Coronavírus (CARES), a atividade econômica se estabilizou, embora em níveis mais baixos.

Ao menos são essas as informações que estamos recebendo.

Na verdade, a fase mais perigosa da crise da Covid-19 nos Estados Unidos pode ser agora, não na primavera passada. Mas enquanto as taxas de mortalidade entre os infectados estão diminuindo com a melhoria do tratamento e um perfil de idade mais favorável, as mortes ainda estão em cerca de mil por dia. Isso corresponde aos níveis do início de abril, refletindo o fato de que o número de novas infecções voltou a ser a metade.

A mortalidade, de todo modo, é apenas um aspecto do pedágio cobrado pelo vírus. Muitos pacientes, que sobreviveram à Covid-19, continuam a sofrer problemas cardiovasculares crônicos e função mental prejudicada. Se 40.000 casos por dia é a nova normalidade, então as implicações para a morbidade - e para a saúde humana e o bem-estar econômico - são verdadeiramente terríveis.

E, gostemos ou não, tudo indica que muitos norte-americanos, ou pelo menos seus líderes atuais, estão dispostos a aceitar 40.000 novos casos e 1.000 mortes por dia. Eles se acostumaram com os números. Eles estão impacientes com bloqueios. Eles politizaram o uso de máscaras.

Esta é também uma fase mais perigosa para a economia. Em março e abril, os legisladores fizeram de tudo para estancar a sangria econômica. Mas haverá menos apoio político agora se a economia voltar a cair. Embora o Federal Reserve sempre possa conceber outro programa de compra de ativos, ele já reduziu as taxas de juros a zero e absorveu muitos dos ativos relevantes. É por isso que as autoridades do Fed têm pressionado o Congresso e a Casa Branca a agirem.

Infelizmente, o Congresso parece incapaz de replicar o consenso bipartidário que permitiu a aprovação da Lei CARES no final de março. O suplemento semanal de US$ 600 para o seguro-desemprego pode expirar. A retórica divisiva do presidente Donald Trump e de outros líderes republicanos sobre as cidades "lideradas pelos democratas" implica que a ajuda para os governos estaduais e locais não está nos planos.

Se a economia fraquejar pela segunda vez, seja por causa de estímulos fiscais inadequados ou pela temporada de gripe e uma segunda onda de Covid-19, ela não receberá o apoio monetário e fiscal adicional que a protegeu na primavera.

A bala de prata com a qual todos contam, é claro, é uma vacina. Esse, na verdade, é o perigo mais grave de todos.

Há uma grande probabilidade de que uma vacina seja lançada no final de outubro, a pedido de Trump, independentemente de os ensaios clínicos de Fase 3 confirmarem sua segurança e eficácia. Este espectro evoca memórias da vacina apressada do presidente Gerald Ford contra a gripe suína, também empurrada por uma eleição presidencial iminente, que resultou em casos de síndrome de Guillain-Barré e várias mortes. Este episódio, junto com um artigo científico fraudulento ligando a vacinação ao autismo, ajudou muito a fomentar o movimento antivax moderno.

O perigo, então, não se resume apenas aos efeitos colaterais de uma vacina defeituosa, mas também à resistência pública generalizada, até mesmo a uma vacina que passe no teste clínico de Fase 3 e tenha o apoio da comunidade científica. Isso é especialmente preocupante na medida em que o ceticismo sobre os méritos da vacinação tende a aumentar de qualquer maneira depois de uma pandemia que as autoridades de saúde pública, supostamente competentes em tais assuntos, não conseguiram evitar.

Estudos têm mostrado que viver durante uma pandemia afeta negativamente a confiança de que as vacinas sejam seguras e desencoraja os afetados a vacinar seus filhos. Esse é especificamente o caso de indivíduos que estão em seus “anos impressionáveis” (idades entre 18 e 25 anos) no momento da exposição, pois é nessa idade que as atitudes em relação às políticas públicas, incluindo as de saúde, são formadas de maneira duradoura. Esse ceticismo acirrado em relação à vacinação, observado em vários momentos e lugares, persiste pelo resto da vida do indivíduo.

A diferença agora é que Trump e seus indicados, ao fazer afirmações imprudentes e pouco confiáveis, correm o risco de agravar o problema. Assim, se não forem tomadas medidas para reafirmar ao público a independência e integridade do processo científico, ficaremos apenas com a alternativa de “imunidade de rebanho”, que, dadas as muitas comorbidades conhecidas e suspeitas da Covid-19, não é, em absoluto, uma alternativa.

Tudo isso serve como um alerta de que a fase mais perigosa da crise nos EUA provavelmente começará no próximo mês. E isso antes de levar em conta que outubro também é o início da temporada de gripe.

Barry Eichengreen é professor de Economia na Universidade da Califórnia, Berkeley, e ex-conselheiro sênior de política do Fundo Monetário Internacional. Seu último livro é The Populist Temptation: Economic Grievance and Political Reaction in the Modern Era.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de César Locatelli