Saúde

COVID-19, tuberculose - uma visão social

 

07/04/2020 10:19

(AFP)

Créditos da foto: (AFP)

 
No nosso país a tuberculose invade todo ano os pulmões de cerca de 70 mil brasileiros fragilizados pela subnutrição, e mata no silêncio dos hospitais e na indiferença da imprensa, 4 mil e 500 infectados pelo bacilo, a maioria absoluta de jovens em plena idade produtiva e reprodutiva.

Essa estatística insere o país entre as 22 nações monitoradas pela OMS, que ainda resistem às metas de redução civilizada dessa doença crônica.

Toda essa desenvoltura da tuberculose tem a cumplicidade de ser uma doença endêmica e de ter uma predileção toda especial pelos habitantes da base da pirâmide social.

A flagrante desatenção dos serviços públicos é um outro cúmplice, na vergonhosa estatística dos índices de morbidade e mortalidade da tuberculose no Brasil, um país, cujo PIB passeia entre os dez mais elevados do mundo.

A covid-19 chegou por aqui na contramão dessa realidade. Invadiu primeiro os andares mais elevados da pirâmide social e, ao contrário das vítimas da tuberculose, com o barulho ensurdecedor dos veículos de comunicação

O bacilo de Koch, uma bactéria produzindo uma doença crônica, endêmica e agredindo a periferia; o Sars-cov-19, um vírus promovendo uma infecção aguda, epidêmica e chegando com força na galera mais chique.

Mas, faça-se justiça ao Coronavírus, ele, ao contrário do bacilo, não discrimina segmentos sociais. Iniciou seus ataques nas classes A e B, mas nas próximas semanas, todas as expectativas apontam para uma invasão sem precedentes nas periferias das grandes cidades, e em seguida deve rumar com toda determinação para o interior do país

A imensa preocupação é como e onde vão ser atendidos 1 milhão e 240 mil brasileiros inseridos nas classes D e E, que de acordo com projeções disponíveis, vão desenvolver as formas mais graves da covid-19. Desprovidos de estrutura educacional, sem saneamento básico, sem renda para um padrão nutricional adequado, sem planos de saúde e um sistema público assistencial com carências a céu aberto.

A taxa de leitos hospitalares no país - 1,9 por mil habitantes, nem sequer corresponde às recomendações das entidades sanitárias para o atendimento de rotina.

E o mais cruel é que, os 16.800 leitos de UTI disponíveis, estão concentrados nas grandes cidades, produzindo a perversa realidade de 5.014 (90,2%) municípios brasileiros não disporem de um único leito para assistência intensivista.

Trocando isso tudo em miúdos, vai-se concluir que, os 62 milhões de brasileiros que compõem a base da pirâmide, que já tem a tuberculose invadindo seus pulmões indefesos, vão logo mais receber a visita do novo coronavírus e com a violência de não existir uma estrutura assistencial adequada para atender as gigantescas necessidades emergenciais, dentro do contexto dessa epidemia.

Apesar da invasão do planeta pelo coronavírus, não se tem ainda uma visão concreta das repercussões específicas da covid-19 em populações de baixa renda e como vão se comportar a curva epidêmica e os índices de mortalidade nesses segmentos sociais.

A expectativa é de uma grande tragédia, sem previsões exatas de sua dimensão!

Sebastião Costa - Pneumologista/sanitarista, Diretor de Acões de Saúde Pública da Associação Médica da PB