Saúde

Colocar economia acima da ética é uma estratégia sombria de vacinação - e a Bulgária mostra porquê

A Bulgária preferiu proteger a economia a salvar os idosos da Covid. No fim, fracassou nas duas frentes

24/05/2021 12:16

Trabalhadora da saúde prepara vacina no Hospital Pirogov, em Sofia (Nikolay Doychinov/AFP/Getty)

Créditos da foto: Trabalhadora da saúde prepara vacina no Hospital Pirogov, em Sofia (Nikolay Doychinov/AFP/Getty)

 
Abril passado ficará para sempre na minha memória como um mês marcado por dolorosa injustiça: ao mesmo tempo em que eu recebia minha primeira dose de vacina contra Covid-19 no Reino Unidos, meu pai morria na Bulgária, vítima do vírus, sem ter sido vacinado. Sou uma mulher de meia-idade, sadia. Meu pai tinha 85 anos e uma saúde que inspirava cuidados.

Tenho um monte de cartas do serviço nacional de saúde britânico, o NHS, endereçadas a meu pai que chegaram desde janeiro convidando-o a se vacinar em Londres, a cidade da qual ele partira seis meses antes para voltar a sua nativa Bulgária. Triste e inquieta fico pensando por que a Bulgária não protegeu meu pai enquanto o NHS britânico fez todo o esforço para isso. Por que eu fui protegida na minha meia idade enquanto cerca de 90% dos búlgaros acima dos 80 anos não o foram?

A Bulgária é um pequeno país que raramente recebe atenção da mídia internacional, e as mortes por Covid lá é uma gota no oceano de vidas perdidas em todo o mundo. Mas elas propiciam um valioso estudo de caso, um relato exemplar do porquê uma política de vacinação privilegiando a economia, mais do que a ética, é ruim para qualquer economia.

Bulgária faz parte de uma região fortemente afetada pelo vírus: quatro dos sete países com maior taxa de mortalidade no mundo, bem maior do que da Índia, estão nos Bálcãs. A Bulgária é um deles. Enquanto isso, em 4 de maio último, o ministro da Saúde, Kostadin Angelov, fez um surpreendente anúncio garantindo conta que “a terceira onda de Covid-19 passou praticamente despercebida na Bulgária. Nossos médicos constataram”.

Fiquei chocada em descobrir quão escassas são as evidências. A Bulgária parece ser um dos poucos países da UE nos quais o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças não divulga idade em mortes relacionadas à Covid. Isto por si só é significativo: em sua política de combate ao Coronavírus, a Bulgária não aplica o critério de idade, ou talvez qualquer critério demográfico. Mas uma fonte pouco conhecida tem registrado toda morte relacionada a Covid na Búlgária desde abril de 2020. Meus colegas na Addy Kassova Audience Strategy (AKAS) processaram os dados para enriquecê-los com a demografia, e emergiu um forte contraste com a Grã-Bretanha. A abordagem de “salvar a economia” da Bulgária em oposição à de salvar vidas do Reino Unidos produziu um resultado muito diferente para os acima dos 70 anos.

Dimitrina Petrova é uma búlgara especialista em saúde e líder social. Sua pesquisa indica que o plano de vacinação da Bulgária, dando prioridade a conter a disseminação da Covid mais do que a salvar vidas, é imensamente injusta com os idosos. O plano não tem objetivos claros, mas prioriza a população economicamente ativa, mais jovem e menos vulnerável. Na Bulgária, aqueles acima dos 65 anos compõem o quarto grupo prioritário na vacinação, dando lugar, segundo Petrova, a “praticamente todos na sociedade” – a força de trabalho saudável, funcionários do ensino, todos envolvidos nas “atividades básicas da vida pública”. Finalmente, o governo anunciou esta semana que aqueles acima dos 60 anos terão agora prioridade na vacinação.

No Reino Unido, os grupos prioritários são claramente definidos. Primeiro, o objetivo é reduzir a mortalidade e só então conter a disseminação do Coronavírus. Os primeiros cinco grupos a receberem a vacina na Inglaterra (com padrão semelhante nas demais nações do Reino Unido) cobrem todos com mais de 65 anos, começando com os mais vulneráveis. Petrova conclui que o plano de vacinação búlgaro “valoriza mais o aparato estatal e a economia do que a vida humana” e assim “cria desigualdades ao não priorizar aqueles que mais precisam da vacina e dando preferência àqueles que já são mais beneficiados com poder e recursos”.

Na semana que meu pai morreu a Bulgária tinha o segundo maior índice de mortes relacionadas a Covid naUE, enquanto o Reino Unidos tinha a quarta na Europa. Em 8 de abril (dia que ele morreu), 7% dos búlgaros com mais de 80 anos haviam recebido pelo menos uma dose de vacina, comparados com os 97% na Inglaterra. Um mês depois, os números da Bulgária estavam pouco acima dos 10%.

Entre fevereiro e abril deste ano, a taxa de mortalidade para pessoas entre 70 e 89 anos era de 124,5 a cada 100 mil na Inglaterra, contra 421,4 a cada 100 mil na Bulgária.

Fiquei perplexa com esses dados: uma geração de idosos está sendo sacrificada na Bulgária numa tentativa de manter saudável a economia. Lembro-me dos telefonemas que fiz ao médico do meu pai pedindo para ele ser vacinado. “Ele está na parte baixa da lista de prioridades”, ele me respondeu. “Não existem vacinas disponíveis para ele”.

A situação é agravada pela dissimulação do governo em relação a uma terceira onda da pandemia, por sua fracassada campanha de vacinação e pela mídia, que é acusada de “buscar escândalos e opiniões às custas de clareza e entendimento” e deixar de responsabilizar o governo pela situação.

A vida do meu pai é uma entre milhares perdidas na Bulgária. Ele tinha 85 anos, um homem saudável que deveria ter mais tempo de vida. Sua morte podia ter sido evitada. A política do governo equivale a dizer que ele não tinha mais valor econômico para a sociedade, então valia menos a pena salvar sua vida.

Só que, no fim, uma abordagem que se baseia em conter a Covid mais do que salvar vidas é ruim para a economia. Ao não proteger os mais vulneráveis, o sistema de saúde fica comprometido, a pandemia se prolonga e a economia fica ainda mais estagnada. O Reino Unido, onde as políticas também desconsideraram os idosos num primeiro momento, corrigiu seu rumo com um programa de vacinação ancorado na preservação da vida. É o valor que os governos atribuem à vida humana a medida pela qual podemos dizer quão bem equipado é um país para lidar com uma grande crise? Estou inclinada a dizer que sim.

Luba Kassova é a autora de The Missing Perspectives of Women in Covid-19 News e co-fundadora da consultoria AKAS (Addy Kassova Audience Strategy)

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Carlos Alberto Pavam