Saúde

Eliane Piaggio: ''ainda não entendemos totalmente esta doença''

A médica e cientista argentina conta como se encontra hoje a investigação sobre o vírus, qual é a característica que o torna tão impenetrável e a importância das estratégias de isolamento

26/04/2020 17:13

Eliane Piaggio, cientista do Instituto Marie Curie

Créditos da foto: Eliane Piaggio, cientista do Instituto Marie Curie

 
Resistente como uma rocha, volátil e mutante, o coronavírus mantém a comunidade científica internacional em uma corrida contra vários relógios. Além da desgraça da batalha de egos realizada por alguns cientistas europeus, da irresponsabilidade criminosa de alguns líderes mundiais, das excessivas controvérsias que cercam a relevância das medidas adotadas pelos Estados mais responsáveis, das intervenções públicas de intelectuais charlatões e políticos sem vergonha e sem cultura, a ciência trabalha em silêncio, concentrando-se em sua missão racional de encontrar a molécula que neutralizará o vírus. Milhares e milhares de pesquisadores em todo o mundo dedicam cada minuto dos seus dias, cada atividade dos seus neurônios para encontrar o elixir que vai salvar pessoas angustiadas, doentes e potenciais vítimas do colapso da humanidade. A médica e cientista argentina Eliane Piaggio é uma das que ocupa a frente mais proeminentes dessa linha de combate, que tem a ciência como o único interlocutor com credibilidade. Responsável pela equipe de Imunoterapia Translacional do Instituto Marie Curie em Paris, a doutora Piaggio se especializou na luta contra o câncer usando protocolos novos e menos violentos que a quimioterapia, ou seja, a imunoterapia. Doutora da Faculdade de Ciências Bioquímicas e Farmácias da Universidade Nacional de Rosário, Eliane Piaggio é uma das mais importantes cientistas argentinas do mundo, e uma peça essencial do imenso mecanismo que foi criado para neutralizar o coronavírus.

Nesta entrevista, ela aponta, passo a passo e com a narrativa racional e didática de um cientista, em que estado está a pesquisa sobre o vírus, qual é o traço de sua identidade que o torna tão impenetrável, enquanto detalha o significado do confinamento como uma das estratégias contra o coronavírus.

Pergunta: O público acredita que a ciência e os grandes laboratórios escondem as descobertas quando, na realidade, estão enfrentando o que poderia ser chamado de enigma. Há um rio de falsificações e teorias da conspiração fluindo por toda parte. Para esclarecer tudo: qual é a identidade dessa pandemia, o que a torna tão difícil erradicar?

Eliane Piaggio: A resposta é muito fácil: não se sabe. Portanto, há muitos problemas. Chega um momento em que precisamos ser humildes e aceitar que não sabemos como essa doença evoluirá. Ainda não entendemos isso. Também devemos pensar que, quando começamos a entender o vírus, ele pode sofrer mutações, para melhor ou para pior. Ainda há muito a saber sobre a interação entre o vírus e os seres humanos. Isso é o que diminui a possibilidade de erradicá-lo. Temos mais e mais respostas, mas também temos mais e mais perguntas. Alguns medicamentos realmente funcionam em alguns casos, mas nenhum é totalmente eficaz, e não sabemos se, quando os pacientes são curados, eles continuam contagiando, se os anticorpos os protegem após eles estarem curados, e se sim, não sabemos por quanto tempo. Uma vacina, por exemplo, vai gerar bons anticorpos? Não sabemos. O que torna muito difícil entender a identidade dessa pandemia e a dificuldade de erradica-lo é que, diferentemente de outros coronavírus, o SARS-CoV-2 é transmitido durante a fase de incubação, quando as pessoas não apresentam sintomas e não sabem que estão infectadas. Os outros vírus são transmitidos quando os pacientes já apresentam sintomas. Por esse motivo, faltam as ferramentas para erradicá-lo.


Equipe de cientistas do Instituto Marie Curie
Pergunta: Então viveremos com sua ameaça por um longo tempo.

Piaggio: Por enquanto estamos permanentemente expostos. Mas também temos que pensar que devemos ser proativos, ou seja, ter políticas que nos ajudem a encontrar a saída. Isso significa ter tratamento eficaz e imunidade de grupo. Para o primeiro caso, um medicamento que seja capaz de reduzir a carga viral deve ser descoberto, para que os pacientes sofram menos, contaminem menos e possam ser curados. A imunidade de grupo será alcançada quando todos estivermos infectados, entre aqueles que sobreviverem, ou quando pudermos desenvolver uma vacina que nos torne todos imunes. Isso é defendido em todo o espectro da ciência: ciências sociais, epidemiológicas, básicas, aplicadas, acadêmicas, médicas, industriais e de pesquisa clínica. A resposta virá desse esforço.

Pergunta: Em que direção a busca por uma vacina ou tratamento está sendo realizada, sabendo que ela ainda está em fase de exploração múltipla.

Piaggio: Até que seja encontrado um tratamento específico para a covid-19, o que é feito é o reposicionamento de medicamentos que já existem, e com dois objetivos. Um deles é estudar o vírus, isto é, buscar fórmulas antivirais. A outra é controlar a resposta inflamatória exacerbada. Em mais ou menos 10% ou 15% de todos os pacientes infectados, um desenvolvimento de inflamação exacerbada foi contraproducente. Esses são tratamentos em andamento: o vírus é inibido por um antiviral ou a resposta inflamatória exacerbada é tratada. Portanto, o que está sendo feito na França é o que está sendo feito na Europa. Vale ressaltar o estudo clínico europeu “Discovery”, que avalia 4 tratamentos experimentais contra a covid-19. Nesse programa, os pacientes recebem tratamentos diferentes, desde o antiviral fornecido para o Ebola, outro administrado contra o HIV ou a famosa hidroxicloroquina. Existem outras pequenas coisas novas que estão sendo analisadas, mas, de qualquer forma, não há muitas opções. Você não pode dar nada aos pacientes. Estes são os medicamentos disponíveis e as possibilidades de tratamento.

Pergunta: Até que ponto sua própria disciplina, imunologia, alimenta pesquisas sobre tratamentos.

Piaggio: O vírus interage com o sistema imunológico, que é o que nos ajuda a nos livrar do vírus. A imunologia está intimamente ligada à resposta antiviral. No campo da imunologia, precisamos entender a relação entre o vírus e o sistema imunológico. A pesquisa fundamental é feita e depois aplicada. Existem projetos, como o do Instituto Pasteur, que trabalham com vírus de antes. O resto dos imunologistas não começam do zero. Tentamos aplicar o conhecimento e a experiência que cada equipe desenvolve em outros tópicos, a uma pergunta associada ao coronavírus. Existem estudos observacionais, baseados em pacientes sem intervenção, estudos de mecanismos nos quais desenvolvemos modelos que nos permitem modular algumas variáveis %u20B%u20Bpara entender qual é o mecanismo de ação pelo qual o sistema imunológico pode eliminar o vírus. Existem outros tipos de estudos que visam diretamente o desenvolvimento de novas terapias. Portanto, para encontrar novas terapias, é necessário primeiro identificar o alvo: se é uma proteína do vírus ou se é o receptor que está nas células humanas e onde o vírus entra. Para fazer isso, trata-se de desenvolver anticorpos que neutralizem essa interação e, também, encontrar uma vacina para estimular o sistema imunológico do hospedeiro e fornecer proteção ativa contra infecções. É isso que estamos fazendo no Instituto Curie: estudando a resposta imunológica dos pacientes e verificando se podemos encontrar novos tratamentos, incluindo o desenvolvimento de uma vacina.

Pergunta: Existem três temporalidades que se cruzam neste momento: a crise científica, a política e a saúde. Eles estão presos a confrontos ideológicos, o conflito entre interesses e, como foi visto na França, o ego de alguns cientistas.

Piaggio: Cada um tem seu tempo, mas estamos todos com pressa. O problema é que, na ciência, as respostas não são obtidas da noite para o dia. É como se tivesse acontecido com Pasteur: você passou a vida toda trabalhando para encontrar uma coisinha. Temos que provar, provar, descobrir qual é a boa hipótese de trabalho e, em seguida, encontrar a resposta. É um processo longo e complicado, onde temos que obter subsídios, gerar ferramentas de trabalho, ter acesso à tecnologia com a qual queremos responder perguntas, analisar, interpretar, reproduzir e publicar os experimentos. Em seguida, tentamos aplicá-los adaptando-os para que possam ser usados %u20B%u20Bem seres humanos. E tudo isso enquanto nós cientistas sobrevivermos a uma quantidade incontável de obstáculos administrativos e regulatórios. Mas tudo o que pode ser feito contribui, independentemente da grandeza do estudo. Às vezes, pequenos estudos fornecem a parte inventiva e a solução. Cientistas de todo o mundo, meus colegas argentinos, têm a possibilidade de fazer as coisas.

Pergunta: O confinamento também provocou uma controvérsia mundial, que até envolveu cientistas e, recentemente, circulou uma carta assinada pelos direitos liberais, promovida por Mauricio Macri e Mario Vargas Llosa, em defesa do não confinamento. Então, interromper o fluxo humano da circulação realmente impede que o vírus se espalhe?

Piaggio: O confinamento desacelera a propagação do vírus. O problema é que não há muito o que discutir aqui. A realidade é esmagadora: os países que não estão confinados têm várias infecções que aumentam exponencialmente e são impossíveis de controlar. Repito: não há outras opções. Na ausência de testes de diagnóstico que permitam isolar os transportadores e, assim, controlar a disseminação, na ausência de material de proteção, não existem máscaras ou soluções hidro alcoólicas ou proteções descartáveis %u20B%u20Bpara médicos, enfim, não há outra opção a não ser a confinamento. O que precisa ser feito é evitar saturar hospitais, para que todos os pacientes tenham acesso a ventiladores e terapia intensiva. Se não houvesse esse confinamento, teríamos passado por ainda mais situações, como as que já experimentamos, em que os médicos tiveram que escolher a quem dar oxigênio, ou quem eles colocam em terapia intensiva. O confinamento não é discutível, não é bom nem ruim, apenas não há outra opção. O confinamento é a única arma para agir. O confinamento nos dá um pouco de tempo para equipar os hospitais, configurar os testes de diagnóstico para isolar as pessoas, especialmente as pessoas assintomáticas, que continuam a espalhar a doença, aguardar os resultados de estudos clínicos que nos dirão qual é o tratamento, o caminho certo para encontrar um antiviral que diminua a carga viral. Agora, na Argentina, vamos começar a baixar as restrições, e espero que, com tudo isso, tenhamos aprendido sobre o surto que virá com a ausência do isolamento, e que nos encontraremos melhor preparados para lutar contra a infecção. Mas, para isso, existe uma condição: quando acabar o isolamento, devemos respeitar a distância social e os gestos de barreira. Caso contrário, será o caos novamente.

Pergunta: Você acredita, como sugerido por muitos setores, que o tratamento ou a vacina, se descoberto, deve ser disponibilizado como um patrimônio mundial, ou seja, permanecer fora das especulações dos laboratórios.

Piaggio: Espero que seja assim! Claro, a realidade é diferente e não sei como vamos fazer isso. Seria o ideal, mas não sei como mudar todo um sistema neoliberal no qual os interesses econômicos estão acima das pessoas. Os estados aqui têm um papel importante a desempenhar.

O sistema multilateral de saúde foi um fracasso total. A OMS (Organização Mundial da Saúde) não cumpriu seu objetivo.

A OMS deveria ter cumprido esse papel de regulador e coordenador e não o fez. Devemos repensar a gestão global dessas crises de saúde, não há dúvida sobre isso. Estamos enfrentando um grande fracasso, dada a evidência de que a administração da OMS com a covid-19 estava errada. Estamos em uma situação desastrosa, que continua se deteriorando. A OMS é como um dinossauro, e precisa ser renovada. É necessário haver um órgão regulador, mas não assim como ele existe agora. Os Estados também devem desempenhar um papel maior, que integre a gestão da saúde, a gestão científica, econômica e social.

Pergunta: Na Argentina, o presidente Alberto Fernández tomou rapidamente as medidas a respeito do isolamento do país. Ao mesmo tempo, a comunidade científica trabalha intensivamente com os meios à sua disposição.

Piaggio: Para a ciência argentina, este não é o melhor momento. Passamos da criação do Ministério da Ciência e Tecnologia, onde houve uma recuperação na ciência argentina, para o que aconteceu depois, quando ela se desfez. A ciência está amarrada de pés e mãos, mas os cientistas argentinos são extraordinários. Eles têm um nível único de criatividade e uma capacidade extraordinária de progredir. Colaboro muito com cientistas argentinos. Para mim, é uma maneira de devolver ao país o que o país me deu para estar onde estou. Fazer ciência já é complicado nos países desenvolvidos, imagine o que fazer na Argentina, onde a ciência tem que sobreviver em um caminho cruzado. Mas isso não desqualifica nada que possa sair da Argentina. Tudo o que pode ser feito terá um enorme impacto.

*Publicado originalmente em 'Página/12' | Tradução de Victor Farinelli