Saúde

Naomi Klein: ''Não temos que aceitar voltar ao status quo pré-Covid piorado''

Com que tipo de mundo a crise do coronavírus nos deixará? Entrevistada para um evento do Guardian Live, a ativista e autora insiste que o clima, a igualdade e a justiça devem estar no centro da recuperação pós-pandemia

15/07/2020 12:03

Naomi: ''O vírus nos forçou a pensar em interdependências e relacionamentos'' (Adrienne Grunwald/The Guardian)

Créditos da foto: Naomi: ''O vírus nos forçou a pensar em interdependências e relacionamentos'' (Adrienne Grunwald/The Guardian)

 
Katharine Viner: Olá Naomi. O que você está achando do bloqueio?

Naomi Klein: Para aqueles de nós que estávamos dando aulas para nossos alunos por Zoom, como eu estava - educação `distância, fazendo esse malabarismo e descobrindo como nos virarmos -, tivemos uma sensação muito agradável. Agora estou de volta ao Canadá para o verão com minha família, em quarentena, porque no Canadá, se você vem dos EUA, precisa ficar em uma quarentena muito rigorosa. Não saio de casa há quase duas semanas. Na verdade, estou desenvolvendo algumas fobias sobre deixar o bloqueio.

Katharine Viner: Há uma ótima citação em um de seus ensaios recentes de um CEO de tecnologia, que diz: "Os seres humanos são riscos biológicos, as máquinas não." Isso me arrepiou até os ossos e me deixou com medo do futuro. E você escreveu de maneira interessante sobre o "Screen New Deal". [um jogo de palavras em relação ao "Green New Deal", o acordo proposto para uma economia sustentável, só trocando "Green" por "Screen", que é tela, como as de computador]

Naomi Klein: O Vale do Silício tinha uma agenda preexistente, antes da Covid, que imaginava substituir tantas de nossas experiências corporais pessoais, inserindo a tecnologia no meio delas.

Portanto, para os poucos espaços em que a tecnologia ainda não está mediando nossos relacionamentos, havia um plano - substituir o ensino presencial por aprendizado virtual, por exemplo, e medicina presencial por telessaúde e entrega presencial por robôs. Tudo isso foi renomeado, após a Covid, como uma tecnologia sem toque, como uma maneira de substituir o que foi diagnosticado como o problema, que é o problema do toque.

No entanto, no nível pessoal, o que mais sentimos falta é o toque. Assim, precisamos expandir o menu de opções sobre como vivemos com a Covid, porque não temos uma vacina; ela não está prestes a chegar. Mesmo se houver um avanço, serão necessários muitos, muitos meses, possivelmente anos antes de ela ser lançada na escala em que precisaríamos.

Então, como vamos viver com isso? Vamos aceitar a normalidade pré-Covid, apenas muito reduzida, sem os relacionamentos que nos sustentam? Vamos permitir que nossos filhos tenham todo o aprendizado mediado pela tecnologia? Ou vamos investir nas pessoas?

Em vez de gastar todo o nosso dinheiro em um Screen New Deal e tentar resolver problemas de uma maneira que diminua nossa qualidade de vida, por que não fazemos uma onda de contratação de professores? Por que não temos o dobro de professores com salas de aula da metade do tamanho e descobrimos uma maneira de fazer educação ao ar livre?

Há tantas maneiras pelas quais podemos pensar em responder a esta crise sem aceitar essa ideia que precisamos voltar ao status quo pré-Covid, ainda piorado, apenas com mais vigilância, mais telas e menos contato humano.

Katharine Viner: Você vê algum governo falando assim?

Naomi Klein: Fiquei animada ao ouvir Jacinda Ardern falar sobre uma semana de trabalho de quatro dias como uma solução para o fato de a Nova Zelândia ser muito dependente do dinheiro do turismo, e ainda assim a Nova Zelândia é provavelmente o país que lidou melhor com a pandemia do que qualquer outro país, em termos de suas taxas de fatalidade. Ele não pode abrir as portas para os turistas da maneira que fazia no passado, então existe a ideia de que talvez os neozelandeses devam trabalhar menos, receber o mesmo e ter mais tempo de lazer para poder desfrutar de seu próprio país com segurança .

Como desaceleramos? É nisso que tenho pensado muito. Parece que toda vez que pisamos no acelerador marcado como "negócios como sempre" ou "volta ao normal", o vírus volta e diz: - Calma.

Katharine Viner: Todos nós amamos aqueles momentos de desaceleração, mas o governo do Reino Unido está empenhado em voltar ao normal, aconteça o que acontecer. Tudo abrindo, abrindo bares, é desesperador nos levar a sair de férias. É urgente não mudar nada na maneira como vivemos, apenas voltar a ser como era antes.

Naomi Klein: É loucura! É uma porcentagem muito pequena da população que quer simplesmente abrir as portas. A maioria está realmente mais preocupada por voltar ao trabalho antes que seja seguro, por enviar seus filhos para a escola antes que seja seguro. Às vezes, isso é colocado como se estivessem dando às pessoas o que elas querem, mas não é isso que as pesquisas mostram.

Existem semelhanças entre a maneira como Donald Trump lidou com isso e a maneira como Boris Johnson lidou com isso. Eles estão transformando isso em algum teste de masculinidade, mesmo no caso de Johnson após o vírus. Jair Bolsonaro estava falando sobre como ele era um atleta, então ele sabe que vai lidar bem com isso [o presidente brasileiro revelou que tem coronavírus logo após essa entrevista]; Trump estava falando sobre seus bons genes.

Katharine Viner: Eu estava interessada em suas opiniões sobre por que você acha que os protestos pelos direitos civis, à luz da morte de George Floyd, aconteceram agora? Parece intrigante, no meio de uma crise, que, em todo o mundo, existam essas enormes manifestações contra o racismo.

Naomi Klein: Este não é o primeiro levante desse tipo. Mas acho que houve alguns aspectos únicos por causa da Covid e do enorme impacto da pandemia para afro-americanos em cidades como Chicago, onde, segundo algumas avaliações, 70% das fatalidades por Covid foram de afro-americanos.

Seja porque são eles que executam os trabalhos de risco, sem proteção, ou por causa dos legados da poluição ambiental em suas comunidades, estresse, trauma, locais de trabalho inseguros e cuidados de saúde discriminatórios. As comunidades negras estão carregando um fardo desproporcional das fatalidades do vírus, desafiando a ideia de que estávamos juntos nisso.

No meio desse momento de profundo trauma, esses assassinatos - de Ahmaud Arbery, de George Floyd, de Breonna Taylor - atravessam isso.

Mas então há uma pergunta que muitas pessoas estão fazendo: o que todas essas pessoas não-negras estão fazendo nos protestos? Isso é o que há de novo, certamente nessa escala. Muitas dessas demonstrações são verdadeiramente multirraciais; manifestações multirraciais lideradas por negros. Por que desta vez é diferente?

Eu tenho alguma ideias. Uma tem a ver com a suavidade que a pandemia introduziu em nossa cultura. Quando você diminui a velocidade, pode sentir as coisas; quando você está nessa corrida de ratos constante, não sobra muito tempo para empatia. Desde o início, o vírus nos forçou a pensar em interdependências e relacionamentos. A primeira coisa que você está pensando é: tudo o que toco, o que mais alguém tocou? A comida que estou comendo, o pacote que acabou de ser entregue, a comida nas prateleiras. São essas conexões que o capitalismo nos ensina a não pensar.

Penso que ser forçado a pensar de maneiras mais interconectadas pode ter suavizado mais de nós a pensar nessas atrocidades racistas, e não dizer que elas são problema de outra pessoa.

Katharine Viner: Há uma grande frase, na nova introdução de "On Fire", seu último livro, quando você diz: “o que havia de ruim, antes do desastre, foi rebaixado a insuportável” - é uma situação insuportável da maneira como os homens negros são tratados pela polícia.

Naomi Klein: Sempre existe esse discurso quando acontecem desastres: “A mudança climática não discrimina, a pandemia não discrimina. Nós estamos todos juntos nisso. Isso não corresponde à verdade. Não é assim que os desastres agem. Eles agem como lupas e agem como intensificadores. Se você tinha um emprego em um armazém da Amazon que estava deixando você doente antes, ou se você estava em um centro de tratamento de longo prazo que já o tratava como se sua vida não tivesse valor, isso era ruim antes - mas tudo isso fica ampliado para insuportável agora. E se você era descartável antes, agora é uma oferenda em sacrifício.

Estamos falando apenas da violência que podemos ver. O que precisamos falar mais é sobre a violência oculta e a violência doméstica. Para ser franca, quando os homens estão estressados, as mulheres tomam na cara e as crianças também. Esses bloqueios são muito estressantes, porque as famílias não têm alívio um do outro e até a melhor família precisa de um pouco de espaço. Então você adiciona demissões, estresse econômico. É uma situação muito ruim para as mulheres agora.

Katharine Viner: Sei que você passou boa parte do ano passado trabalhando no Green New Deal e na campanha Bernie Sanders. Como tudo lhe parece agora? Você se sente mais ou menos positiva em relação ao potencial?

Naomi Klein: Em algum nível, é mais difícil. Você mencionou Bernie e, certamente, meu resultado preferido seria um candidato à presidência fazendo uma campanha com o Green New Deal como assunto central. Acredito que só venceremos isso com uma interação de pressão de movimento de massa de fora, mas também uma receptividade de dentro. Eu acho que tivemos essa chance com Bernie.

É mais difícil com Joe Biden, mas não impossível. No final de On Fire, dei 10 razões a favor de um Green New Deal e por que é uma boa política climática. Uma dessas razões é que é à prova de recessão. Temos esse péssimo histórico no movimento climático de obter ganhos quando a economia está relativamente bem, porque o tipo de soluções climáticas que obtemos dos governos tendem a ser essas soluções neoliberais baseadas no mercado, como impostos climáticos ou políticas de energia renovável percebidos como custos de energia mais caros, ou impostos sobre o carbono que tornam o preço da gasolina mais caro. Assim que você sofre uma desaceleração econômica, o suporte a essas políticas certamente se evapora. Vimos isso após a crise financeira de 2008. O clima tem a reputação de ser uma coisa burguesa - a questão com a qual você se preocupa se não precisar se preocupar em colocar comida na mesa.

O que é importante sobre um Green New Deal é que ele é se espelha em um dos maiores programas de estímulo econômico de todos os tempos, durante a maior crise econômica de todos os tempos, e esse é o New Deal de FDR [Roosevelt] durante a Grande Depressão. Por causa disso, a maior oposição que recebi quando lancei On Fire, pouco menos de um ano atrás foi: "Mas não fazemos coisas assim quando a economia está indo bem."

Podemos apontar que, as únicas vezes que nossas sociedades se movem rapidamente - e essa é uma dura verdade - e mudam de tamanho, são, cataliticamente, nos momentos de grande depressão ou guerra. No entanto, agora sabemos que podemos mudar rapidamente. Nós vimos isso. Mudamos dramaticamente nossas vidas. E descobrimos que nossos governos têm trilhões de dólares que poderiam ter desembolsado esse tempo todo.

Tudo isso é potencialmente radicalizante. Eu sinto que temos uma chance. Eu não me descreveria como otimista, porque este é um futuro pelo qual temos que lutar. Mas se apenas olharmos para momentos da história em que vencemos grandes mudanças, são momentos como este.

Naomi Klein é a ocupante inaugural da cátedra Gloria Steinem de mídia, cultura e estudos feministas na Universidade Rutgers. Seu último livro de 2019 é On Fire: The Burning Case for Green New Deal [O Mundo em Chamas - Um plano B para o planeta].

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli