Saúde

O flagelo da imunidade de rebanho

 

26/10/2020 11:33

(Nathaniel St. Clair)

Créditos da foto: (Nathaniel St. Clair)

 
A covid-19 mata, e sua taxa de mortalidade é significativamente mais alta do que a da gripe. Alguns que se recuperam desenvolvem imunidade insuficiente para evitar nova infecção. Alguns parecem não se recuperar. Eles estão presos a debilidades que duram meses, talvez mais. E é possível que essa doença seja crônica e persista em algumas pessoas, como o herpes, um vírus que pode ser reativado - essa possibilidade é desconhecida. Todos esses aspectos da covid são um mau presságio para uma vacina. Mas eles liquidam totalmente a noção de imunidade coletiva, alcançada não por meio da vacinação, como os médicos responsáveis fariam, mas por permitir que uma população contraia a doença.

Esta nova abordagem à imunidade de rebanho é uma quimera atualmente cogitada por fanáticos da Casa Branca - a respeito da qual, William Haseltine, da ACCESS Health International, disse recentemente: “imunidade de rebanho é outra palavra para assassinato em massa”. Se a covid se espalhar amplamente, o que esse tipo de imunidade coletiva defende, “estimamos que de dois a seis milhões de norte-americanos morram, não apenas este ano, mas a cada ano”, acrescentou Haseltine. Esta é a política do regime de Trump: milhões de norte-americanos mortos.

O Dr. Scott Atlas é o cara da imunidade coletiva de Trump. Ele não é epidemiologista, é neurorradiologista e, portanto, sabe pouco sobre doenças infecciosas. Ele também é um ideólogo da Hoover Institution,de extrema direita. Aparentemente, ele teve um efeito muito maligno no pensamento de Trump. Trump pode ter decidido não se proteger da covid porque concorda com Atlas que todos serão infectados, então por que lutar contra isso? Trump diz que se expor é parte de sua função de liderança, mas outras formas de liderança estão se mostrando em lugares como China, Vietnã, Nova Zelândia, Coreia do Sul e Taiwan. Lá, os líderes se concentraram em uma coisa: matar o vírus. E eles, em geral, tiveram sucesso, salvando centenas de milhares de vidas de seus cidadãos. Enquanto isso, os norte-americanos morrem de covid aos milhares, mais de 221.000 até agora.

A Suécia optou pela imunidade coletiva. As estatísticas de mortalidade nos países escandinavos são instrutivas aqui. Em 6 de outubro, a Dinamarca tinha 663 mortes por covid, Finlândia 346, Noruega 275 e Suécia 5892, de acordo com o Statista. A Suécia também teve de longe o maior número de casos da doença, 96.677. A Suécia não bloqueou suas atividades como outros países escandinavos fizeram, nem impôs a ordem para o uso de máscara. O uso dependia do julgamento das pessoas. Embora isso tenha conseguido quebrar a economia, já que os cidadãos cautelosos ficaram em casa, ainda resultou em muito mais mortes do que os países vizinhos, que sistematicamente interromperam suas atividades e obrigaram o uso das máscaras.

No início de junho, a Turquia optou pela imunidade de rebanho. De acordo com o World Socialist Website, casos e mortes estão aumentando. O governo, no entanto, continua promovendo a manutenção das pessoas no trabalho e na escola. De acordo com um funcionário de uma associação médica, “no mês passado, um total de 900 profissionais de saúde pediram demissão de seus empregos durante a pandemia”. A determinação do presidente Recep Erdogan de evitar bloqueios não é popular, mas ele é um homem forte, supostamente admirado por Trump, e decidiu deixar o vírus dilacerar a população turca.

Outro lugar onde a covid foge do controle é Moscou. Restaurantes e bares foram abertos e houve pouco distanciamento social. Pode-se dizer que a Rússia experimentou imunidade coletiva de fato. No entanto, o presidente conservador Vladimir Putin nunca a defendeu. Pelo contrário, de acordo com a agência Tass, a Rússia tentará usar a vacinação para obter imunidade coletiva neste outono, não deixando a doença se espalhar. Enquanto isso, o prefeito de Moscou combate com medidas para promover o rastreamento de contatos e limitar o horário de funcionamento de restaurantes e bares.

No início do surto, o Reino Unido também optou brevemente pela imunidade coletiva. Mas os resultados foram tão desastrosos que até um político da extrema-direita radical como Boris Johnson teve de renunciar a ela. Então ele contraiu a doença e passou por um período horrível com ela, sem dúvida condenando qualquer conversa sobre imunidade de rebanho como uma política no Reino Unido

Graças a uma “cura milagrosa” derivada de fetos abortados, que, presume-se, será silenciada para não ofender os evangélicos, embora permaneça secretamente disponível para oligarcas selecionados, a luta de Trump contra a covid não foi tão horrível quanto a de Boris Johnson.

[NT: Link para matéria da Deutsche Welle: “Fármaco contra covid-19 exaltado por Trump teve origem em tecido fetal”]

E agora o regime de Trump se inclina para a imunidade de rebanho. O secretário de Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, nega isso, como de fato deveria fazer, visto que a imunidade coletiva causaria mortes em massa. Um especialista, Dr. Chris Murray confirmou recentemente à CNN que sim, esse seria o resultado. E em 13 de outubro, o Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, chefe da Organização Mundial da Saúde, chamou de "antiético" o uso da imunidade de rebanho - quando alcançado por uma política de exposição deliberada à doença.

Além de causar mortes em massa, essa imunidade coletiva à covid deixaria milhões de pessoas incapacitadas. E, novamente, a imunidade coletiva pode nunca ser alcançada com uma doença que pode reinfectar pessoas ou que se torna crônica. Portanto, a imunidade de rebanho está destinada ao fracasso. Mas não diga isso a Scott Atlas ou outros no regime de Trump. De fato, no mês passado, o CDC elaborou uma ordem para que todos os passageiros e funcionários do transporte público e comercial usassem máscaras. A Casa Branca a bloqueou.

Então, em 6 de outubro, o site Politico informou que Atlas se reuniu com três médicos infectologistas: o professor de medicina de Harvard Martin Kulldorff, o professor de medicina de Stanford Jay Bhattacharya e o epidemiologista de Oxford Sunetra Gupta. Este trio - que dá um brilho profissional ao charlatanismo da imunidade de rebanho de Atlas - “apoia agir agressivamente para reabrir a economia, deixando de lado testes amplos e outras medidas fundamentais de saúde pública”.

Mais tarde, Gupta disse à propagandista de extrema direita da Fox, Laura Ingraham, que “três meses, talvez seis é tempo suficiente para que a imunidade se acumule ... quando os vulneráveis poderiam retomar uma vida normal”. O Politico também informou que menos de 10% dos norte-americanos tinham anticorpos para a covid. A imunidade de rebanho requer 60 a 70 por cento para interromper a doença. Com 10%, temos 221.000 mortos e subindo. Alguns especialistas dizem que realmente temos cerca de 300.000. Faça as contas. Não há tantos cadáveres quanto Haseltine prevê, mas ainda assim há muitos.

Então, em 13 de outubro, Ghebreyesus fez um vídeo, apontando especificamente que, historicamente, a imunidade de rebanho sempre se referiu à imunidade de uma população a um vírus alcançada ATRAVÉS DE VACINAÇÃO. Essa ideia de expor deliberadamente as pessoas a uma doença potencialmente letal, crônica e incapacitante é nova. É também uma ideia marginal, o QAnon da epidemiologia. E como disse Ghebreyesus, eticamente questionável.

Esta declaração da OMS veio no mesmo dia em que a Casa Branca endossou a imunidade coletiva. O New York Times relatou que o regime de Trump adota a “Declaração do Grande Barrington”, um manifesto assinado pelos três especialistas em doenças infecciosas de Atlas e também por vários piadistas, como IP Freely e outras assinaturas inventadas. Essa declaração pede que se deixe a pandemia se alastrar entre milhões de norte-americanos.

Não deveria ser surpresa que os líderes neoliberais de direita que fazem cultos no altar de uma religião capitalista implacável tenham sido incapazes de lidar com a covid. O ódio à saúde pública está codificado em seu DNA. Na verdade, a saúde pública nesses países - Estados Unidos, Brasil, Índia, Reino Unido, Rússia - é atrofiada ou inexistente, porque a saúde é tratada como uma mercadoria disponível apenas para os ricos. Países com economias mais mistas e com mais respeito pela eficácia do governo, como Nova Zelândia, Coreia do Sul, Taiwan, China, Vietnã, lidaram muito melhor com essa praga. Eles tentaram extirpá-la. Essa abordagem, o oposto da imunidade coletiva, foi bem-sucedida. Ela salvou muitas vidas.

Se o regime de Trump continuar no caminho escolhido pelo neoliberalismo - exposição desenfreada à doença para obter imunidade coletiva - haverá milhões de mortes em excesso. Isso não é inesperado para aqueles que consideram o capitalismo irrestrito como um culto à morte e que a imunidade coletiva, em face de uma doença letal e altamente contagiosa, seja sua resposta escolhida. Os governos neoliberais de direita não investem na saúde pública. Eles querem economias abertas, independentemente de quantas pessoas essa decisão mate. Esta é a conclusão lógica de sua religião capitalista radical.

É também a conclusão lógica de um sistema político-econômico de banditismo organizado que pilha o globo há 500 anos, escravizando milhões e, no processo, desencadeando uma catástrofe climática que destrói o planeta. Seus ideólogos gravitam para a imunidade coletiva como moscas para excrementos. Eles tolerarão a morte em massa para manter suas empresas lucrativas. A imunidade de rebanho se ajusta ao capitalismo letal como uma mão na luva. Portanto, o regime de Trump, aberta ou veladamente, continuará a buscar a imunidade coletiva, o que permitirá que aristocratas como Trump e Chris Christie recebam cuidados médicos de primeira linha, incluindo as raras curas milagrosas mencionadas, enquanto o norte-americano médio atingido pela covid, sem fôlego, tem sorte se conseguir uma cama de hospital.

Eve Ottenberg é romancista e jornalista. Seu último livro é Birdbrain. Ela pode ser contatada em seu site.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de César Locatelli