Saúde

O trio da calamidade

A pandemia segundo Donald Trump, Boris Johnson e Jair M. Bolsonaro

26/08/2020 14:07

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As falhas espetaculares do Brasil, do Reino Unido e dos EUA durante a pandemia da Covid-19 fornecem lições valiosas sobre o que não pode jamais acontecer novamente: esperar o desaparecimento do vírus, minimizar o impacto potencial de uma pandemia na saúde pública e na economia, atrasar inevitáveis confinamentos, numa lista vasta. Tais falhas também lançam forte luz sobre as raízes do desastre.

O primeiro passo é reconhecer a amplitude da catástrofe (ver Tabela 1).

Fontes: https://coronavirus.jhu.edu/map.html(15 de julho de 2020),ourworldindata.org (13 de julho de 2020), https://www.ft.com/content/a26fbf7e-48f8-11ea-aeb3-955839e06441(15 de julho de 2020) e https://www.imf.org/en/Publications/WEO/Issues/2020/06/24/WEOUpdateJune2020

Resumidamente, é improvável que o desastre humano nos países selecionados por nós seja compensado por uma crise econômica mais branda – ao contrário, é muito mais provável que tenham um desempenho pior do que a média – desmontando, assim, o argumento de que a proteção da economia deva ser uma prioridade e “uma pena se isso significar que alguns aposentados morram [como consequência]” [1].

Os casos selecionados por nós (o “Trio da Calamidade”) compartilham características evidentes, relacionadas essencialmente com sua “liderança”: todos são governados por palhaços arrogantes, egoístas, autopromovidos, pedantes, rudes e paternalistas, que demonstram sintomas de transtorno de personalidade histriônica, se não psicopatia, sustentando abertamente ambições autoritárias de quebrar e refazer a Constituição e o aparato do Estado. Surpreendentemente, eles não estão interessados em construir movimentos de apoio em massa, preferindo cultivar fãs bajuladores, mas desorganizados:

Donald Trump sequestrou o Partido Republicano, mas não tem nenhum uso previsto para ele, além da máquina eleitoral e da arrecadação de fundos; Boris Johnson não tem tempo para o Partido Conservador que ele refez com a imagem doBrexit, e Jair Bolsonaro nem sequer pertence a um partido (sua tentativa de criar a Aliança pelo Brasil estagnou miseravelmente). Seguindo: eles mentem descarada e compulsivamente, reivindicam méritos alheios, negam verdades evidentes, proclamam o inexistente e promovem violência contra as pessoas que os questionam, os que checam fatos, os que possuem pontos de vista diferentes, os cientistas e as mulheres.

Eles são arrogantes, impermeáveis ao remorso e rápidos em afirmar que tudo o que fazem é “o melhor do mundo”, mesmo quando tenham falhado ou até quando o tiro sai pela culatra. Apesar de seus instintos autoritários, esses líderes continuam escravos do processo eleitoral: tudo gira ansiosamente em torno da próxima eleição. E mais: eles travam lutas calculadas com a mídia, o que garante visibilidade mesmo sob a luz pouco lisonjeira da crítica metódica (que, paradoxalmente, tende a consolidar a fidelidade de seus fãs). Os comentaristas têm lutado para explicar a popularidade de tais líderes, que persiste apesar das transgressões diárias contra a política “civilizada”.

Essa combinação de características mostrou-se letal com a pandemia. Os riscos foram minimizados porque a precaução pareceria ruim, sugeriria fraqueza ou prejudicaria as perspectivas eleitorais. Mas se tumultos, negações e mentiras bastaram no passado, o coronavírus foi irredutível a tudo isso. As ações de saúde pública tardaram porque a máquina estatal estagnou quando confrontada por um desafio não relacionado à promoção do Líder. Jogar na defesa não era natural aos nossos espécimes em questão, e eles se atrapalharam. Apesar de suas proezas telegênicas, eles foram incapazes de fingir simpatia pelo Outro ou expressar piedade, vergonha, remorso, e mostraram-se cruéis; não podiam expor as complexidades da pandemia [2], e mostraram-se ignorantes; não podiam orientara uma resposta institucional propositiva,e mostraram-se perdidos.

Trump e Bolsonaro rifaram seus próprios especialistas em saúde apregoando charlatanices, enquanto os especialistas de Johnson “desapareceram” assim que se distanciaram da mensagem official [3]. Pior, acostumados à política como guerra (Remain vs.Leave; Tories vs. Corbyn; proprietários de armas e supremacistas brancos vs. controle de armas e manifestantes do Black LivesMatter; Obamagate vs.Russiagate; Lula vs.Lava Jato; mídia tradicional vs.startups evangélicas, e assim por diante), e envoltos em batalhas contra o “Estado profundo”, nossos líderes se viram incapazes de responder ao Covid-19, um adversário indiferente à política da divisão e do ressentimento.

Tais disfunções não se devem meramente à incompetência individual ou à ignorância; elas revelam um mal-estar político mais profundo que afetou especialmente aos três países. A transição para o neoliberalismo reestruturou a reprodução econômica e social do Reino Unido desde meados da década de 1970, dos EUA desde o final daquela década, e do Brasil desde o final dos anos 1980, criando uma grande variedade de “perdedores” econômicos e sociais: milhões de empregos qualificados foram eliminados; profissões inteiras desapareceram ou foram exportadas, e as oportunidades de emprego no setor público pioraram por causa das privatizações e das “retraces”. A estabilidade dos empregos formais diminuiu, e os salários, as condições de trabalho e as proteções previdenciárias deterioraram-se para todos.

A institucionalização de uma democracia neoliberal fomentou a alienação dos “perdedores”. Suas preocupações foram ignoradas, e seus ressentimentos, medos e esperanças foram capturados pela grande mídia, deslocados para conflitos éticos entre pessoas “boas” e “más”, restringidos pelo senso comum presente em noções como “desonestidade” no nível individual e, coletivamente, por visões de “privilégio indevido” concedido pelo Estado aos pobres indignos, mulheres, minorias, estrangeiros e outros países.

Esse processo corroeu dois pilares do capitalismo. Primeiro, o compromisso de esclarecimento com a ciência: as universidades foram não apenas deslegitimadas (diplomas “Mickey Mouse” [4], “gestores com salários excessivos”, e alta dívida estudantil – tudo em acordo comas políticas de governo – bem como os elementos passíveis de repressão, como a “doutrinação de esquerda” e a “cultura de cancelamento”). Em linhas semelhantes, o culto neoliberal do indivíduo alimentou a individualização da própria verdade: é meu direito acreditar que a Terra é plana e nenhum CDF tem autoridade maior do que eu em nenhum assunto; ninguém pode me impor máscaras, vacinas ou isolamento; o coronavírus é uma farsa porque eu digo que é assim [5] etc., em uma fogueira de certezas que, se descontroladas, consumiriam satélites geoestacionários, transportes de longa distância, internet, medicina baseada em evidências, estações de tratamento de água e muito mais.

Em segundo lugar, as políticas democráticas perderam tanto sua legitimidade quanto sua eficácia por causa da exclusão das questões econômicas do debate: sob o neoliberalismo, a superioridade do mercado e o imperativo do controle da inflação não poderiam ser contestados ou sequer debatidos, e as instituições do Estado foram readequadas com o objetivo de isolar as políticas neoliberais dos caprichos da prestação de contas eleitoral. A lei consagrou tetos de gastos, metas de inflação e privatizações, enquanto um muro de propaganda promovia a financeirização e o consumismo como essência da “boa vida”. A alienação era um resultado inevitável e, considerando a prévia destruição da esquerda, formou-se um vácuo político no qual a oposição foi dissolvida, resultando em anomia, com esse vácuo sendo tomado por líderes autoritários “espetaculares”, dominado pela extrema direita.

Essas tendências destrutivas foram intensificadas pela Grande Crise Financeira, iniciada em 2007, que culminou em uma década de “austeridade fiscal”, justificada pela necessidade de pagamento pelas políticas estatais em benefício da saúde financeira, mas, na realidade, ampliando a destruição da sociabilidade e produzindo novas ondas de reengenharia social. A ascensão de líderes “espetaculares” não é, portanto, nem uma aberração temporária nem uma excrescência política reversível, mas, acima de tudo, um subproduto do fracasso da financeirização, da decadência da democracia neoliberal e da deslegitimação de ideologias dominantes e modos de representação da realidade.

Essa dinâmica política instável foi esmagada pelo Covid-19. Brasil, Reino Unido e EUA assistiram horrorizadosao coronavírus ceifando dezenas de milhares de vidas, imune à arrogância, tumultos e negacionismos estrepitosos. Enquanto isso, as populações desses países foram privadas das informaçõessobre os diversos paísese regiões que contiveram a pandemia com sucesso; escandalosamente, os sucessos (relativos) da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte foram encobertos pela Inglaterra, como se fossem banais ou insignificantes. Como sempre, a Inglaterra desprezou nações menores, começando pelas mais próximas.

Múltiplas experiências de sucesso contra o coronavírus estão à disposição. Elas mostram que diferentes combinações de capacidade estatal, resposta rápida, universalidade e capilaridade dos sistemas de saúde, recursos, tecnologia e controle social poderiam conter o coronavírus: o desastre não era inevitável; cada morte deve ser contabilizada. Em contrapartida, o Trio da Calamidade demonstrou uma falta de preparo deliberada, destinando recursos insuficientes aos respectivos sistemas de saúde, promovendo políticas desorganizadas e contraditórias, definindo estratégias de implementação precárias e priorizando a corrupção escalonante à preservação da vida. A pandemia mostra não apenas que a morte é o preço da arrogância, ela também mostra que a morte foi a consequência evitável de uma modalidade de neoliberalismo decadente em três países que padecem de um sofrimento de longa data.

*Alfredo Saad Filho é professor no Departamento de Desenvolvimento Internacional do King’s College London. Autor, entre outros livros, de O valor de Marx (Unicamp).

Tradução: Fernando Marineli

*Publicado originalmente em esquerda.net


Notas

[1] Frase atribuída a Dominic Cummings, Consultor-chefe do primeiro-ministro britânico (um título especialmente criado para ele); mais tarde não apenas refutada como posição de Cummings, mas chegou-se a dizer que ele teria orientado o confinamento na Grã-Bretanha (https://www.telegraph.co.uk/politics/2020/03/22/no-10-forced-deny-claims-dominic-cummings-said-pensioners-die).

[2] O contraexemplo é a explicação precisa de Angela Merkel sobre a pandemia; Ver https://www.theguardian.com/world/2020/apr/16/angela-merkel-draws-on-science-background-in-covid-19-explainer-lockdown-exit.

[3] Ver https://www.telegraph.co.uk/news/2020/05/05/exclusive-government-scientist-neil-ferguson-resigns-breaking/, https://www.independent.co.uk/news/uk/politics/coronavirus-chief-nurse-dominic-cummings-ruth-may-daily-briefing-downing-street-a9562741.html e https://inews.co.uk/news/politics/coronavirus-latest-health-experts-banished-downing-street-briefings-explained-dominic-cummings-445004.

[4] N. do T.: “Mickey Mouse courses” no original, termo do Reino Unido, refere-se a cursos universitários inúteis.

[5] Isso nem sempre termina bem.Ver, por exemplo, https://www.abc15.com/news/coronavirus/30-year-old-dies-after-attending-covid-party-thinking-virus-was-a-hoax.