Saúde

Oxfam diz que covid-19 causará mais mortes devido à fome do que à própria doença

ONG denuncia que o valor pago em dividendos aos acionistas de oito das maiores empresas do setor alimentar e de bebidas é dez vezes superior ao que as Nações Unidas calcularam ser necessário para impedir a fome em todo o planeta

10/07/2020 13:15

Mulher africana carrega bidões de água (Reprodução/Twitter/Oxfam)

Créditos da foto: Mulher africana carrega bidões de água (Reprodução/Twitter/Oxfam)

 
A Oxfam publicou esta quinta-feira um relatório intitulado “O vírus da fome: como a covid-19 está a potenciar a fome num mundo já faminto”. Nele, a ONG analisa como a pandemia aprofunda a crise alimentar nos locais que já a experienciam e como cria novos “epicentros de fome em todo o mundo”.

Segundo este estudo, 121 milhões de pessoas poderão ficar à beira da fome. E até ao final deste ano, 12 mil pessoas poderão morrer por dia devido a casos de fome causados pelo novo coronavírus. Mais do que as que morreram diariamente devido diretamente à doença no seu auge, em abril, e que se cifraram em 10 mil por dia.

Chema Vera, diretor executivo interino da organização, considera que a pandemia é “a última gota de água para milhões de pessoas que lutam contra os impactos de conflitos, alterações climáticas, desigualdade e um sistema alimentar falido que empobreceu milhões de produtores e trabalhadores”. A epidemia causa desemprego massivo, disrupção nas cadeias de produção alimentar e decréscimo das ajudas alimentares existentes.

Uma crise que não se pode dizer que se estenda a todo o setor alimentar. Recorda o dirigente associativo que “oito das maiores empresas do setor alimentar e das bebidas pagaram 18 mil milhões de dólares a acionistas desde janeiro, mesmo durante o tempo em que a pandemia se espalhava pelo globo”. Um valor dez vezes maior do que aquele que as Nações Unidas calcularam ser necessário para impedir este surto de fome.

África, o continente mais atingido

Antes da pandemia, em final de 2019, a fome extrema afetava onze países africanos, a República Democrática do Congo (15,6 milhões de pessoas), a Etiópia (8 milhões de pessoas), o Sudão do Sul (7 milhões de pessoas), o Sudão (5,9 milhões de pessoas). O Burkina Faso, o Mali, a Mauritânia, o Níger, o Chade, o Senegal e a Nigéria, os países da região do Sahel, terão um total de 9,8 milhões de pessoas. Só na região do Sahel, acredita a Oxfam, mais 50 milhões de pessoas poderão vir a sofrer risco de fome extrema este ano.

Parte dos problemas já vem de trás, nomeadamente a violência que obrigou 4,3 milhões de pessoas a sair de casa, levou 24 milhões a passar a depender de ajuda humanitária para a sua subsistência e perturbou o cultivo de terras e a atividade pecuária. A estes acrescentam-se os problemas gerados pelo encerramento de fronteiras, como o aumento exacerbado dos produtos importados, ou pelo confinamento, como o encerramento de mercados e a impossibilidade de deslocar gado para as pastagens, por exemplo.

Brasil, um possível novo “epicentro” da fome

Entre os novos epicentros da fome, a Oxfam identifica países de médio rendimento como o Brasil, a Índia e a África do Sul. Por exemplo no Brasil, apenas 10% do apoio prometido pelo governo de Bolsonaro tinha chegado, até ao final de junho, a quem dele necessitava. “As grande empresas são favorecidas em detrimento dos trabalhadores e das empresas mais pequenas e vulneráveis”, avança a organização que destaca que milhões de trabalhadores ficaram sem meios de subsistência.

De sublinhar ainda que o estudo mostra que são as mulheres e os lares em que a principal providenciadora de alimentos é uma mulher que mais serão afetados. Estas “fazem parte em larga proporção de grupo, como os trabalhadores informais, que foram atingidos fortemente pela crise económica causada pela pandemia e também tiveram de sustentar o peso de um aumento dramático de trabalho de cuidados não pago como resultado de encerramento de escolas e de doenças na família.

*Publicado originalmente em Esquerda.net