Saúde

Pandemia: mortes acima da média histórica revelam quadro mais assustador

 

20/08/2020 16:39

Trabalhdores de cemitérios no Brasil colocam cruzes sobre uma vala comum após enterrar cinco pessoas no cemitério de Nossa Senhora Aparecida em meio à pandemia do novo coronavírus (AP Photo-Felipe Dana)

Créditos da foto: Trabalhdores de cemitérios no Brasil colocam cruzes sobre uma vala comum após enterrar cinco pessoas no cemitério de Nossa Senhora Aparecida em meio à pandemia do novo coronavírus (AP Photo-Felipe Dana)

 

Dados recentemente divulgados pelo Financial Times (FT) sobre o número de mortes acima das médias históricas, durante a pandemia de COVID-19, mostram um quadro assustador do verdadeiro número de mortes causadas pelo novo coronavírus. Os dados de meados de julho mostram 178.500 mortes acima da média em apenas quinze áreas urbanas, incluindo Nova York, Cidade do México, Lima, Jacarta, Istambul e Madri.

A reportagem foi publicada no mesmo dia em que o total de casos relatados e mortes, por coronavírus, ultrapassou 22,5 milhões e 790.000, respectivamente. O mundo registrou em média mais de um quarto de milhão de novos casos e pelo menos 5.500 mortes por dia desde 25 de julho. Os Estados Unidos, Índia e Brasil continuam sendo os principais epicentros da pandemia. Ontem foi o segundo dia desde 4 de julho que o número médio de novos casos nos EUA caiu para menos de 50.000, embora as novas mortes tenham permanecido estáveis em mais de 1.000 por dia desde 29 de julho. Existem quase 5,7 milhões de casos no país e mais de 176.000 mortes confirmadas por coronavírus.

O excesso de mortes é definido como o número de mortes em uma região que está acima das médias históricas e podem ser causadas por, entre outras coisas, surtos de doenças, desastres naturais e guerras. A cidade de Nova York, por exemplo, registrou 23.600 mortes devido à pandemia até agora, mas 27.200 mortes em excesso, 15% a mais do que as mortes causadas pela pandemia e 208% acima da média histórica da cidade.

Outras cidades têm um excesso de mortalidade semelhante. Lima, no Peru, sofreu 23.200 mortes em excesso, mais do que o dobro das 10.600 mortes diagnosticadas por coronavírus. As autoridades na Cidade do México contabilizam 9.472 mortos na pandemia, enquanto o FT aponta 22.800 mortes em excesso na capital mexicana. Em Jacarta, 1.014 pessoas morreram oficialmente devido ao COVID-19, em comparação com o excesso de 5.300 mortes. Número de mortos semelhantes foram encontrados na província de Guayas, Equador (1.666 mortes por coronavírus, 14.600 mortes em excesso), Londres (6.885, 10.000) e Madrid (8.451, 16.200).

As taxas de mortalidade também subiram bem acima de suas médias históricas em muitos países. Brasil, França, Holanda, Suécia, Suíça e os EUA experimentaram um aumento de pelo menos 20% na mortalidade desde o início da pandemia. Reino Unido, Bélgica, Chile, Itália e Espanha sofreram um aumento de pelo menos 40%, enquanto Peru e Equador têm taxas de mortalidade mais do que o dobro de suas médias históricas.

Além disso, como o próprio FT observa, as estatísticas de mortes acima das médias históricas ainda estão incompletas e o número real de mortes é provavelmente ainda maior do que o que é conhecido atualmente. Pode levar até oito semanas para que os dados de mortalidade cheguem aos bancos de dados nacionais mantidos por instituições como os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o que significa que obter dados em tempo real sobre mortes, especialmente quando uma pandemia cria um atraso no sistema, é virtualmente impossível. Além disso, nem todos os países dispõem de dados recentes de mortalidade por todas as causas, dificultando as análises globais de excesso de mortalidade.

Deve-se notar que o excesso de mortes não se deve apenas a mortes não registradas, causadas diretamente pela Covid19. Uma razão pela qual a estatística é usada é que ela captura o dano social mais amplo causado pela catástrofe. Mesmo antes da pandemia, os recursos para emergências médicas e procedimentos que salvam vidas eram escassos, em razão de décadas de cortes no financiamento da saúde. Como inúmeros relatórios revelaram em Wuhan, no norte da Itália e na cidade de Nova York durante os primeiros meses da pandemia, esses recursos tiveram que ser parcial ou totalmente dedicados a lidar com o contágio, deixando sem assistência aqueles com doenças mais comuns, mas não menos mortais, como ataques cardíacos ou derrames. Também surgiram evidências de pessoas receosas de irem aos hospitais, mesmo com doenças graves, por medo de contrair o coronavírus e acabar morrendo.

Tais condições podem surgir por todo o mundo. A Índia tem atualmente a maior taxa de novas infecções, atualmente acima de 62.000 por dia, junto com mais de 900 mortes diárias. Embora o Financial Times não tenha analisado os dados de excesso de mortes na Índia, é amplamente reconhecido que as contagens oficiais no país estão muito aquém do total verdadeiro, que atualmente é de 2,8 milhões de casos e 53.800 mortes, graças à falta generalizada de testes.

A trajetória da pandemia no Brasil é ainda pior. O país tem 3,8 milhões de casos e 110.000 mortes, com mais de 40.000 novos casos e cerca de 1.000 novas mortes a cada dia. Assim como na Índia e nos Estados Unidos, o déficit de testes significa que os números relatados subestimam a verdadeira extensão da doença nesses países.

Outros países onde a pandemia ainda está grassando incluem Colômbia (489.000 casos, 15.600 mortes), Rússia (932.000 casos, 15.800 mortes), África do Sul (592.000 casos, 12.200 mortes) e México (525.000 casos, 57.000 mortes). Vários países na Europa também viram um aumento recente de novos casos e mortes, incluindo Espanha, França e Alemanha, todos estavam relatando baixas contagens de casos da pandemia há um mês. As autoridades de saúde locais estão tendo dificuldade em localizar a origem dos novos surtos nesses países, como evidenciado pela nova disseminação na comunidade.

Um desenvolvimento promissor é a autorização emergencial de um novo e barato teste de saliva para COVID-19 chamado SalivaDirect e desenvolvido por pesquisadores da ­. O teste é muito menos invasivo do que os cotonetes nasais atuais, e os reagentes químicos para realizar o teste custam apenas US$ 5. O método fornece resultados em três horas e também é facilmente escalável, segundo os pesquisadores.

Não está claro, entretanto, se o teste estará amplamente disponível ou com que rapidez. A confusão nos testes nos Estados Unidos foi duramente criticada por muitas agências de saúde pública, incluindo a Organização Mundial da Saúde, como um dos principais fatores que permitiram que a doença se espalhasse tão rapidamente. Em teoria, o novo teste fornece uma maneira barata, rápida e precisa de identificar todos os infectados e rastrear seus contatos. Na prática, resta saber se os governos do mundo vão realmente implantar em larga escala uma técnica médica tão necessária.

*Publicado originalmente em 'World Socialist Web Site' | Tradução de César Locatelli