Saúde

Reabrir as escolas é admitir que a segurança da comunidade não é a prioridade

 

31/07/2020 13:31

Crianças em turma pré-escolar usam máscaras e sentam-se em mesas distantes atendendo às diretrizes do coronavírus, em Monterey Park, Califórnia (Frederic J. Brown/AFP/Getty Images))

Créditos da foto: Crianças em turma pré-escolar usam máscaras e sentam-se em mesas distantes atendendo às diretrizes do coronavírus, em Monterey Park, Califórnia (Frederic J. Brown/AFP/Getty Images))

 
Um momento familiar corriqueiro nesta semana me revelou o quanto esse país está despreparado para enviar seus filhos de volta à escola, enquanto a COVID-19 ainda circula enfurecida e sem controle por todo o país. Eu precisava de um pouco de convicção antes que isso acontecesse, mas depois fiquei mais seguro do que nunca que a calamidade e o fracasso nos aguardam se abrirmos as portas das escolas no próximo mês.

Tudo começou, como a maioria das coisas em minha casa, com minha filha tentando fazer um dos truques mais antigos do livro. Ela disse que estava com dor de barriga e eu fiquei meio cético. Na tarde anterior, ela tinha repetido que não queria mais ir ao acampamento de verão, então o desconforto no estômago na manhã seguinte parecia excepcionalmente conveniente.

Aqui, no canto mais distante do sudoeste de New Hampshire, estamos agradecidos que a COVID está contida como nenhum outro lugar do país. Enquanto um aumento ameaçador de novos casos está acontecendo no lado leste do estado devido a suas praias e proximidade a Boston, nosso município está no verde há semanas.

Decidimos, há tempo, que era seguro enviar nossa filha para o acampamento. Como todas as outras crianças do país, ela passou de março a julho como um inseto em uma garrafa, e o isolamento estava causando um impacto emocional notável. Ela precisava de outras crianças, e outras crianças precisavam dela. Tivemos muita sorte de ter essa oportunidade num momento em que tantas regiões não têm.

O acampamento para o qual a enviamos foi quase deliberadamente projetado para impedir o vírus: ao ar livre o tempo todo em uma fazenda, mesmo na chuva, muitas brincadeiras na água corrente de um riacho, crianças em pequenos grupos, conselheiros mascarados e constantemente limpando, e um diretor de acampamento de alta qualidade à frente. Em termos de comparação de instalações físicas, o acampamento é o oposto binário dos edifícios escolares do distrito, todo com ar fresco e à luz do sol.

A dor de barriga apresentava um dilema premente. ‘Nos Tempos Anteriores’, como Charles P. Pierce, da Esquire, chama os dias anteriores à COVID, teria sido fácil de decifrar: algum tempo no banheiro com um aviso de que ficar em casa, longe do acampamento, significava ficar um dia de cama, alguns remédios pediátricos e água, e tudo se resolveria. Eu nasci um dia, mas não não foi ontem.

Náusea, no entanto, é um beco sem saída no meio da lista de sintomas da COVID. Antes de aceitá-la no acampamento, eles perguntam se ela esteve fora do estado, se ela tem fungado ou sentido dor de estômago, e medem a temperatura dela. Eu tinha certeza que ela não estava doente … não tinha? Sem febre, sem tosse ou fungada, ela podia sentir o gosto de sua comida, mas uma sombra de dúvida permaneceu. Devo amedrontá-la com as possíveis consequências de dar um falso alarme no meio de uma pandemia? Que coisa miserável de se fazer com uma criança.

Decidi levá-la para o acampamento, mas consultei seus conselheiros antes de deixá-la sair do carro. Eles confirmaram que ela passara as duas tardes anteriores cantando a música “Eu quero ir para casa” bem antes da hora da partida, o que reforçou minha sensação de que sua queixa digestiva não era inteiramente sincera. Eles mediram a temperatura dela, ela estava liberada e lá se foi.

Eu andei uns três quilômetros pela estrada quando meu telefone tocou, o diretor do acampamento na outra linha, com uma mensagem de "Não" para o papai. Acontece que outras duas crianças foram enviados para casa com problemas estomacais semelhantes, aparentemente algum problema de estômago estava circulando, e o acampamento não estava, adequadamente, correndo nenhum risco. Eu voltei, peguei minha filha e a coloquei de cama pelo resto do dia. Sua recuperação foi surpreendentemente notável.

Agora, desenhe esse mesmo quadro no recinto confinado de uma escola primária a plena capacidade em um novembro sombrio, onde os germes e vírus correm soltos mesmo nos melhores dias.

Uma aluna diz que está com dor de estômago e é mandada para casa, mas e as outras crianças? Os resultados dos testes para COVID estão demorando dias para aqueles que não são ricos ou atletas profissionais. E se realmente a COVID estivesse afetando o estômago dessa criança? Toda a turma dela precisa ser colocada em quarentena? Os professores dela também? Todos eles precisam ser testados? Toda a escola? Como?

Se uma criança com dor de barriga - falsa ou genuína - pode criar esse cenário incontrolável, as escolas não estão prontas para reabrir. Ponto. Fim de conversa.

A WMUR, a estação de TV local aqui, recentemente colocou uma pergunta aos administradores da escola sobre um cenário semelhante: "Se um aluno ou professor testar positivo para COVID-19, toda a turma será obrigada a se colocar em quarentena por 14 dias?"

A "resposta" dada é um dos exemplos mais dramáticos de fala burocrática que você provavelmente encontrará:

 "Uma das questões mais importantes e um dos fatores mais importantes em nossa orientação são nossas escolas com um plano robusto de resposta. E realmente vai depender das circunstâncias da escola - se um professor precisa fazer quarentena, se essa classe precisa se colocar em quarentena. Talvez seja até uma ala da escola ou talvez até uma escola inteira.

 Por isso, pedimos às escolas que tenham planos realmente dinâmicos que incluam o trabalho direto com os Serviços de Saúde e Humanos (HHS) para fornecer orientação em termos de como eles devem responder a isso quando tiverem que fazê-lo. Também estamos trabalhando com eles para que eles possam continuar a oferecer oportunidades educacionais tanto para os professores que ensinam quanto para os alunos durante o período de quarentena.”

Levante a mão se você achar que esse é um "plano" satisfatório semanas antes do sinal tocar. Sim, eu também não.

Não culpo o administrador que deu essa resposta. Em todo o país, foi negado, aos distritos escolares, o financiamento necessário para equipamentos de proteção individual (EPI) e outros itens essenciais, mesmo com o passar dos dias. Essas pessoas estão tentando nadar nas corredeiras com as mãos e os pés amarrados às costas. O fato de estarem afundando sob esse fardo é tão previsível quanto o nascer do sol.

"Depois de colocar nossas vidas em compasso de espera para que, quando a escola começar, será quase meio ano, pais e professores estarão agora na posição de lutar com unhas e dentes por um resultado que nunca desejamos", escreve Dana Stevens, furiosa. Editorial do Washington Post. “a maioria de nós se resigna a voltar ao inferno do aprendizado on-line, porque a única alternativa que nossos líderes nos deixaram é ainda pior. O abandono descarado das famílias norte-americanas é apenas uma das razões, entre muitas, para despertar todas as manhãs a arder com uma ira justa.”

Fica-se com a impressão que muitos distritos estão esperando que os professores tomem, no lugar das autoridades dos distritos, a decisão de não reabrir, recusando-se a trabalhar em um ambiente perigoso. A Federação Norte-Americana de Professores, o segundo maior sindicato de professores do país, anunciou na terça-feira (28) que aprovaria uma greve "nos distritos e estados que reabrissem as salas de aula sem medidas adequadas de saúde e segurança", segundo The New York Times. Três vivas para os professores.

“Salas de aula sem medidas adequadas de saúde e segurança” cobrem a maioria das partes povoadas do país no momento. Mesmo no meu distrito, com os números em alerta verde em nosso município, seria um pensamento perfeitamente mágico Trumpista acreditar que o modo como está aqui agora, é como ficará para sempre. A COVID provou, com efeitos monstruosamente letais, em diversas oportunidades, que essa premissa é falsa, e o inverno está chegando.

Se uma criança com dor de barriga apresenta dilemas irrespondíveis diante de uma pandemia assassina, é uma loucura mortal acreditar que podemos nos sair bem ao reabrir escolas nas circunstâncias atuais. Ausência de um regime de teste rápido e eficaz, de financiamento abrangente para EPIs e diante de um pico de infecção que está devorando grande parte do país, tomar essa decisão de de voltar às aulas convida um horror inimaginável a nossas escolas e casas. Nós não estamos prontos.

*Publicado originalmente em 'Truthout' | Tradução de César Locatelli