Segurança Pública

Atlas da Violência: desarmar reduziu homicídios

Presidente do Ipea, "por princípios", contraria estudos científicos da própria entidade e defende a possibilidade de "o cidadão ter uma arma". Leia também: grande farmacêutica escondeu pesquisa que poderia prevenir Alzheimer; e muito mais

06/06/2019 12:45

(Fernando Frazão/Agência Brasil)

Créditos da foto: (Fernando Frazão/Agência Brasil)

 

O QUE DIZ O NOVO ATLAS DA VIOLÊNCIA

O Atlas da Violência 2019, divulgado ontem pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com dados de 2017, mostra o maior número de homicídios da década: 65.602, sendo 72% por armas de fogo. Mais da metade (35.783) dos mortos eram jovens com entre 15 e 29 anos, e 75% eram negros. E, se a taxa de mortes está crescendo ano a ano, isso não acontece por igual: entre 2007 e 2017, o assassinato de negros cresceu 33%, enquanto a de não negros subiu 3,3%.

Há outras desigualdades. Embora a taxa nacional de homicídios esteja subindo, há uma tendência de redução em vários estados: ela aconteceu em 15 deles. Porém, os 12 onde houve aumento, ele foi muito intenso, puxando os números nacionais para cima. O estado com o maior número de homicídios foi Roraima, seguido pelo Rio Grande do Norte, Acre, Ceará e Goiás. Em último lugar na lista está São Paulo. O Rio, um astro dos programas televisivos sobre violência, está na metade inferior, em 19º lugar.

Como nos anos anteriores, a maior parte dos mortos são homens, mas o número de mulheres assassinadas também atingiu recorde: foram 4.939 (das quais 66% eram negras). Embora o aumento geral não tenha sido grande (1,7% em relação ao ano anterior), o número de mulheres que foram mortas dentro de casa cresceu alarmantes 17%, enquanto, do lado de fora, caíram 3,3%. Em casa, um quarto dos assassinatos foram por armas de fogo. Para a socióloga Wânia Pasinato, especialista em violência de gênero contra as mulheres, o resultado não surpreende, pois desde 2014 “assistimos à redução dos orçamentos para políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres e ao desmantelamento dos equipamentos públicos de atendimento a mulheres em situação de violência doméstica”.

Pela primeira vez, o Atlas traz um balanço sobre a população LGBT. Foram 193 homicídios denunciados em 2017, contra 85 em 2016. Como os registros não informam orientação sexual, esse dado é baseado nas denúncias. Houve ainda 5.930 casos de violência contra homo ou bissexuais, e em 60% foram mulheres sofrendo agressão de homens.

DAQUI PRA FRENTE

Não dá para prever o futuro, mas dá para olhar o passado com sensatez. Segundo o Altas, o número de homicídios crescia 5,44% ao ano nos 14 anos anteriores ao Estatuto do Desarmamento. Nos 14 anos posteriores, caiu para 0,85%. Os primeiros resultados da flexibilização do porte e da posse de armas, que parecem bem óbvios, vão ser mensurados no Atlas de 2021.

Mas o presidente do Ipea, Carlos Von Doellinger, parece ser da turma que acredita mais em convicções do que em provas: “Discordo de maneira enfática do que o estudo apresenta em relação ao efeito das armas de fogo sobre a criminalidade em geral. Há uma defesa do Estatuto do Desarmamento, porém, na minha posição pessoal, por uma questão de princípio, me incomoda a impossibilidade de o cidadão ter uma arma para a defesa da sua integridade física, de sua família e do seu patrimônio”, disse, durante o lançamento do Altas.

AH, A INDÚSTRIA PRIVADA…

O tempo todo se buscam tratamentos eficazes para a doença de Alzheimer. São centenas de pesquisas, bilhões de dólares investidos e, até agora, muita frustração. Mas uma equipe de pesquisadores da farmacêutica Pfizer descobriu que um de seus remédios já existentes poderia prevenir a doença, reduzindo seu risco em 64%. E o que a empresa fez? Nada. Para verificar esses efeitos do remédio, seria preciso fazer um longo teste clínico, que custaria 80 milhões de dólares. Depois de um longo debate interno, a Pfizer decidiu interromper o estudo e, além disso, não divulgar os resultados preliminares. A descoberta foi feita por jornalistas do Washington Post, com base em documentos internos.

Um pequeno detalhe: o remédio em questão é o Enbrel, indicado para artrite reumatoide, e a discussão aconteceu ao mesmo tempo em que ele perdia sua patente. Ou seja, compete com genéricos e sua venda gera menos lucro. Isso, é claro, reduz o incentivo para que se investiguem outros usos. Porém, a empresa disse que apenas não prosseguiu a pesquisa porque as expectativas de sucesso eram baixas, e que manteve em segredo as descobertas porque a publicação não confiava nos resultados. A explicação não convenceu outros cientistas ouvidos pela reportagem. “Isso beneficiaria a comunidade científica. Fossem dados positivos ou negativos, nos permitiriam tomar decisões mais bem informadas”, disse um deles.

Enquanto isso, mais um capítulo na investigação da epidemia de opioides nos EUA. Comentamos recentemente que os diretores da farmacêutica Insys foram considerados culpados por pagar propina a médicos que receitassem o fentanil, poderoso e viciante remédio para dor. O laboratório agora fez um acordo e vai pagar US$ 225 milhões ao longo de cinco anos para acabar os processos. Serão encerradas todas as ações, penais e civis, contra a empresa.

“PEQUENAS” DOSES

Se os crimes das grandes mineradoras chamam a atenção, o mesmo não se pode dizer do impacto dos garimpeiros nas florestas. E ele não é pequeno. Na Carta Capital, Caetano Scannavino escreve que só na bacia do rio Tapajós os garimpos ilegais despejam 7 milhões de toneladas de despejo por ano – “uma Brumadinho” a cada 10 meses. Entre os rejeitos está o mercúrio, que já se encontra presente em níveis altos nos índios Munduruku.

INVESTIGAÇÕES

O Serviço Social da Construção Civil (Seconci) – segunda Organização Social no ranking das que mais receberem repasses do estado de SP, com R$ 3,5 bilhões de contratos na saúde entre 2014 e 2018 – foi acusada de improbidade administrativa pela Receita Federal. Entre os casos apontados pelo Fisco, há “serviços supostamente pagos em duplicidade, ou despesas com contratos nunca executados, além de cláusulas contratuais ‘prejudiciais ao interesse público’, e renovações de contrato automáticas, sem a devida pesquisa de mercado”, conforme a matéria do Estadão.

E a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagaram ontem a Operação Kitsune, que vai investigar um esquema de fraudes e desvio de recursos públicos no Distrito Sanitário Especial Indígena Kaiapó (MT). Segundo a CGU, houve desvio de R$ 2,5 milhões em 51 aldeias.

COM MEDO

O movimento antivacinação é fraco por aqui, mas nem tanto. Um estudo publicado no periódico Cadernos de Saúde Pública avaliou quase mil brasileiros e constatou que, entre os pais, 16,5% hesitavam em vacinar os filhos e 4,5% recusava totalmente a vacinação. No caso dos responsáveis por crianças com menos de cinco anos, esses percentuais foram 21,3% e 1,7%, respectivamente. O trabalho foi feito por pesquisadores da Faculdade São Leopoldo Mandic, em Campinas, em parceria com a London School of Hygiene and Tropical Medicine.

FOI MESMO

Adiantamos ontem que a PEC do Orçamento Impositivo poderia ser votada ontem no plenário da Câmara. E foi mesmo, aprovada em dois turnos. Pelo texto, o governo federal fica obrigado a liberar a verba de emendas parlamentares de bancadas estaduais e do Distrito Federal para ações previstas no Orçamento. Hoje, as emendas parlamentares individuais já são impositivas.

OUTRA FRENTE

A MP da privatização do saneamento perdeu a validade no dia 3, mas o Congresso se mexe de outras formas. O presidente do Senado, Davi Alocumbre, convocou uma sessão extraordinária para votar nesta manhã um projeto de lei de Tasso Jereissati (PSDB-CE) que substitui a medida.

SOCORRO SANCIONADO

E Jair Bolsonaro sancionou a lei que permite a concessão de empréstimos do FGTS para as Santas Casas até 2022. Já falamos disso aqui: ela vem de uma MP de Temer, que aprovou uma linha de crédito de 4,7 bilhões a essas instituições.

PELO AR

Em dez anos, as mortes em decorrência da poluição atmosférica no Brasil cresceram 14%. A informação é do estudo Saúde Brasil, apresentada ontem pelo Ministério da Saúde. O ministro Luiz Henrique Mandetta disse que o custo com internações devido a problemas respiratórios ultrapassou R$ 1,3 bilhão em 2018.

MAU COMÉRCIO

Uma rede sueca de supermercados anunciou ontem um boicote a todos os produtos brasileiros por conta da liberação recorde de agrotóxicos – dos quase 200 aprovados este ano, 26% são proibidos na União Europeia. “Precisamos parar Bolsonaro, ele é um maníaco”, disse o presidente da rede.

ACABA HOJE

Termina hoje o prazo para o envio de contribuições à consulta pública da Anvisa sobre o glifosato.

E por falar nisso, a Agência Pública foi atrás de especialistas para responder se, afinal, é possível eliminar resíduos de agrotóxicos dos alimentos, o que é um serviço pertinente diante de tanto boato. As boas notícias: dá pra reduzir em alguns casos e há projetos de pesquisa tentando bolar soluções melhores.

EM HONDURAS

Há quase um mês, milhares de manifestantes começaram a protestar em Honduras contra as intenções do governo de privatizar a saúde e a educação. No domingo o presidente Juan Orlando Hernández decidiu revogar os decretos que geraram a revolta, mas ainda assim na terça as ruas foram tomadas novamente, com bloqueios de estradas e pneus queimados. E os atos seguirão acontecendo até que o governo acate pedidos para facilitar o diálogo entre os setores de saúde e educação.

É CADA UMA…

No Japão, uma petição online conseguiu 20 mil assinaturas e foi entregue ao Ministério do Trabalho: é para que o governo proíba empresas de exigirem que mulheres usem sapatos de salto em serviço. Mas o ministro se declarou contrário à ideia. Para ele, os saltos são socialmente aceitos como necessários e apropriados

*Publicado originalmente em Outra Saúde/Outras Palavras

Conteúdo Relacionado