Segurança Pública

Forças armadas entre milícias e pandemia

 

03/01/2021 10:47

(Reprodução/Twitter)

Créditos da foto: (Reprodução/Twitter)

 
O general Braga Netto foi interventor na Segurança Pública do Rio de Janeiro durante quase 1 ano. Segundo a imprensa, preocupou-se muito com o tráfico de drogas nas favelas, mas nada fez contra as milícias que aumentaram a extensão do território dominado bem como a intensidade da mistura promíscua com a Polícia. E, com o apoio de Bolsonaro, continuam se expandindo.

Quem quiser se informar a respeito, o livro “A República das Milícias – Dos Esquadrões da Morte À Era Bolsonaro”, de Bruno Paes Manso, é leitura obrigatória. As milícias constituem um verdadeiro Estado dentro do Estado. Cobram imposto, vendem serviços obrigatórios de gás, sinais de TV, transportes, segurança etc. Policiais enriquecem vendendo armas e munições apreendidas e acabam se associando aos bandidos para exploração “comercial” compulsória da população. Já dominam áreas significativas em bairros da zona norte e oeste do Rio de Janeiro, principalmente.

::Leia também: 'A República das milícias': Quando a violência pretende produzir ordem::

Enquanto isso, a própria Polícia Federal criticou as Forças Armadas que não se opuseram à decisão de acabar com a identificação dos lotes de munição, o que dificulta a apuração de crimes e facilita o desvio de armas dos próprios órgãos militares e policiais. Além disso, a Polícia Federal defendeu o imposto de importação sobre armas que Bolsonaro tentou suprimir com a conivências das Forças Armadas que, inexplicavelmente, renunciaram à sua missão de controle, o que na prática facilita a aquisição de armas por milicianos, traficantes e bandidos em geral.

Os militares brasileiros até há pouco contavam com boa imagem na maioria da população, principalmente após a redemocratização do país nos anos 80, com o fim da ditadura militar. Essa imagem começou a ser conspurcada pelos próprios militares que, sem formação técnica, ocupam altos postos no Governo Federal, cerca de 6 mil e, segundo dados extra oficiais, mais de 8 mil.

O mais grave, porém, é o uso dos órgãos de segurança do Estado, controlados por militares de alta patente, para proteger os crimes de Bolsonaro e seus filhos, associados a milicianos. É o caso do Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional colocando a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) para ajudar na defesa do filho do presidente em processos em que é acusado de crimes.

Ao apoiar ostensivamente o governo Bolsonaro, as Forças Armadas avalizam o caos administrativo e a destruição que Bolsonaro havia prometido: “Vim para destruir, não para construir”. Destruição em curso da educação, saúde, ciência, cultura, meio ambiente, direitos humanos, política externa independente etc. Antes respeitado internacionalmente, o Brasil é hoje um “pária” isolado no mundo, com ministros fundamentalistas que agridem importantes parceiros comerciais, como a China - colhendo sistematicamente derrotas diplomáticas – e outros que destroem o meio ambiente, estimulando o desmatamento e até incêndios de florestas, com o apoio velado do Presidente. Mediocridade, atraso, incompetência, obscurantismo são marcas de um Governo desmoralizado no mundo, ainda mais após a derrota de Trump nos EUA.

 O Brasil caiu cinco posições no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU, passando de 79º lugar para 84º nos últimos dois anos. E tem hoje a segunda maior concentração de renda do mundo, sendo o oitavo país mais desigual, atrás apenas de sete países africanos. O PIB já vinha caindo antes da pandemia. Em 2020, estima-se uma queda de 5%. A taxa de investimento, de 20,9% em 2013, caiu para 15,4% em 2019 e cairá ainda mais em 2020 com a política antinacional de “Estado Mínimo”. A saída de capitais quase dobrou em 2020, passando para 87,5 bilhões de reais, numa clara demonstração de desconfiança da política econômica ultra liberal do ministro Guedes, apesar de suas “reformas” apoiadas pela mídia.

A participação da indústria no PIB passou de 17,8% em 2004 para 11% em 2019 e cairá ainda mais em 2020. O desemprego, que era 4,7% em 2014, passou para 14,3% em 2020. De sexta ou sétima economia do mundo na década de 2010, o Brasil é hoje a 12ª, com viés de queda para ser a 13ª. Os índices de pobreza e miséria voltaram a crescer, aumentando a desigualdade social (todos os dados foram extraídos do artigo “Sob os escombros, as digitais de um responsável”, de José Luís Fiori, em Terapia Política, 31/12/2020).

 Mas a emergência hoje é a área de saúde, com a eclosão da pandemia, chamada no início de “gripezinha”, depois de “conversinha”. A atual sabotagem da vacina (vira jacaré) se choca não só com a ciência, mas também com a economia que só voltará ao normal depois da vacinação em massa que o Presidente não estimula, apesar das quase 200 mil mortes pela COVID. Várias vezes Bolsonaro demonstrou irresponsabilidade criminosa ao negar a ciência. Mas, convenhamos, não só ele. O sistema econômico também ignora a ciência que já mostrou que a pandemia é consequência da destruição dos ecossistemas.

O Ministro da Saúde é um militar sem conhecimento na área da saúde pública. O Brasil se aproxima da marca trágica de 200 mil óbitos sem um plano confiável de vacinação. Faltam até seringas e agulhas. O Presidente declarou: “Não dou bola para isso”. 

Cabe, então, ao Ministro da Saúde “dar bola para isso”, ou seja, para a vacinação. Mas, além de leigo na área de saúde, o Ministro mostrou que logística não é seu forte: perdeu o prazo de validade de 6,8 milhões de testes de COVID e conseguiu menos de 3% das seringas e agulhas necessárias para a vacinação.

Até agora, a maior contribuição do general Pazuello foi levar ao Governo o apoio simbólico das Forças Armadas à necro gestão da pandemia.





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