Soberania Nacional

Duas bandeiras históricas: Lula livre e o Petróleo é nosso!

A greve dos caminhoneiros e empresários de logística nos colocam dois cenários pela frente: a construção de um movimento conjunto e soberano, capaz de soltar Lula e estabelecer uma nova agenda de democratização brasileira ou; o que me parece mais possível, o aprofundamento do golpe com a privatização da Petrobrás e cancelamento das eleições de outubro

27/05/2018 09:17

 

José Raimundo Trindade (Professor e pesquisador PPGE/UFPA)

“Porque defender a Petrobrás é defender os interesses do povo brasileiro.” (FPU)

“Há dois modos de escrever. Um, é escrever com a ideia de não desagradar ou chocar ninguém (...). Outro modo é dizer desassombradamente o que pensa, dê onde der, haja o que houver cadeia, forca, exílio”. (Monteiro Lobato).

A greve dos caminhoneiros estabeleceu uma quadrupla disputa: entre a esquerda e a direita; quem é a favor e quem é contra; entre o (des) governo e os mandantes do (des) governo e finalmente; entre os próprios caminhoneiros.

Queremos elucidar cada um desses quiproquós e ver aonde paramos.

Primeiramente, a disputa entre o (des) governo e os mandantes dessa quizomba.

O golpe de 2016 previa cinco movimentos:  i) derrubar a Dilma; ii) estabelecer a agenda mínima neoliberal (EC 95/16 e LC 13467/16); iii) recompor a rentabilidade dos capitais; iv) prender Lula e; v) privatizar a Petrobrás.

Esses movimentos tinham frentes originadas em dois processos: a Lava-jato com dupla responsabilidade: prender Lula e quebrar a Petrobrás e; na frente política viabilizar minimamente o escroque Temer.  

O ponto que parecia mais frágil dessa engenharia social sempre foi, até aqui, o segundo, sendo que ainda em junho de 2017, há exatamente um ano,  o risível procurador geral Janot estabelecia sua denuncia. Nos termos da Globo: “É a primeira vez na história do Brasil que um presidente da República é denunciado por corrupção durante o exercício do mandato. Segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, “com vontade livre e consciente”, o presidente da República, Michel Temer, “recebeu para si, em razão de sua função”, por intermédio de Rodrigo Rocha Loures, o valor de R$ 500 mil oferecidos pelo grupo J&F”. (http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2017/06/denuncia-contra-temer-apos-delacao-da-jbs-deixa-brasilia-ainda-mais-tensa.html). A estabilização do (des)governo do golpe se fez aos trancos, inclusive impondo aos “Marinhos” a necessidade de aturar tanto “amadorismo”.

A lava-jato e seus  “integralistas” cumpriram sua missão muito a contento, sendo que o grau de resistência popular ficou a dever e isso estabeleceu  para os golpistas de diversas matizes um refastelo próprio daqueles momentos de que “tudo está dominado”. Curiosamente nossa “meme invencível  e global” buscava persistentemente viabilizar o visual do homem dos “20 anos em dois”, mesmo que ele fosse uma espécie de ponte para o futuro do pretérito.

A greve dos caminhoneiros recolocou o problema da viabilidade do (des)governo Temer. Vale observar que a lógica da turma de Fernando Henrique Cardoso (Pedro Parentes e companhia) era tão simplória quanto entreguista: FHC e companhia pressuponham que a privatização da Petrobras e os nexos financeiros envolvidos seriam suficientes para estabilizar a economia local e fazer de Temer o último déspota esclarecido.

Segundo o apostata do “desenvolvimento associado” com o capital norte-americano , Temer teria que “favorecer a criação de um ambiente mais favorável às privatizações e concessões no país” (https://www.opovo.com.br/jornal/politica/2018/02/colocar-privatizacao-da-petrobras-e-querer-levar-bala-u201d-diz-fhc.html), e isso seria suficiente segundo este credo para estabilizar a dinâmica econômica e entregar o Brasil ao mundo de crescimento econômico, triste análise de “Policarpo Quaresma” , que infelizmente impunha um triste fim a soberania nacional brasileira.

Quebrar a Petrobrás sempre foi o exercício mais difícil para essa turma de “Wall-street”, assim  colocaram o privatista mó Pedro Parentes para fazer a mais corrupta e deslavada ação: deixar de refinar petróleo e decuplicar o preço da gasolina, gás e diesel. Ação praticada em elevada eficiência, pois durante os dois anos de (des) governo os  reajustes nas refinarias passaram a ser diários, sendo que desde “ então, a Petrobrás alterou 230 vezes os preços nas refinarias. Isso resultou em aumentos de mais de 50% na gasolina e diesel, enquanto os preços do GLP tiveram 60% de reajuste” (http://www.fup.org.br/ultimas-noticias/item/22731-esclarecimento-a-populacao-sobre-os-precos-abusivos-de-combustiveis).

A questão central seria como privatizar a Petrobrás reajustando os preços? Simples, fazendo dois movimentos:  i) atraindo a ira da população e vendendo a falsa ideia de que o aumento dos preços seria decorrente da existência de um “estatismo petrolífero”; ii) parando as refinarias e comprando combustível (petróleo processado) do Estados Unidos. De quebra ainda ajudava as petroleiras ianques.

Como diria o poeta “há uma pedra no caminho”. A pedra no caminho constitui a óbvia complexidade da sociedade brasileira. Esperar que toda a sina de demonização da Petrobrás se dê somente como resultado da elevação dos preços e que a população, inclusive empresários de setores diversos fiquem tranquilos e esperem o tempo das vacas gordas, após privatizar a petroleira e sanear a economia, de fato é de estúpida compreensão.

A greve dos caminhoneiros e empresários de logística nos colocam dois cenários pela frente: i) a construção de um movimento conjunto e soberano, capaz de soltar Lula e estabelecer uma nova agenda de democratização brasileira ou; o que me parece mais possível, o aprofundamento do golpe com a privatização da Petrobrás e cancelamento das eleições de outubro.

Somente a resistência social garantirá o primeiro caminho e a soberania nacional.

A análise do Brasil decorrente dos aspectos antes assinalados parece mais fácil a partir da percepção de que o centro da escrutina golpista era privatizar a Petrobrás e destruir os movimentos de trabalhadores.

A questão agora colocada é como estes dois movimentos se interpõem frente a realidade do mundo concreto brasileiro. Como nos ensinou o velho  Marx “a realidade é o fruto mais complexo da percepção humana”.

A doutrina de choque estabelecida por Naomi Klein (https://www.cartacapital.com.br/politica/a-2018doutrina-do-choque2019-explica-o-brasil-de-michel-temer) nos possibilita uma  linha de interpretação rica para os movimentos de destruição da soberania brasileira e da completa entrega das fontes de petróleo nacionais, inclusive e  principalmente das tecnologias de prospecção em águas profundas.

Para relembrar, qualquer choque social se dá pela recusa dos setores médios de encontrarem futuros razoáveis.

A chamada classe média existe com uma dupla limitação: o querer ser burguês, algo impossível, e o não querer  ser proletário, algo inevitável! Dessa dupla esquisitice brota a esquizofrenia, algo tão conhecido no dia-a-dia dos que vicejam a Globonews e o bairro Jardins de São Paulo.

A disputa colocada no Brasil neste momento refere-se a isso, de um lado parcela da classe trabalhadora teve acesso as condições mínimas de vida, ensejados nos famosos “rolezinhos”, de outro o padrão econômico neoliberal  é incapaz, por suas próprias características de gerar empregos e elevação mínima de renda.

Os padrões econômicos neo-financeiros são incapazes de gerar emprego e crescimento de renda internamente. Os dados da época do facínora FHC comprovam e se fortalecem com os números da era pútrida do temor nacional. Assim a taxa de desocupação (13,1%) no trimestre móvel de janeiro a março de 2018 cresceu 1,3 ponto percentual em relação ao trimestre de outubro a dezembro de 2017 (11,8%).  No primeiro trimestre de 2018 a população desocupada (13,7 milhões) cresceu 11,2% em relação ao trimestre anterior (12,3 milhões) referente ao último trimestre de 2017. 

A doutrina de choque de Klein está curiosamente sendo utilizada no Brasil, diga-se sem a construção de um Estado de Bem Estar Social, coisa que os governos do PT infelizmente não conseguiram. A questão que fica será então: por que do golpe e porque de sua sina radical?

A resposta colocada, a nosso ver, somente pode se encontrar no mundo e nas relações de poder do EUA. Aqui se fecha o círculo satânico, diga-se parte do “moinho satânico” que o capitalismo neoliberal impõe as “terras brasílias”. Assim privatizar a Petrobrás significa elevar os preços do combustível, mesmo que momentaneamente, ás alturas e impor a desordem econômica nacional como parte da reconstrução de uma periferia mais pujante para os EUA e para o Brasil sua completa subordinação e periferização.

A única forma de romper com o atual “moinho satânico” é Lula Livre, a Petrobrás estatizada e socializada com a construção de um Brasil de radicalidade democrática.

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