Soberania Nacional

Informe revela mentiras do jornal El País sobre 'intervenção russa' na Catalunha

O documento, que foi enviado ao comitê do Parlamento britânico sobre 'notícias falsas', contém evidências de que o diário espanhol El País fez 'interpretações errôneas' de dados para acusar os meios russos de alentar o independentismo catalão'

27/04/2018 16:23

 

 
Por RT en Español
 
O documento, que foi enviado ao comitê do Parlamento britânico sobre “notícias falsas”, contém evidências de que o diário espanhol El País fez “interpretações errôneas” de dados para acusar os meios russos de alentar o independentismo catalão.

Interpretações errôneas, informação tergiversadas e uma “metodologia de investigação ineficiente” se encontram na base das fake news sobre a suposta “intervenção russa” no desafio independentista na Catalunha.

Esta é a conclusão de M.C. McGrath, diretor da organização Transparency Toolkit, num informe enviado ao comitê do Parlamento britânico sobre “notícias falsas”.

Em particular, o documento rebate os dados apresentados na sessão do Comitê do passado 19 de dezembro por figuras como David Alandete (diretor adjunto do El País), Francisco de Borja Lasheras (membro do Conselho Europeu de Relações Exteriores) e Mira Milosevich-Juaristi (membro do Real Instituto Elcano), que tentaram demonstrar que a Rússia promoveu uma campanha de desinformação nas redes sociais durante o referendo na Catalunha.

Segundo o informe, que se encontra disponível na página web do Parlamento britânico, as conclusões mostradas por Alandete e companhia foram “excepcionalmente enganosas”, enumerando as fraquezas dos argumentos: metodologia duvidosa, análise enviesado, exageração da influência de bots e trolls, conclusões supérfluas de dados “de fontes questionáveis” e superdimensionamento da influência dos meios russos, como RT e Sputnik, e do fundador do WikiLeaks, Julian Assange.

“Erros atrozes”

“David Alandete, autor das histórias do El País, cometeu erros atrozes em sua análise, que resultam numa tergiversação séria”, reza o informe de McGrath.

Para exemplificar a inexatidão dos dados apresentados pelo El País, foi citada a afirmação de que 59% dos perfis de Twitter que seguem a Assange são falsos. “Esta afirmação é completamente inexata […] Julian Assange só começou a tuitar em 14 de fevereiro de 2017, mas os dados da auditoria do Twitter datam de 12 de fevereiro de 2014, três anos antes de que se tuitara algo na conta”, precisa o informe.

Aliás, uma auditoria realizada em novembro de 2017 com a ferramenta TwitterAudit revelou que 92% dos seguidores de Assange são reais, o que reduz a apenas 8% as contas falsas, um número “relativamente baixo”, tendo-se em conta que entre 9% e 15% dos perfis nessa rede social são bots, indica McGrath.

Quando a mesma análise recai sobre a conta oficial do jornal El País, o número de perfis falsos é de 25% dos seus seguidores. Entretanto, esclarece o especialista, “uma porcentagem alta de seguidores falsos não é algo pouco usual”, como tampouco é um sinal inequívoco de que uma conta “está envolvida numa atividade maliciosa”.

“No melhor dos casos, o El País interpretou a informação de maneira errônea e superficial, mostrando-se incapaz de realizar análise precisas, utilizando inclusive as ferramentas de análise digital mais básicas. No pior dos casos, usaram informação obsoleta e análises descuidadas para enganar os seus leitores”, indica o informe.

“Sem comparação”

Além dos dados errôneos e interpretações inexatas, outro dos vícios apresentados nas “análises” do El País, segundo o diretor do Transparency Toolkit, é “a falta de uma metodologia rigorosa”, já que muitas das afirmações sobre a divulgação de notícias na Internet se fazem sem citações de estúdios que respaldem suas suposições.

Um artigo desse meio espanhol chegou a considerar “suspeito” o fato de que um tuíte de Assange sobre a Catalunha se propagou rapidamente, o que foi atribuído à “intervenção de bots”. Neste sentido, o especialista esclarece que a propagação de um tuíte tem a ver com fatores mais complexos que as contas falsas e que, no caso de Assange, esse comportamento não resulta anômalo: “os tuítes mais populares de Assange recebem regularmente 3 ou 4 milhões de visualizações, entre 4 e 6 vezes mais que o tuíte que, segundo o El País, deveria ser amplificada por bots”.

Uma análise mais detalhada mostra que menos de 8 de cada 1000 contas que viram o tuíte de Assange o retuitaram. É mais: a maioria só curtiu, um fenómeno pouco usual para os bots. O investigador agrega que a taxa de retuítes é proporcional ao número de seguidores do fundador do WikiLeaks, que nesse momento tinha ao redor de 374 mil.

Análise enviesado

McGrath também enfatiza a parcialidade do El País para analisar o comportamento dos supostos bots e trolls que promoviam o independentismo catalão, já que o periódico espanhol não usou o mesmo parâmetro para medir as contas falsas que publicavam mensagens contra a consulta a favor da soberania.

Um dos casos emblemáticos é o da conta @marilena_madrid, que se tuitou uma informação do diário ABC que enfatizava “a falta de legitimidade de Puigdemont junto às instituições da União Europeia”. Esse tuíte teve mais de 15 mil retuítes e apenas 99 curtidas, e boa parte das contas que compartilharam pareciam ser trolls. O indício? Nomes de usuários aleatórios, como @M9ycMppdvp5AhJb, @hdLrUNkGitXyghQ e @fQq96ayN3rikTw, e muitas delas estão, atualmente suspendas.

Entretanto, o especialista admite que a falta de ferramentas para estudar com rigor a atuação dos bots e impede discernir se tratou-se de uma só pessoa que orquestrou a estratégia, um plano do jornal ABC para ampliar sua influência nas redes sociais através de bots, ou “uma campanha de propaganda patrocinada pelo Estado”.

“Este caso exemplifica os perigos da análise unilateral. Para chegar a uma avaliação correta do impacto das mensagens difundidas por bots e trolls suspeitos em torno da crise da independência catalã, os investigadores devem analisar profundamente as mensagens pró-independência e anticatalães”, continua o informe.

Exagero e fontes duvidosas

O especialista também questiona que as informações de Elcano e El País se escandalizem com as “proporções incomuns” de contas que compartilham informação de meios como RT e Sputnik, e sugiram que isto é a evidência “das tentativas de promover a propaganda do Kremlin”.

Diante das informações que apontam a uma campanha planejada, as explicações mais simples são bastante menos espetaculares. Baseado no famoso tuíte de Assange sobre a Catalunha, McGrath tomou uma mostra de 23.418 retuítes e observou que 0,45% das contas eram da Venezuela, 2,1% da Rússia, o que corresponde às proporções da população mundial: 1,92% da Rússia e 0,42% da Venezuela, segundo o World Factbook da CIA. A esmagadora maioria dos perfis que distribuiu a mensagem do fundador do WikiLeaks era dos Estados Unidos.

Embora o investigador reconheça que meios como RT e Sputnik tiveram altas proporções de retuítes sobre a Catalunha em contas da Venezuela, especialmente em suas versões em espanhol, não considera que sejam uma prova das tentativas de expandir “propaganda russa”, e sim, simplesmente, um fator “indicativo do interesse geral” nesse tema, especialmente depois que o presidente Nicolás Maduro criticou a negativa da Espanha em permitir o referendo pela soberania, quando o governo espanhol havia sido o principal impulsor de uma consulta similar proposta pela oposição venezuelana.

Por outro lado, lamentou que o El País utilizasse Hamilton 68 para sustentar seus reportes, já que essa ferramenta foi severamente questionada por sua “metodologia secreta”, além da pouca transparência sobre o seu funcionamento. “Assim como muitos outros jornalistas, Alandete parece ter chegado a conclusões questionáveis sobre a base de uma análise fortuita dos dados do Hamilton 68”, diz o informe.

Quem menciona a Assange?

Na audiência do Parlamento britânico, Alandete assegurou que qualquer coisa que digam Assange e Snowden “viram manchete” para RT e Sputnik. Entretanto, os números mostrados pelas análises da Transparency Toolkit dizem outra coisa.

Mediante o uso do Media Cloud, demonstrou-se que os meios russos poucas vezes mencionaram o fundador do WikiLeaks em suas informações sobre a Catalunha: dos 596 artículos publicados por RT e Sputnik entre 1º de setembro e 8 de dezembro do ano passado, apenas 17 mencionam Assange, ou seja, somente 2,85%. Ademais, a maioria das referências “se centraram em alguns feitos e comentários isolados”.

A modo de comparação, cabe destacar que nesse mesmo período o El País nomeou Assange em 22 informações, mais vezes que Sputnik e RT juntos.

Após esta análise, McGrath conclui que todas as denúncias sobre fake news publicadas nos meios devem ser investigadas com mais rigor antes de serem publicadas ou apresentadas aos corpos legislativos, porque, do contrário, “podem tirar conclusões imprecisas acidentalmente” ou servir de sustento para “acusações infundadas” com o objetivo de “respaldar argumentos políticos”.





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