Soberania Nacional

Pouca expectativa na Alca faz Rodrigues apostar na UE

Em audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, disse aos deputados que agora está apostando mais no acordo do Mercosul com a União Européia

26/11/2003 00:00

Brasília - Dono de uma das pastas mais interessadas nas negociações da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), o ministro Roberto Rodrigues (Agricultura, Pecuária e Abastecimento) afirmou nesta quarta-feira (26) que não tem mais “expectativas substanciais” com relação ao acordo multilateral continental. Em audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, Rodrigues disse aos deputados que agora está apostando mais no acordo do Mercosul com a União Européia (UE).
Segundo a linha de raciocínio do ministro, as negociações internacionais brasileiras podem ser influenciadas por um “efeito bumerangue”: os tímidos resultados da Alca propiciariam uma canalização de interesses dos blocos para uma possibilidade maior de avanços nas negociações com os europeus. “As expectativas são melhores (no caso do acordo com a UE)”, declarou, por causa dos “sinais” mais favoráveis apresentados até o momento.
Extremamente cuidadoso, no entanto, Rodrigues fez questão de exaltar o que chamou de “relançamento” da Alca na última reunião de ministros, ocorrida semana passada em Miami (EUA). Durante a audiência, ele repetiu várias vezes que o documento final do encontro garantiu a “ambição” do acordo. Para sustentar o seu entendimento do processo, o ministro chegou até a ler o trecho inicial do item 10 da declaração ministerial (http://www.ftaa-alca.org/Ministerials/Miami/declaration_p.asp): “Instruímos o Comitê de Negociações Comerciais (CNC) a formular um conjunto comum e equilibrado de direitos e obrigações aplicáveis a todos os países. As negociações sobre o conjunto comum de direitos e obrigações incluirão disposições em cada uma das seguintes áreas de negociação: acesso a mercados; agricultura; serviços; investimento; compras governamentais; propriedade intelectual; política de concorrência; subsídios, antidumping e direitos compensatórios; e solução de controvérsias”.
“Poderia ter ocorrido um breque como aconteceu na (reunião de Cancun da) OMC (Organização Mundial de Comércio)”, acrescentou, destacando que os “EUA continuam muito duros” nas negociações do acordo continental que foi “deixado para depois”, ou seja, prorrogado para as rodadas do ano que vem.
Passeio no shopping

Para fazer um paralelo mais corriqueiro da postura brasileira com relação à Alca, o ministro se recordou de uma história que contara para uma de suas alunas do curso de agronomia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Jaboticabal, para explicar o que o Brasil pode ganhar com o acordo. Rodrigues comparou o pontapé de um acordo ao ato de “decidir sair de casa, em um domingo chuvoso qualquer, para assistir a um filme no cinema do shopping center”. Seguindo a história, o fechamento de um bom acordo seria análogo à escolha de um bom filme somada à compra de uma camiseta boa e barata em uma das lojas do mesmo estabelecimento. “Não estamos olhando de longe. Fomos ao cinema, o filme é bom, mas a camiseta é que é o problema”, resumiu.
“Não vejo nenhuma vontade real (dos norte-americanos) de flexibilização no setor da agricultura”, completou, revelando qual foi a “camiseta” com a qual o Brasil se deparou no andamento das negociações da Alca. “Até aceitamos a existência de subsídios nos países ricos desde que não haja exportação desse determinado produto. Aí é concorrência predatória.”




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