Sociedade e Cultura

''Consumir é preciso, viver não é preciso''

 

05/04/2020 14:36

 

 
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A grande arte trágica grega, com a encenação pública das tragédias em Atenas, no século V a.C, mostrava ao homem sua insignificância diante das forças cruéis do destino por mais alta que fosse sua posição e sua riqueza. A tragédia, pelo menos no teatro de Sófocles, ensinava com arte para a coletividade o que era humano e o que era divino, marcando a separação entre as duas dimensões pela morte do herói ou heroína. Compartilhando a visão de Beauffret, em “Hölderlin e Sófocles” (1965), ao se referir aos gregos como “sinaleiros do futuro”, eu aponto brevemente aqui alguns aspectos ou ensinamentos passados por Sófocles aos atenienses em suas tragédias por achar que eles podem nos ajudar a pensar em algo novo a partir deste momento de total desamparo devido à pandemia do coronavírus:

 - a tragédia desapossa publicamente o herói (geralmente um rei, ou outro membro do alto escalão) do poder imaginário que este pensava ter sobre a própria vida, sobre a vida do outro, sobre a cidade, sobre o encontro inevitável com a morte (encontro com o real).

- ela constitui um palco onde são discutidas as grandes questões humanas: o sentido da vida, a fragilidade da existência, a finitude da vida humana, diferentemente da dos deuses, a justiça, o poder do homem sobre a mulher, o poder dos deuses sobre o homem.

- a tragédia desperta grande comoção e promove identificações nos expectadores entre si e com o herói através de afetos que são a piedade (do herói) e o medo (de que algo parecido pudesse lhes acontecer), também questionando o pensamento diante da existência com tantas dores. Vale a pena viver? O horror (phobos) diante do acaso, e a perdição do herói, desamparado diante das forças onipotentes do real (destino), institui em ato (na própria encenação do mythós ou enredo trágico) um laço originário entre estes afetos e o pensamento, que expunha esteticamente a vida sempre submetida ao Risco, ao Perigo, ao Acaso, e onde a Morte não era recusada. Esta visão trágica do mundo, que contrabalança nossa arrogância tecnológica, foi desautorizada por Platão, que, em sua “República” expulsa os poetas trágicos de Atenas, acolhendo apenas os “poetas oficiais”. Os que proclamavam e ainda proclamam que “navegar é preciso, viver não é preciso”. A qualquer preço.

 A tragédia constitui uma experiência do sublime em que algo terrível provoca deleite. Freud chamou este prazer desagradável de gozo trágico e fundou a psicanálise sobre esta visão trágica do mundo.

A tragédia grega é assim uma experiência artística democrática onde os cidadãos, despojados por ela das formas de poder, podem experimentar a castração simbólica ao nível da cultura, aos assistirem aterrorizados a perdição do herói trágico que em geral acabava com sua morte, despetrificando sensibilidades, fazendo pensar, promovendo a interação e o laço social.

Baseado em Sófocles, precisamente em Édipo-rei, apontando para sua desmesura de poder e saber que o levaram à desgraça ou erro trágico (hamartia), o próprio Freud fez da psicanálise um saber castrado, finito, sempre em construção, aberto aos outros saberes, arte, literatura, poesia, como ele próprio o era.

Este processo de castração simbólica em curso em escala mundial no qual estamos todos ameaçados de morte pela covid-19, em maior ou menor grau coloca na real o sujeito hipertecnológico que, com todas as suas próteses maravilhosas (previstas por Freud em “O mal estar da Cultura”, 1929), se vê vítima de um grande abalo neste encontro em massa com o real, com aquilo que não muda, com o Fora da linguagem, com o Acaso, com a Natureza Magna, com o Perigo, a Morte, o Vírus. Forças primordiais e autônomas diante das quais ficamos completamente desamparados e mergulhados na indeterminação.

Transcrevo abaixo uns versos de M. Blanchot que ele coloca como epígrafe de um seu ensaio “A Grande Recusa”, que é a recusa da morte. De forma diferente mas com conteúdo semelhante, em “Atualidades sobre a guerra e a morte” (1915), Freud afirma que a posição do homem diante da morte é de desejar eliminá-la da vida. Não há nada que possa fazer o inconsciente se convencer da morte, embora a reconheça em seus entes queridos. Ele considera isso deplorável, pois a vida deixa de ter várias dimensões, como a do Risco, do Acaso.

Assim, nas palavras de Maurice Blanchot, a mais poética das verdades vem à tona para nos ajudar e fazer pensar na nossa necessária transformação como espécie a partir deste grande abalo: “Hoje, quando os deuses faltam, nós nos desviamos da presença passageira para nos afirmar num universo construído à medida de nosso saber, achando-nos livres deste acaso que nos dá sempre medo porque ele esconde a obscura decisão...No entanto, nesta vitória (sobre a tecnologia) existe uma derrota; nesta verdade (de que somos poderosos), existe uma mentira; e nessa esperança que nos concede apenas um além ilusório ou um futuro sem morte, ou uma lógica sem acaso, existe a traição de uma esperança mais profunda que a poesia deve nos ensinar a reafirmar”. Que esperança mais profunda seria essa? Trabalho de quarentena...

Estamos caminhando sob o impensável há dois meses. Mergulhados numa espera imponderável que impede que nos contaminemos de vida, afastando-nos da maioria de nossos entes queridos, da cidade e de nossos hábitos prazerosos e trabalhos, isso se tivermos alguma racionalidade para respeitar e aprender com a experiência catastrófica em curso dos outros países, mais ou menos tardiamente implantada no Brasil. E pensarmos sobre a atual situação nas comunidades e nos presídios onde se amontoam seres humanos como nós. Elas fazem parte da nossa perversão ordinária, do dia a dia, sobre as mazelas das quais sabemos, mas que fazemos de conta que não existem.

Nessa espera sem nenhuma garantia de que nos sentiremos cuidados na hora h, sem previsão de vacina e remédios testados contra o vírus da Covid19, no isolamento dos que podem fazê-lo, na espera humilhada pela falta de liderança digna no mais alto cargo do país, homem que tropeça o tempo todo, intelectualmente, eticamente, como ser falante, recusando a realidade, desautorizando a verdade da experiência de outros países, e do seu próprio Ministério da Saúde, vemos estabelecido com muito medo um laço perverso entre o governo e a população, com as instituições democráticas que não tem tido tréguas, com o Ministério da Saúde que tenta fazer milagres diariamente apesar das contrariedades trazidas pelo presidente que boicota seu trabalho, para não falar de nossos heróis na linha do front dos hospitais e nos postos de saúde, que aceitam se contaminar e morrer pelo outro.

A expressão “Navigare necesse est, vivere non est necesse” foi criada pelo general romano Pompeu, no século 1 a.C, com intuito de incitar os marinheiros amedrontados a navegar da Sicília para Roma levando provisões diante da terrível tempestade que sobrevinha.

Corria o século XIV e o poeta italiano Petrarca transformou a expressão, mudando de “é necessário” para “é preciso”, pois navegar é uma arte precisa, com instrumentos, saberes, disciplina e muita responsabilidade.

A eliminação da morte da vida dos explorados foi apontada por Freud em “Nossa atitude diante da morte” (em “Atualidades sobre a guerra e a morte”, 1915), no lema “Navegar é preciso, viver não é preciso”, adotado pela Liga Hanseática, uma aliança comercial entre cidades alemãs ou de influência alemã na Idade Média, que explorava a vida sem morte dos marinheiros empregados nas rotas comerciais que ligavam o norte da Europa e os países bálticos visando apenas o lucro dos mercadores.

Já Fernando Pessoa tomou para sua vida o espírito deste verso afirmando assim a transitoriedade como valor a serviço da criação. Assim, criar para o poeta é mais importante do que viver. Caetano Veloso, em Os argonautas, ao abraçar o verso como refrão, nos deixa pensar na atualidade, todos neste mesmo barco que nos leva aleatoriamente a um porto de silencio e morte.

Consumir é preciso, viver não é preciso! Diz Bolsonaro, o Poeta Oficial do Planalto, quando manda o povo trabalhar e sair de casa, expondo-se ao vírus e aumentando o contágio, contrariamente ao que a OMS e seu próprio Ministério da Saúde elegeram como posição fundamental frente à pandemia. Segundo ele, apesar da gravidade da pandemia, o negócio é fazer a economia circular - seu fetiche, seu falo imaginário.

O chefe do executivo perdeu a cabeça de vez, o pudor, a legitimidade ao continuar a nos incitar de forma perversa a navegar a todo custo nas águas turbulentas do mercado, que despenca mundialmente. A covid-19 já matou 64.549 pessoas no mundo, fez até agora 1.196.553 infectados e teve felizmente 246.108 recuperados em 3/4/2020, às 20h10min, segundo o site de Casos Globais de Covid-19 do Centro de Sistemas Científicos e Engenharia da Johns Hopkins University/EUA.

O “Brasil não pode parar” foi a palavra de ordem que Bolsonaro roubou da Itália. O Governo de direita italiano infelizmente desmentiu a gravidade do que acontecia na China, sabendo que era verdade, mas agindo como se não fosse, e não praticou a política de isolamento desde o início, o que pode ter sido responsável pela rápida subida da curva de infectados e mortos. O que fez Bolsonaro? Apenas banalizou, chamando de gripezinha seu mal-estar visível há dias? Ou desmentiu a experiência de sofrimento, morte e desamparo de outros países criando este laço perverso com a população brasileira? Ele desautorizou nada menos do que o real, que emergiu com suas forças primordiais - o Perigo, o Pavor e a Morte – trazidas pelo vírus!

Simbolicamente, através de pronunciamentos, ao mesmo tempo fortes e fraternos, estadistas como Angela Merckel e o Papa Francisco tentam convencer seu povo e o mundo, órfão de estadistas que valham o nome, a fazer o isolamento e a serem solidários. Em “Psicologia das massas e análise do eu”, Freud afirma que a miséria psicológica dos povos se instala como preço a pagar pela renúncia à satisfação das pulsões agressivas (de morte) e de auto-conservação/sexuais (de vida). Ou seja, pagamos um preço por estarmos inscritos no processo civilizatório. E que esta miséria psicológica é muito maior quando o lugar do Líder ou do Chefe se encontra vazio. Os laços com o Líder não podem mais se fazer por identificação, não podendo igualmente manterem-se os laços dos indivíduos que constituem a massa ou multidão. A ameaça de pânico é total.

Mas volto ao verso, ao mote. Viver é preciso? Sim, no sentido da precisão, que acontece quando integramos a ideia da morte à vida, o que nos permitirá dimensionar escolhas, estabelecer posicionamentos, agindo eticamente, persistir se for o caso em algum caminho escolhido. Freudianamente, a vida é precisa se admitirmos viver o processo da castração que nos ameaça volta e meia com perdas, angústias, doenças, desamparo, com o sofrimento causado pelo outro como elementos constitutivos do humano. Este mesmo outro com quem teremos de nos defrontar para nos reestruturarmos e fazermos m novo pacto mais humanitário.

Em outras palavras, viver é preciso se pudermos recuperar a visão trágica do mundo, de desapossamento das formas de poder, em que o outro é sempre radicalmente outro, da compreensão da finitude o que nos dá um futuro de verdade (um futuro com morte), e que nos é trazida por vários pensadores trágicos como Freud, Nietzsche, Sófocles, entre outros. E assim escolhermos não persistir no caminho da alienação do consumismo, como súditos do biopoder que é o mesmo que dizer sociedade neoliberal na qual o poder sobre a vida se estende cada vez mais sobre a vida da espécie, com mecanismos sutis, infiltrantes e de aparência democrática. Mas é Sociedade de Controle, que controla a vida pela economia, elegendo as populações descartáveis historicamente, seja sob o racismo de Estado brasileiro, atingindo a população negra e pobre, seja pela escolha vertical dos grupos de risco na pandemia, estigmatizando os idosos como dispensáveis, não mais produtivos, morríveis.

Aliás, a conquista da hegemonia pelos Estados não deverá mais satisfazer o parâmetro econômico a partir desta pandemia. Deverá ter como critério o grau de desenvolvimento dos respectivos sistemas de saúde públicos e a capacidade dos governos de proverem saúde e bem-estar aos seus cidadãos. Em “O Mal-estar na Cultura” (1929), Freud afirma que “reconhecemos o elevado nível cultural de um país quando comprovamos que nele se realiza com eficácia a proteção do próprio homem contra as forças elementares.”

Rio de Janeiro, 3 de abril de 2020

Glaucia Dunley

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