Sociedade e Cultura

''Nossa democracia não sabe mais debater de maneira razoável''

Além da responsabilidade da mídia, a "crise da relação ao real" paralisa o debate político, avalia Chloé Morin, do instituto Ipsos

15/10/2018 09:37

(CC/Wikimedia Commons/Baptiste ROUSSEL/Montage Obs)

Créditos da foto: (CC/Wikimedia Commons/Baptiste ROUSSEL/Montage Obs)

 
Diretora de projetos internacionais no Instituto Ipsos, Chloé Morin foi encarregada de [relações com a] opinião pública em Matignon [residência oficial dos primeiros ministros da França] nos gabinetes de Jean-Marc Ayrault e Manuel Valls .

Uma discussão no tablado de um talk show [em 12/09/2018] que degenera, Eric [Zemmour] repreendendo Hapsatou [Sy] por não se chamar Corinne [querendo dizer que seu nome era um insulto à França]. Amigos de ontem que cresceram, militaram e governaram juntos e se envolveram em uma luta mortal entre "esquerdas irreconciliáveis". Reformas unanimemente consideradas indispensáveis %u20B%u20Bpor especialistas e governantes - incluindo reformas no sistema prisional para evitar a reincidência e promover a reintegração de prisioneiros - mas indefinidamente adiadas por medo de parecerem de pouco apelo popular ou pior tratadas com desleixo. Promessas de campanha sepultadas porque o que parecia ser consenso ontem tornou-se repentinamente inflamável ... A observação do mundo político-midiático muitas vezes dá a sensação de que nossa democracia não sabe mais debater de maneira razoável, apaziguada, e produzir senão consenso pelo menos compromissos temporários.

Essa paralisia, sem dúvida, se deve em parte ao funcionamento do mundo político e do sistema de mídia. Por um lado, a dinâmica eleitoral é construída por natureza na afirmação de diferenças substantivas - mesmo que, com muita frequência, se alimente de discordâncias pessoais disfarçadas de divergências ideológicas. Por outro lado, o sistema de mídia - e as redes sociais amplificam esse fenômeno - funciona como uma gigantesca centrífuga, que revela apenas o que contrasta, separa, ou conflita. O razoável é acusado de "ser água morna", o provocador, ao contrário, é visto como corajoso. Aquele que reúne [outros] não tem rumo, enquanto aquele que divide gera indignação ou associação, retweets e classificações.

Como mudar sem concordar com o "real"?

Mas seria muito fácil reduzir nossa incapacidade de discutir certos assuntos essenciais a um problema midiático-político. Muitas vezes, as elites - que seriam por natureza corruptas animadas apenas pela busca da ambição pessoal, desconectadas dos problemas "do povo", ou simplesmente em busca de negócios e receitas de publicidade correspondentes - nos servem de bode expiatório fácil para ocultar outros problemas ou nossa própria responsabilidade cidadã na degradação da qualidade do debate. Os populismos criticam a perversão das elites, mas o dégagisme (fora todos) que defendem consiste precisamente em substituir as elites no poder por novas, sem fornecer qualquer garantia sobre a sua capacidade de se comportar de forma diferente daquelas que foram desalojadas.

Entre os elementos que parecem impossibilitar o debate, mas são muito raramente mencionados, encontramos, por um lado, a crise da relação com o real e, por outro lado, a crise de nossa relação com a política, cuja rejeição das elites não é senão um sintoma. Como debater quando nem sequer concordamos com o "real"? Como trocar argumentos quando mais e mais pessoas mostram total indiferença em relação à ciência e às instituições detentoras de autoridade? Como pensar o mundo e definir um "projeto de sociedade", quando não concordamos com o que vivemos?

Os estudos da Ipsos em dezenas de países mostram que temos a tendência sistemática a exagerar ou subestimar os principais fenômenos sociais e econômicos. Assim, nós franceses superestimamos em 28 pontos a proporção de pessoas nascidas no exterior e residentes em nosso solo (49% contra 21,7%). Da mesma forma, acreditamos que a insegurança aumentou na última década, quando as realidades estatísticas desmentem essas percepções. Em muitas áreas, como podemos construir consenso sobre soluções, quando não somos capazes de concordar com a natureza e a extensão dos problemas?

Nós oscilamos entre indiferença e paixão

A isso se adiciona a crise de nosso relacionamento com a política. A política nos fascina, mas a política nos perturba. Des-ideologização, desfiliação partidária, estudos mostram que temos uma relação cada vez mais consumista com a política. Mas o consumidor tem apenas direitos, enquanto o cidadão tem também deveres. O primeiro zap e [a gente] retira a inscrição em um clique, o que resulta na extrema volatilidade das pesquisas constatada nas primárias e no última [eleição] presidencial. O acúmulo de nossas decepções se traduz em uma desvinculação partidária e eleitoral crescentes - o que não nos impede de superinvestir cada eleição presidencial de esperanças ilusórias - das quais apenas os sujeitos com forte dimensão emocional vem ainda nos retirar.

Por um lado, os assuntos técnicos e complexos - reforma do direito trabalhista, debates orçamentários - são recebidos por muitos com indiferença ou resignação, enquanto envolvem simultaneamente mudanças fundamentais. O desinteresse permite aqui uma forma de consenso que não é senão aparente e temporária. Por outro lado, alguns assuntos - por exemplo, a situação nos Ehpad [sigla para estabelecimento de alojamento para pessoas idosas dependentes] , a recepção dos refugiados, as políticas de saúde - são abordados espontaneamente sob um prisma emocional e provocam discussões acaloradas que tornam qualquer debate impossível. Como resultado, oscilamos entre a indiferença e a paixão, o laissez-faire e a indignação, mas raramente somos - em todo caso, a nível nacional, o perímetro da democracia - capazes de reunir ideias, vontades e projetos.

Por estas razões, para aqueles que desejam sair da paralisia em que o debate político atual se atola, seria muito inspirador questionar a maneira pela qual nossas percepções coletivas e nossa relação com a política são forjadas, ao invés de nos entrincheirarmos somente na crítica - aliás necessária e salutar - de políticas e mídia.

*Publicado originalmente em nouvelobs.com | Tradução de Aluisio Schumacher

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