Sociedade e Cultura

''Se não mudarmos nosso estilo de vida, seremos vítimas de monstros ainda mais violentos que este coronavírus''

Jean-François Guégan, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisa em Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente (Inrae), na França, investiga as relações entre saúde e meio ambiente e afirma que a epidemia atual nos obriga a repensar nossa relação com a natureza

22/04/2020 19:05

O pesquisador Jean-François Guégan (Yann Legendre)

Créditos da foto: O pesquisador Jean-François Guégan (Yann Legendre)

 
Ex-membro do Alto Conselho de Saúde Pública francês (HCSP), Jean-François Guégan fazia parte do comitê de especialistas que assessorou a então ministra da saúde Roselyne Bachelot durante a epidemia de influenza A (H1N1), em 2009. Diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisa em Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente (Inrae) e professor da Escola de Altos Estudos em Saúde Pública (École des hautes études en santé publique), ele acredita que a epidemia de Covid-19 nos obrigará a repensar nossa relação com os sistemas naturais, uma vez que o surgimento de novas doenças infecciosas está intimamente ligado ao impacto das sociedades humanas sobre o meio ambiente e a biodiversidade.

O senhor estava entre os especialistas que aconselharam a compra de um grande número de máscaras e vacinas durante a pandemia de H1N1. Como analisa a situação na França, dez anos depois?

Como muitos de meus colegas, fiquei muito surpreso com a falta de preparação da França para a epidemia de Covid-19. Estava clara, no entanto, com base nas experiências passadas, a necessidade de se prevenir e se preparar para as pandemias. No HCSP, havíamos recomendado a compra das famosas vacinas, mas também a criação de uma reserva de quase um bilhão de máscaras, para proteger a população francesa em caso de grande risco, a ser renovada regularmente, porque elas têm um prazo de validade curto. Conseguimos sensibilizar os responsáveis de vários ministérios sobre a necessidade dessa precaução. Pensei que estávamos preparados. No Ministério da Saúde, Xavier Bertrand renovou a compra das máscaras, mas depois houve uma mudança de estratégia. Parece que a econometria prevaleceu sobre a saúde pública.

Como explicar essa dificuldade em cultivar uma abordagem preventiva no longo prazo?

Os departamentos dedicados a doenças infecciosas perderam investimentos nos últimos anos porque muitos, incluindo a comunidade médica, acreditavam que essas doenças já haviam sido derrotadas. E é verdade que o número de mortes causadas por elas diminuiu nos países desenvolvidos. Por outro lado, essas doenças ainda são responsáveis por mais de 40% das mortes nos países mais pobres, e também se observa um aumento na frequência de epidemias nos últimos trinta anos.

Há quinze anos, alertamos sobre um importante ressurgimento dessas doenças, sem sucesso. Vimos o financiamento à medicina tropical desabar, conhecimentos serem perdidos, por não serem mais ensinados, sobrevivendo apenas entre os médicos do exército, nos serviços de infectologia e nas grandes ONGs humanitárias.

Qual é o lugar da saúde pública na cultura médica na França?

A medicina na França sempre privilegiou a abordagem curativa. Deixamos o fogo se espalhar e tentamos apagá-lo através de vacinas. De fato, existe hoje uma hierarquia entre as diferentes disciplinas: algumas são consideradas mais importantes, por serem personalizadas, tecnológicas, curativas. É o caso, por exemplo, da medicina nuclear ou da cardiologia. Outras são negligenciadas, como a saúde pública e a infectologia, disciplinas que fazem trabalho de campo, que exigem conhecimento das populações.

O que se sabe hoje sobre as interações entre meio ambiente e saúde e, em particular, o papel da biodiversidade no surgimento de novas epidemias?

Desde o princípio de nossa civilização, a origem dos agentes infecciosos não variou. Os primeiros contágios apareceram no Neolítico, por volta de 10.000 a 8.000 a.C., na baixa Mesopotâmia – hoje Iraque – quando foram construídas cidades, as maiores delas chegando a vinte mil habitantes. Assim, oferecemos novos habitats a animais comensais do homem, como artrópodes, moscas, baratas e ratos, espécies que compartilham a comida do homem e que podem lhe transmitir agentes patogênicos.

Para alimentar os habitantes das cidades, também foi preciso desenvolver a agricultura e a criação de animais, capturando animais silvestres, criando assim condições de proximidade para o salto para humanos de vírus e bactérias presentes nesses animais ou abrigados nos solos ou nas plantas e seus sistemas radiculares. As bactérias responsáveis pelo tétano, pela tuberculose ou pela hanseníase são originárias do solo.

O desmatamento é apontado como causa do aumento do número de doenças infecciosas emergentes nos últimos anos. De que maneira?

A prática do desmatamento vem amplificando o fenômeno há cinquenta anos, principalmente nas zonas intertropicais, no Brasil, na Indonésia ou na África central para o plantio de dendezeiros ou de soja. Ela põe os seres humanos em contato direto com sistemas naturais até então inacessíveis, ricos em agentes microbianos.

Por exemplo, o vírus da AIDS mais comum, o HIV-1, deriva de um retrovírus naturalmente presente no chimpanzé na África Central. O vírus Nipah, responsável por encefalites na Malásia, em 1998, tem como hospedeiro natural um morcego frugívoro que vive nas florestas da Indonésia. O desmatamento nessa região levou-o a se deslocar para a Malásia, e depois Bangladesh, onde os morcegos se aproximaram dos pomares dos vilarejos para se alimentar. Os porcos agiram como reatores e contribuíram para a disseminação do vírus.

Não há dúvida de que, ao destruir as florestas primárias, estamos desalojando poderosos monstros, ou abrindo uma caixa de Pandora que sempre esteve ali, mas que hoje libera um volumoso fluido de microrganismos.

Nos últimos trinta anos, a urbanização se espalhou pelas regiões intertropicais. Que papel ela desempenha nessa transmissão?

Nessas regiões, cerca de vinte cidades têm hoje mais de sete milhões de habitantes, que acumulam muita riqueza e extrema pobreza, com uma população muito suscetível a infecções. O cenário do neolítico se reproduz, mas de forma amplificada pela biodiversidade tropical.

A agricultura ali praticada, em áreas periurbanas, favorece o surgimento de criadouros de microrganismos presentes na água, como as bactérias responsáveis pela cólera, ou os mosquitos vetores da malária. Fazendas de frango ou porco, por exemplo, são adjacentes a grandes extensões de floresta tropical. Basta fazer uma cartografia de Manaus ou Bangkok para visualizar como essas práticas favorecem as pontes entre mundos até então bem separados.

Pode-se dizer que a pandemia do Covid-19 está ligada a fenômenos semelhantes?

As origens do vírus ainda são discutidas, devemos ser prudentes. Os cientistas, no entanto, concordam que houve uma transmissão de um animal para o homem. Em sua composição molecular, o coronavírus responsável pelo Covid-19 se assemelha, em parte, a um vírus encontrado em morcegos do grupo dos morcegos-de-ferradura e em parte a um vírus que circula em uma espécie de pangolim do sudeste asiático.

Se o coronavírus tiver sido transmitido pelo morcego, é possível que o desmatamento intensivo seja a causa. Se o cenário de pangolim for confirmado, a causa será a exploração ilegal de recursos florestais ameaçados. Na China, o pangolim é uma iguaria, e suas escamas e ossos também são usados para a farmacopeia. O acentuado declínio nos rinocerontes na África pode ter tido também um papel, com o interesse crescente sobre o pangolim uma vez que a importação de chifres de rinoceronte para a China se tornou mais difícil.

Alguns ficaram tentados a destruir os animais suspeitos de serem os reservatórios do vírus.

Essa não é uma hipótese realista nem desejável. Aliás, gostaríamos realmente de viver neste mundo? Historicamente, as epidemias sempre criaram bodes expiatórios. Os morcegos também são acusados de ser os reservatórios do Ebola – uma teoria que ainda não foi comprovada – e são, no imaginário, frequentemente associados a uma representação diabólica. Esquecemos que são animais extremamente úteis para a polinização de muitas plantas ou como predadores de insetos.

Também não devemos esquecer que a vida na Terra está organizada em torno de microrganismos. Essa biodiversidade é essencial nos seres humanos, por exemplo, para o desenvolvimento da microbiota intestinal, o conjunto de bactérias existentes em nosso sistema digestivo, que determina, nos primeiros anos de vida, nosso sistema imunológico.

Pode-se estabelecer uma ligação direta entre o aumento do número de epidemias e a crise climática?

Este é um parâmetro sobre o qual nos faltam argumentos. As crises ambientais, como um todo, provocam fenômenos não lineares, em cascata, sucessões de eventos que não podem ser apreendidos pela via experimental. Podemos realizar experimentos em mesocosmos, ou seja, em locais confinados, onde variamos os parâmetros – solo, umidade, temperatura. Mas outras variáveis, como a pobreza, a nutrição ou o deslocamento de pessoas, não são consideradas por esses estudos, embora possam desempenhar um papel muito importante na transmissão de infecções. De qualquer forma, as mudanças climáticas exacerbarão as situações já existentes.

Então, para entender as epidemias, seria indispensável uma abordagem multidisciplinar?

A abordagem cartesiana para demonstrar relações de causa e efeito não é adequada para essas novas ameaças. Todas as questões planetárias exigem o desenvolvimento de pesquisas integrativas e transversais, levando-se em conta as ciências humanas, a antropologia, a sociologia, a ciência política, a economia etc.

É possível desenvolver análises de cenários, bem como análises estatísticas. No entanto, essas abordagens são muitas vezes desconsideradas em benefício das ciências experimentais. Do ponto de vista epistemológico, é hora de acabar com essa distinção entre ciências maiores e as menores, para reconstruir um pensamento científico adaptado aos novos desafios. Isso exige que cada disciplina escute as outras. Mas não é nada fácil.

É preciso considerar que o risco de pandemia se torne permanente?

Estamos na era das sindemias (de "syn", que significa "com"), ou seja, de epidemias que atravessam barreiras entre espécies e circulam em humanos, animais ou plantas. Mesmo com diferentes etiologias (vírus de famílias diferentes, por exemplo), quase todas têm as mesmas causas principais.

Essa epidemia é terrível, mas amanhã outras podem ser muito mais letais. É um sinal de alerta, e pode ser uma oportunidade se soubermos reagir. Por outro lado, se não mudarmos nosso estilo de vida e nossas organizações, passaremos por novos episódios, com monstros muito mais violentos que este coronavírus.

Como se proteger?

Não resolveremos o problema sem tratar a causa, ou seja, as perturbações nos ambientes naturais e na biodiversidade causadas pelo mundo globalizado. Lançamos um bumerangue que, na volta, está nos atingindo bem na cara. Precisamos repensar a forma como vivemos nos territórios, como concebemos as cidades, como produzimos e comercializamos os bens vitais.

O homem é um ser onívoro que se transformou em superpredador, degradando, a cada ano, o equivalente à metade da União Europeia de terras cultiváveis. Para combater as epidemias, as mudanças necessárias são civilizacionais.

Como no simbolismo do yin e yang, devemos aceitar a dualidade do que nos rodeia. Precisamos repensar completamente nossa relação com o mundo natural, com os ecossistemas e sua biodiversidade, ao mesmo tempo garantidores dos grandes equilíbrios e fonte de numerosos perigos. A bola não está mais no campo dos pesquisadores, que lançam alertas há vinte anos, mas no dos políticos.

*Publicado originalmente em 'Le Monde' | Tradução de Clarisse Meireles



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