Sociedade e Cultura

''Temos os mesmos valores'': os rappers brasileiros que apoiam Bolsonaro

O hip-hop do país é tipicamente progressista, mas MCs com bonés com o slogan de Trump garantem a trilha sonora da presidência de extrema-direita

19/06/2019 11:43

Ricardo Alves:

Créditos da foto: Ricardo Alves: "Eu me defino como um conservador" (Andre Lucas/The Guardian)

 
O mantra Trumpiano em seu boné "Make America Great Again" deixa poucas dúvidas de que Ricardo Alves encontra-se à direita do MC brasileiro médio.

"Eu me defino como um conservador", confirma o músico ao descrever sua trajetória, de uma infância dura no sul de São Paulo até o centro da cena do rap de direita no Brasil.

O hip-hop brasileiro é um movimento historicamente associado à esquerda.

No ano passado, grandes nomes do rap brasileiro lançaram uma última tentativa de evitar a eleição do presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro, com um manifesto que o denunciava como um candidato autoritário que ameaçava as comunidades pobres, negras e LGBT do Brasil. "Ele não está do seu lado, não está do meu lado, não está do nosso lado", declarou o rapper carioca BNegão na época.

Mas, no momento em que maior democracia da América Latina entra em uma nova era conservadora, são os rappers de direita, como Alves, que estão ditando a trilha sonora.

“Ser progressista é o mainstream… Somos antissistema”, proclama Alves, metade da dupla Mensageiros da Profecia.

Muitos dos rappers de direita do Brasil são torcedores assumidos do bolsonarismo.

Suas gravações trazem trechos dos discursos incendiários de seu presidente, letras exaltando os generais e torturadores da era da ditadura, como Carlos Alberto Brilhante Ustra, e aclamando o guru de Bolsonaro, Olavo de Carvalho.

Luiz, O Visitante – um MC de Recife considerado o padrinho do movimento – tem uma faixa chamada Meu Filho vai ser bolsonarista em que um futuro pai ataca o Partido dos Trabalhadores (PT) e sonha com um futuro de extrema direita para seu filho.

“Quando meu filho nascer vai seguir os passos do pai. Suas primeiras palavras: O petismo, nunca mais...", ele canta.

“Ele vai se vestir como Ustra e ser fã de Bolsonaro. Quando ele está na escola com seus amigos, ele será um filho da puta opressivo.

“Vai usar roupa do Ustra e ser fã do Bolsonaro. Na escola com os amigos vai oprimir pra caralho”

O rapper PapaMike, de Belo Horizonte, é outro bolsonarista convicto, com canções como “Uma carta para Bolsonaro”, em que ridiculariza os oponentes do presidente, chamando-os de “cheiradores, viciados maconheiros” e descreve Bolsonaro como um salvador com um fuzil.

Outros MCs conservadores criticam jornalistas e políticos “esquerdistas” empenhados em transformar o Brasil num regime comunista, e defendem causas caras a Bolsonaro, como o estreitamento dos laços entre Brasil e Israel e a ditadura de 1964-1985.

Alves, 30 anos, um jovem pensativo e de fala suave, é mais cauteloso quanto ao novo líder do Brasil, rejeitando o selo bolsonarista, apesar de ter votado nele nos dois turnos da eleição do ano passado.

“Não sinto nenhuma simpatia especial por Bolsonaro. Não gosto dele”, explicou o rapper durante uma entrevista no estúdio do grupo, no Jardim Capelinha, comunidade de baixa renda no sul de São Paulo.

Os primos Felipe Araújo (à esquerda) e Ricardo Alves formam a dupla de rap de direita 'Mensageiros da Profecia' (Andre Lucas/TheGuardian)

"Eu me sentaria para tomar uma cerveja com [o ex-presidente] Lula e não faria isso com Bolsonaro. Mas ele carrega muitos dos valores em que acredito”.

Esses valores incluem ser anti-aborto, pró-polícia, pró-Deus e pró-armas – crenças que, segundo o rapper evangélico, definem hoje a periferia urbana onde cresceu.

Alves atribuiu seu apoio “inquestionável” ao direito de portar armas de autodefesa aos cadáveres crivados de balas que viu perto da casa de sua infância, numa área então conhecida como “triângulo da morte”.

“Os esquerdistas da Vila Madalena não entendem isso. Eles nunca viram um corpo jogado no chão. Se já viram um caixão, foi quando o cachorro deles morreu – ou o avô deles, de velhice".

Alves – cujo grupo lançou um hino de direita chamado Rap de Direita para comemorar a vitória de Bolsonaro – disse que, ao contrário de muitos observadores, ele previu o resultado.

Ele acredita que a esquerda brasileira estava obcecada por "questões secundárias", como banheiros transgênero, em vez de temas que preocupavam a maioria dos eleitores, como criminalidade e saúde.

"Ele é extremamente grosseiro e tudo isso", diz Alves sobre Bolsonaro. “Mas ele se comunicou com o clamor do povo. Enquanto os [outros] rappers falavam sobre a violência policial, a principal preocupação do habitante de favela médio não era a violência policial. Na verdade, ele queria mais policiais nas ruas... para ninguém roubar o celular dele”.

A dupla 'Mensageiros da Profecia' lançou um hino chamado 'Rap de Direita' para celebrar a vitória de Bolsonaro (Andre Lucas/The Guardian)

Por tudo isso, Alves e seu parceiro de dança, Felipe Araújo, admitiram-se preocupados com o estilo de liderança errático de Bolsonaro, incomodados pelo radicalismo de alguns apoiadores, mas indiferentes ao comportamento brigão do presidente nas redes sociais.

"Eu estava vendo o Bolsonaro na TV recentemente... e eu disse: 'Cara, nós elegemos um meme'", acrescentou Alves. "Mas era o que tinha, sabe?"

Araújo, de 31 anos, disse que não tinha certeza de como seria a guinada à direita do Brasil, mas prometeu fazer crônicas sobre a presidência Bolsonaro – com todos os seus defeitos – em suas canções.

“Vamos retratar qualquer besteira que ele fizer na nossa música. Vamos desafiá-lo. Esse é nosso papel como rappers”, disse.

Apesar da virada conservadora do Brasil, os músicos disseram que o rap de direita continua sendo um nicho de mercado, uma fatia minúscula do movimento hip-hop, ainda em grande parte hostil a Bolsonaro.

"É algo como 1%", admite Alves, que planeja um novo álbum narrando a nova era política do Brasil chamado "O Guia Politicamente Incorreto do Hip-Hop".

Mas Alves – cujo boné "Make America Great Again" foi um presente de membros do MBL – suspeita que muitos rappers brasileiros sejam conservadores no armário.

"Eles têm medo da mídia – de serem atacados ", afirmou. "Porque ser de direita – não é cool, sabe?"

*Publicado originamlente em theguardian.com | Tradução de Clarisse Meireles

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