Sociedade e Cultura

A Cadeia dos Lutos

 

06/07/2020 12:45

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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Uma das dificuldades que a pesquisa clínica em psicanálise ou psicologia deriva do fato de que as categorias que elegemos para descrever um fenômeno interfere prescritivamente sobre o próprio fenômeno. Deriva disso que a forma como falamos, lembramos ou sentimos as pessoas determina o conteúdo que estamos querendo apreender nelas, transformando, indiretamente, nós mesmos. Isso é particularmente evidente quando examinamos o processo de luto. A psicanalista Elisabeth Klüber-Ross descreveu com precisão a sequência de reações pelas quais passamos, regularmente, quando perdemos alguém: primeiro ocorre a negação do que vai acontecer ou já aconteceu. Depois experimentamos raiva como efeito de nossa impotência diante da situação. Em terceiro lugar sobrevém a negociação, pela qual barganhamos com o destino, com a razão ou com Deus sobre o que aconteceu ou está para acontecer. Podemos prometer nos tornarmos uma pessoa melhor, juramos mudar de vida, ou perdoamos ou nos reconciliamos com nossas pendências e rancores subjetivos. A quarta fase é a depressão. Aqui assumimos que a perda aconteceu, que ela nos tornou mais pobres e que devemos, ao final nos resignar diante de forças maiores que governam nossa vida e nossa morte. A quinta e última fase do luto, a mais difícil de prever ou de induzir, é a aceitação.

A forma como falamos de nossa perda determina sua natureza e seu andamento, mostrando como estamos em relação ao mundo, ao outro e a nós mesmos. A negação incide sobre a realidade das coisas. A raiva é circuito de afetos dominantes em torno da suposição de que tínhamos mais poder do que realmente temos. A negociação exprime nossa atitude intersubjetiva, ou seja, nossa conversa com o outro que “causou” está má nova. Notemos a depressão, neste caso, não é apresentada como uma patologia, mas como um momento necessário do processo de luto. Durante a depressão gerada pelo luto estamos elaborando o fato de que nosso amor pelo outro não foi suficiente para salvá-lo, que o outro nos deixou e não nos foi suficientemente fiel. Isso pode nos levar de volta à fase da raiva ou da negação. Isso pode transformar o luto em uma conversa infinita. Este é um dos modelos psicopatológicos desenvolvido por Freud: depressões clínicas são lutos que não terminam, que se fixam ou que não podem começar.

Isso acontece, frequentemente, porque aquela perda, para ser elaborada ligar-se com perdas anteriores. Cria-se assim uma espécie de experiência generalizada do luto. Cada perda remete a uma perda anterior formando uma cadeia. Isso não se restringe a morte de pessoas, mas envolve perda de amores e ideais, perda de estados de corpo ou de formas de vida, perda de empregos, de animais queridos, de casas e lugares e de momentos felizes. Essa cadeia de lutos adquire assim uma dimensão social surpreendente. Nossas perdas se infiltram e se coligam com as perdas alheias, fazendo com que sua realização deixe de ser um trabalho individual e demande expressão coletiva. Perdas coletivas, como a que experimentamos em no contexto da epidemia de Covi, assim como perdas individuais, como a que sentimos em relação ao neto de Lula, ou perdas anônimas dos que hoje morrem sob a violência impune, não são só um assunto político, motivo de raiva, negação ou de culpa, mas de esforço e convite a que nos reconheçamos nas séries sociais de luto que nos formam e nos determinam.

Quando não conseguimos fazer isso, negando ou sentido raiva diante da perda do outro, podemos estar certos de que a depressão se avizinha.



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