Sociedade e Cultura

A Covid-19 matou a globalização?

O fluxo de pessoas, comércio e capital será mais lento

17/05/2020 14:14

 

 
Mesmo antes da pandemia, a globalização estava com problemas. O sistema aberto de comércio que dominou a economia mundial por décadas já tinha sido danificado pelo colapso financeiro e pela guerra comercial sino-americana. Agora, está sofrendo com seu terceiro golpe, em uma dúzia de anos, já que os bloqueios selaram as fronteiras e interromperam o comércio. O número de passageiros em Heathrow caiu 97%, em comparação com o ano anterior; as exportações mexicanas de carros caíram 90% em abril; 21% das viagens transpacíficas de contêineres em maio foram canceladas. À medida que as economias reabrem, a atividade se recuperará, mas não espere um retorno rápido a um mundo despreocupado de livre movimentação e livre comércio. A pandemia politizará as viagens e as migrações e criará um viés para a autossuficiência. Essa mudança de foco para dentro das fronteiras enfraquecerá a recuperação, deixará a economia vulnerável e espalhará a instabilidade geopolítica.

O mundo teve várias épocas de integração, mas o sistema comercial que surgiu nos anos 1990 foi além. A China se tornou a fábrica do mundo e as fronteiras foram abertas a pessoas, bens, capital e informação. Após o colapso do Lehman Brothers em 2008, a maioria dos bancos e algumas empresas multinacionais recuaram. O comércio e o investimento estrangeiro estagnaram em relação ao PIB, um processo que esta revista chamou de “lentalização” (“slowbalisation”). Depois vieram as guerras comerciais do presidente Donald Trump, que misturaram preocupações com empregos de chão de fábrica e o capitalismo autocrático da China com uma agenda mais ampla de chauvinismo e desprezo por alianças. No momento em que o vírus começou a se espalhar em Wuhan, no ano passado, a tarifa de importação dos EUA tinha voltado ao seu nível mais alto desde 1993 e os EUA e a China começaram a desacoplar suas indústrias de tecnologia.

Desde janeiro, uma nova onda de disrupções tem se espalhado para o oeste a partir da Ásia. O fechamento de fábricas, lojas e escritórios causou queda na demanda e impediu que os fornecedores chegassem aos clientes. O dano não é universal. Os alimentos ainda estão chegando, a Apple insiste que ainda pode fabricar iPhones e as exportações da China se mantiveram até agora, impulsionadas pelas vendas de equipamentos médicos. Mas o efeito geral é selvagem. O comércio mundial de mercadorias pode encolher de 10 a 30% este ano. Nos primeiros dez dias de maio, as exportações da Coreia do Sul, uma potência comercial, caíram 46% em relação ao ano anterior, provavelmente o pior declínio desde que os registros começaram em 1967.

A anarquia subjacente da governança global está sendo exposta. A França e a Grã-Bretanha têm se estranhado por conta das regras de quarentena, a China está ameaçando a Austrália com tarifas punitivas pela demanda australiana por uma investigação sobre as origens do vírus e a Casa Branca permanece em pé de guerra no comércio. Apesar de alguns casos de cooperação durante a pandemia, como os empréstimos do Federal Reserve a outros bancos centrais, os Estados Unidos têm relutado em agir como líder mundial.

O caos e a divisão doméstica prejudicaram seu prestígio. O segredo e o bullying da China confirmaram que ela não está disposta – e é inadequada - a pegar o bastão. Em todo o mundo, a opinião pública está se afastando da globalização. As pessoas ficaram perturbadas ao descobrir que sua saúde depende de uma querela para importar equipamentos de proteção e dos trabalhadores migrantes que trabalham em casas de repouso e fazem as colheitas.

Este é apenas o começo. Embora o fluxo de informações seja amplamente livre fora da China, o movimento de pessoas, bens e capitais não é. Considere primeiro as pessoas. O governo Trump está propondo reduzir ainda mais a imigração, argumentando que os empregos deveriam ir para os norte-americanos. Outros países provavelmente seguirão. As viagens são restritas, limitando o escopo para encontrar trabalho, inspecionar plantas e angariar pedidos. Cerca de 90% das pessoas vivem em países com fronteiras amplamente fechadas. Muitos governos se abrirão apenas a países com protocolos de saúde semelhantes: uma dessas “bolhas de viagem” é discutida para incluir a Austrália e a Nova Zelândia e, talvez, Taiwan e Cingapura. A indústria está sinalizando que a interrupção das viagens será duradoura. A Airbus cortou a produção em um terço e a Emirates, um símbolo da globalização, não espera recuperação até 2022.

O comércio sofrerá à medida que os países abandonem a ideia de que empresas e bens sejam tratados igualmente, independentemente de onde eles venham. Governos e bancos centrais estão pedindo aos contribuintes para garantirem empresas nacionais por meio de seus pacotes de estímulo, criando um incentivo enorme e contínuo para favorecê-las. E o esforço para trazer as cadeias de suprimentos de volta para casa em nome da resiliência está se acelerando. Em 12 de maio, Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, disse à nação que uma nova era de autossuficiência econômica começou. O estímulo pela Covid-19 do Japão inclui subsídios para empresas que repatriem fábricas; autoridades da União Europeia falam de "autonomia estratégica" e estão criando um fundo para comprar participações em empresas. Os Estados Unidos estão pedindo à Intel que construa fábricas em casa. O comércio digital está prosperando, mas sua escala ainda é modesta. As vendas no exterior da Amazon, Apple, Facebook e Microsoft são equivalentes a apenas 1,3% das exportações mundiais.

O fluxo de capital também está sofrendo, à medida que o investimento a longo prazo afunda. O investimento chinês de capital de risco na América caiu para US$ 400 milhões no primeiro trimestre deste ano, 60% abaixo do seu nível há dois anos. As empresas multinacionais podem cortar seu investimento internacional em um terço este ano. Os Estados Unidos acabam de instruir seu principal fundo de pensão federal a parar de comprar ações chinesas e, até agora, neste ano, os países que representam 59% do PIB mundial restringiram suas regras de investimento estrangeiro. Enquanto os governos tentam financiar suas novas dívidas tributando empresas e investidores, alguns países podem ficar tentados a restringir ainda mais o fluxo de capital através das fronteiras.

É solitário lá fora

Não se deixe enganar que um sistema comercial com uma rede instável de controles nacionais será mais humana ou mais segura. Os países mais pobres encontrarão mais dificuldades em recuperar o atraso e, no mundo rico, a vida será mais cara e menos livre. A maneira de tornar as cadeias de suprimentos mais resistentes não é domesticá-las, o que concentra riscos e provoca perdas em economias de escala, mas diversificá-las. Além disso, um mundo fraturado tornará mais difícil a solução de problemas globais, incluindo encontrar uma vacina e garantir uma recuperação econômica.

Tragicamente, essa lógica não está mais na moda. Esses três golpes feriram em tal medida o sistema aberto de comércio que os poderosos argumentos a seu favor estão sendo negligenciados. Dê adeus à maior era da globalização - e preocupe-se com o que acontecerá.

*Publicado originalmente em 'The Economist' | Tradução de César Locatelli

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