Sociedade e Cultura

A angústia dos sábios I

 

19/07/2020 13:42

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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“No começo havia o Verbo”, mas antes do começo o que havia? É isto que é impenetrável, há um começo enigmático. Há um evangelho de São João, há também um outro que se chama Gênese e de que não é possível se falar sem que se junte ao Verbo. Na Escritura judaica vê-se a que serve o Verbo antes do começo: Deus deu um direito às pessoas, um pequeno, bem pequeno direito. Ensinou a Adão a nomear as coisas mas não lhe deu o Verbo. Esta é a medida humana. Os seres humanos não querem mais do que isso que as luzes sejam amenas. A luz em si é insuportável. Além disso nunca se falou de luz no século das Luzes, falou-se d”Aufklärung (esclarecer). Empunhe-se uma pequena lâmpada, isto já é muito, mais do que se pode suportar.

A psicanálise desde Freud traz o traço inconfundível de ser insustentável. Freud também estendia a condição de insustentabilidade ao ato de governar. E por impressionante que pareça é justamente por isso que há muitos que se dispõem a governar. E para a psicanálise também não faltam candidatos. Educar também, não faltam candidatos a educar. Isso não quer dizer que tenham a mínima ideia do que é educar. O que se aplica com precisão aos ministros de educação escolhidos pelo atual governo para propor modos e meios de educar.

Apesar disso, não se cessa de governar, não se cessa de educar, não se cessa de fazer psicanálise. Mas há um tema de que Freud não se ocupou, possivelmente por se tratar de um tabu, segundo sua própria história, que é a posição do sábio. Lacan em 1974 em conferência sobre a sabedoria lança questões irônicas, sedutoras, mesmo paradoxais, que nos convocam a pensar. Assim diz: “É divertido ver como nos últimos tempos, entre os sábios, há aqueles que trabalham em laboratórios.”

“Todas essas pequenas bactérias com as quais se fazem coisas maravilhosas, suponham vocês que um dia, após se fazer de fato um instrumento  ‘sublime’ de destruição da vida, que um tipo de bactéria saia de um laboratório” (Lacan em 1974). Uma afirmação que veio a se constituir ao longo dos tempos em uma nova realidade, a ponto de dominar o interesse da humanidade. Não que antes não tenha havido surtos de vírus e mesmo a peste, já tão conhecidos da humanidade. Dessa vez, em pleno século XXI, estes são mundialmente observados pela ciência, calculados milimetricamente, monitorados, cientificamente diagnosticados e tratados, mesmo que a ciência ainda não os tenha controlado. E as perdas são inumeráveis e a dor indizível. Há surpresa, há espanto, há receios, há cuidados, há prescrições, há adoções de medidas para um vírus a ser conhecido e de rápida transmissão.

Não são as bactérias que nos livrarão do mal-estar na cultura mas conseguirão disparar uma crise de angústia e uma espécie de interdição, mesmo provisória. Como a ciência não tem nenhuma ideia do que faz, diante de uma pequena irrupção de angústia, transformada em angústia mundial, vai continuar, por um tempo, buscando resolver, triunfará ou não.

A ciência é o novo que introduzirá uma série de medidas “perturbadoras” na vida de cada um. Em paralelo há a religião, a romana, que tem recursos que sequer podemos suspeitar. A religião no atual momento fervilha. Por muito tempo a religião foi dominante alcançando seu apogeu no período da Idade Média. Na contemporaneidade percebe-se, de repente, que a religião tem chance de retornar associada à ciência.

A religião tem recursos que estão à disposição em momentos como os de hoje. A religião interpretará o Apocalipse de São João. A religião encontrará uma correspondência de tudo com tudo. Esta é sua função.

O psicanalista pelo contrário é uma “coisa” inteiramente diferente. Encontra-se em momento de “muda”. O psicanalista se mantém em seu lugar, se mantém como um sintoma. Não dura mais do que um sintoma.

A psicanálise é uma função ainda mais impossível do que as outras porque se ocupa do que não funciona. O que funciona é o mundo. Já a religião foi constituída para curar os homens, para que não percebam aquilo que não funciona, aquilo que não anda, aquilo que faz obstáculo.

A psicanálise não detém a “chave” do que está por vir no futuro mas haverá um momento privilegiado em que surgirá o discurso do “parlêtre”, do sujeito mais próximo da letra do inconsciente.

O “parlêtre” é um modo de expressar o inconsciente.

Ivanisa Teitelroit Martins é Psicanalista, autora de 25 ensaios em psicanálise, seis deles publicados



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