Sociedade e Cultura

A angústia dos sábios II

 

09/08/2020 14:18

(Arte Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte Carta Maior)

 
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Será que vivemos de fato o fim das grandes narrativas ideológicas, a hora da desautorização generalizada? A hora do desencanto ideológico já não vinha há algum tempo sendo aguardada? A hora do desencanto ideológico já não está há algum tempo em contagem regressiva? Zizek em sua extensa obra recusou a tese de que hoje em dia teríamos “desmamado” da ideologia mesmo sob o juízo crítico do pensamento pós-moderno.

A crença, a suposição na existência de uma lógica anterior, de um saber anterior, a crença própria do discurso religioso, a crença no discurso ideológico sem a devida experiência na prática, representa o obstáculo à emergência do ato de alcance emancipador.

:: Leia também: A angústia dos sábios I' (CLIQUE AQUI)

A “interpassividade” traz resultados críticos muito concretos que esclarecem a relação ambígua à ideologia em que hoje em dia se sustentam as lutas progressistas. A interpassividade se demonstra pelo apelo constante de agir freneticamente em diferentes contextos de luta para evitar fazer um diagnóstico global da situação em que nos encontramos. A urgência de agir, destacada de toda perspectiva de emancipação global, provoca uma agitação em todas as direções como as formações de frentes sem princípio orientador, sem uma nítida diretriz bem refletida, que escondem nossa “miséria política”, nossa passividade diante de um sistema cujas premissas e consequências fundamentais viemos ao longo do tempo a aceitar. A interpassividade está a serviço dessa atividade frenética que oculta a posição de passividade em que nos encontramos.

Em termos psicanalíticos, a “falsa atividade” remete à posição do neurótico obsessivo que “age freneticamente para repelir a realização do seu desejo, evitar que a “coisa” (a morte) decisiva não aconteça. A interpassividade consiste em agir para que nada mude, para que nada de decisivo possa se produzir.

Esta é a constatação de Zizek sobre a impotência atual das lutas progressistas contemporâneas, associadas à agitação perpétua e estéril sem impactos efetivos sobre a realidade do capitalismo mundializado.

A mundialização se refere à composição econômica, política e geográfica do mundo nas suas relações de “força e dependência” mas de forma ainda estática. Já a globalização trata das relações que se manifestam “livre e irreversivelmente” entre todos os países do mundo.

A transmissão da trajetória histórica de Lenin não consiste em dar respostas diante da questão: “Que fazer?” Diante de uma juventude pressionada por saber o que se deve fazer, Lenin propôs: “aprender, aprender e aprender”. Repetir o gesto de Lenin nos tempos de hoje não significa imitar ou reproduzir o que Lenin e os Bolcheviques fizeram, bem pelo contrário: é assumir plenamente que devemos nos concentrar e trabalhar sem descanso porque nós não sabemos o que devemos fazer. 

O momento não é de engajamento imediato às políticas identitárias ou antirracistas – a não ser que se queira permanecer no campo da interpassividade. As lutas identitárias e antirracistas não são menos importantes mas secundárias diante da luta principal que se avizinha em escala mundial: a hegemonia das superpotências que detêm força econômica, militar, tecnológica e cultural.

É momento de pensar por mais que paradoxal que pareça. O único meio de passar da agitação frenética ao ato revolucionário consiste hoje em dia em renunciar a toda forma de engajamento imediato e de se aplicar estritamente à ascese teórica a mais estrita.

Repetir Lenin significa exatamente o contrário do que seus detratores lhe imputam.

[...] a ideia não é certamente a de retornar a Lenin, mas de o repetir no sentido kierkegaardiano do termo: de reencontrar o mesmo impulso no cenário contemporâneo. O retorno a Lenin não visa certamente a reprodução nostálgica dos “bons e velhos tempos da revolução”, nem um ajuste de velhos programas a novas condições, mas repetir nas condições mundiais atuais, o gesto leninista que consiste em reinventar o projeto revolucionário nas condições do imperialismo e do colonialismo – mais exatamente: na sequência do colapso do longo período de progresso depois da catástrofe de 1914.

Lenin retornou a Hegel, nós retornamos a Celso Furtado e Florestan Fernandes. Há muitos mais passos adiante.

Ivanisa Teitelroit Martins é psicanalista, autora de 30 ensaios em psicanálise



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