Sociedade e Cultura

A batida de um coração verde: a luta pelo aborto livre, seguro e gratuito no Chile

Milhares de mulheres de todas as idades foram às ruas na tarde de quarta-feira (25/7) para defender o aborto livre. Entre lenços verdes, fogões e assembleias, foi adquirindo força. Esta é a anatomia da marcha por dentro. Uma luta que apenas começa

27/07/2018 09:35

 

*Publicado originalmente no El Desconcierto

 “Vamos já, vamos já, vamos já já já (..) pelo aborto legaaal” é o cântico ao som de Bella Ciao (o hino antifascista da II Guerra Mundial que foi novamente popularizado pela série “A Casa de Papel”) que todas acompanham e ecoa no ambiente, quando o grupo passa em frente à porta do Ministério de Educação. Às 10h13 da segunda-feira (23/7), cerca de vinte mulheres e estudantes forma um círculo. Uma adolescente segura um cartaz que diz “porque tenho direito a conhecer meu corpo, educação sexual”. Quem encabeça o grupo é Rosario Olivares, porta-voz da Rede de Professores de Filosofia do Chile, que fala com um megafone. De longe, alguns transeuntes sonolentos, provavelmente trabalhadores de escritórios próximos, observam enquanto esperam um café, com certo ar de derrota. Outros homens passam ligeiros perto do grupo e tentam empurrá-las. Elas ignoram e continuam com seus cantos. “Nós parimos, nós decidimos!”. O círculo permite esquentar um pouco, enganar o frio, numa hora em que o vento gelado arranha a cara. Estudiantes e jovens de cabelos e lenços verdes, piercings, lábios vermelhos, é uma festa. Estão rodeadas pelos chamados “carabineiros” (polícia militarizada chilena). Um deles toma fotos, para intimidá-las. Elas continuam indiferentes e abrem uma enorme faixa branca, de uns três metros. As mulheres juntas não conhecem o medo.

Alondra Arellano esfrega os braços pelo frio uma e outra vez. Universitária e integrante da Secretaria de Gênero e Sexualidades da Universidade Católica, fala sobre a objeção de consciência institucional e sobre o fato de não ensinarem sobre métodos anticoncepcionais aos que estão estudando, como acontece em sua própria casa de estudos ou na Universidade dos Andes. Diz que as estudantes estão de acordo com o aborto em três causas (como foi promulgado no ano passado no Chile, para casos de risco para a mãe, fetos inviáveis e gravidez fruto de violência sexual), mas a institucionalidade católica se nega a permitir que decidam sobre seus corpos de forma livre e ampla. Ademais, menciona uma realidade que conhece de perto: a grande quantidade de universitárias com gravidez não desejada que vivem em condições totalmente precárias. Circunstâncias que determinam o futuro, mesmo para as que têm boas notas.

“Não existe nenhum compromisso por parte do governo para facilitar que essas jovens possam estudar, e tampouco se promove a corresponsabilidade entre mães e pais jovens. Então, o que resta? Que o peso sobre as costas dessa estudante por ser mãe aumente, e assim se vai estimulando a deserção dos estudos e as dificuldades em sua carreira”, pergunta e responde a própria Arellano, antes de volta ao grupo.



São 16h40 da mesma segunda, Portal Ñuñoa, outro lugar de Santiago. Os transeuntes entram num shopping em filas, mulheres com filhos e homens saem do supermercado e o trânsito já começa a se engarrafar. Chegam as mulheres de lenços verdes com seu cancioneiro. Primeiro são quatro, dez, e às 17h já são quase cinquenta. Começam os primeiros gritos, até que chega a faixa gigante. Há garotas ciclistas, adolescentes e mães com filhos. Joseffe Cáceres, ou “Zicuta” para suas companheiras, militante do coletivo “Pan y Rosas”, auxiliar de limpeza e integrante da Coordenadora 8 de Março, observa a atividade, para que tudo saía como foi programado.

No mesmo lugar está Bárbara Retes (26), uma jovem morena de óculos, diz que pertence ao grupo Ação Feminista de Ñuñoa, levanta as mãos, dá indicações de como erguer corretamente a faixa. Vive no bairro Villa Olímpica, como quase todas as integrantes desse coletivo. Explica que se reuniram desde que descobriram um caso de estupro de uma jovem por parte de uma torcida organizada do clube de futebol Universidad de Chile, nas proximidades do Estádio Nacional de Santiga. Pensaram que era hora de fazer algo e desde então se juntam quase sempre na Praça San Eugenio. “Meninas, levantem um pouco mais as laterais”, interrompe ela, e continua a conversa.

“Agora somos um grupo mais restrito, as mais ativas de sempre, e decidimos começar a fazer estas ações de forma territorial, como fazer esta manifestação com os lenços e faixas, estamos recém começando, é hora de se unir”, diz Retes, antes de assumir o megafone.

“Aborto legal! No hospital!”, começam a gritar as mulheres ao seu redor. Depois de alguns minutos, seguem pelas ruas a cada luz verde do semáforo, os carros tocam as buzinas em sinal de apoio, uma vendedora ambulante reclama para que não estraguem sua mercadoria estendida no chão e um senhor de idade resmunga algo uma evidente cara zangada. “O que elas têm na cabeça, só pensam em dar e abortar”, reclama ao vento, e se vai com duas pequenas crianças que tomam suas mãos.

Ações territoriais em diferentes setores da capital chilena, assembleias e entrega de lenços. Organizadas em coordenadoras, coletivos e organizações de bairro. O primeiro protesto com os lenços aconteceu em frente ao Tribunal Constitucional, na semana anterior, e logo foram repetidos de bairro em bairro. Essa foi a prévia da sexta marcha chilena pelo aborto livre (a primeira foi no dia 25 de julho de 2013), mas a primeira unificada com o movimento argentino e latino-americano, inclusive na cor dos lenços. Há um ar de retrospectiva, mas também de algo novo.



Para Alondra Carrillo porta-voz da La Coordenadora 8 de março, o objetivo é conseguir progressivamente a despenalização do aborto no Chile, porque este é o relançamento de uma campanha que foi pensada desde o início como uma luta a longo prazo, em busca de que esta discussão comece a ser um tema de debate público e que se instale dentro dos temas sociais mais importante do país, e que esse debate se dê em diferentes organizações sociais, que o tema se repercuta. Enfim, o que o tema do aborto livre saída do armário.

“Tentamos reunir a maior quantidade possível de agrupações sociais, e que elas possam tomar uma postura aberta de apoio ao aborto livre e legal. Este trabalho é parte de uma articulação, a essas atividades assistem mulheres com filhos, crianças pequenas, também vestidas com lenços verdes, imagens potentes”, diz no telefone.

As feministas do bairro

Romina Aburto (32) é professora de história e vive na cidade de Curicó. Na quarta-feira (25/7), ela se levantou cedo, esperou a chegada de duas amigas do povoado de Los Niches e outras do centro da cidade. Como parte do Coletivo de Mulheres, trabalha com elas e com outro grupo novo de ações mais individuais, se considera algo assim como a ponte entre as feministas históricas do lugar e as estudantes. Às 10h, elas começaram a distribuir panfletos na entrada do Hospital de Curicó com mais vontade que companhia: eram quatro. Chegou rápido em casa e postou imagens da ação no Facebook da Coordenadora 8 de Março. Eram poucas, mas estavam felizes.

Para Romina esse ato contra a objeção de consciência em frente ao Hospital de Curicó dizia muito. Além disso, servia para rememorar a morte de Estefanía Cabello, de 22 anos, que chegou ao hospital com um aborto séptico – tinha cinco meses de gravidez. O centro médico foi acusado de não aplicar o protocolo de aborto em três causas. Romina sabe que este território é difícil, que é preciso trabalhar para convocar gente, para superar a barreira do pensamento provinciano. Não esperava encontrar mais de vinte mulheres na Praça de Armas, no protesto de quarta-feira. O grupo reduzido pendurou um cartaz verde nas grades da entrada do hospital e se mantiveram ali, estoicas.

“O caso de Estefi foi visto primeiro como negligência médica, mas depois percebemos que por trás daquilo havia o não cumprimento da nova lei do aborto em três causas, porque era evidente que sua vida corria risco e não se acionou o protocolo. Hoje, entregamos uma solicitação ao para que o diretor faça uma declaração pública sobre o caso”, disse ela, por telefone.

Na cidade de Villarrica houve um caso similar com as mulheres de um coletivo, tomaram mate e fogão antes de começar a marcha. Em Santiago, as estudantes e adolescentes chegaram a todas as atividades, e assim em todo o território chileno.

Martina Escobar (15) frequenta o Liceu Tajamar, está no segundo ano do ensino médio e diz que já é experiente em termos de ocupações e protestos. Na noite da grande marcha, ela saiu cedo, apesar de que havia assistido a uma manifestação prévia em seu bairro (Maipú) pela tarde, e estava cansada. Está de férias e logo ao levantar enviou mensagens de whatsapp às amigas: Belén, Aylín e Amanda. Se juntou com elas, levaram cartazes e se reuniram com garotas de outros liceus e outros bairros, como Pudahuel, Ñuñoa e La Cisterna. Depois de receber algumas recomendações dos pais, tomou o ônibus 401 que vai de Maipú ao centro e demorou 45 minutos em chegar à Praça Itália, onde havia dezenas de milhares de mulheres. Lá ela marchou, tomou fotos que subiu em seu perfil de Instagram – onde, antes, estava uma fotografia com suas companheiras, e a legenda: “amanhã, todas estaremos nas ruas, adoro vocês”.

A marcha principal em Santiago começou por volta das 19h, quando a Alameda Libertador Bernardo O´Higgins, a principal via da capital chilena, era tomada por uma fileira de fumaça, como consequência de uma barricada montada por um grupo ultrarreacionários tentava impedir a passagem das mulheres. Ao mesmo tempo, uma dezena de estudantes alheias ao fogo cantava “alerta machista” e montavam uma coluna junto com as alunas de intercâmbio com cartazes que diziam we give birth we decide (“nós parimos, nós decidimos”) e I choose (“eu escolho”). Após alguns minutos, a faixa gigante passava à altura da Rua Portugal e o grupo Tambores Unidos dava ritmo com uma espécie de dança afro. Al redor, grupos de amigas tiravam fotos e faziam senhas entre elas para se manterem próximas umas das outras. Uma dezena de estudantes de saídas avançavam gritando: me gustan las peras, me gustan las manzanas y en la cama me meto con quien me da la gana (“gosto com peras, gosto com maçãs, me meto na cama com quem eu quero”). No ponto de ônibus da rua Santa Rosa, três garotas, entres elas uma de sutiã e outra com o dorso nu, agitavam o cântico levantando as mãos e aplaudindo. A marcha seguiu assim, repleta de mulheres adolescentes, mães com filhos e famílias. Crianças comendo espetinhos para matar a fome, estudantes tomando bebidas energéticas para enganar o sono, tudo servia durante a caminhada.

No final, a alegre coluna era cercada por 17 policiais. “Aborta a tua pátria”, dizia uma pichação de spray verde em frente ao Morro Santa Lucía – histórico local fundacional da cidade de Santiago – como que antecipando tudo o que viria depois. Antes de terminar a marcha, os whatsapp se multiplicaram e acenderam os alarmes. No Twitter já se confirmava a notícia: três mulheres foram apunhaladas por um grupo neonazi, que também tentou cortar a marcha com uma faixa que dizia “esterilização gratuita das femeazinhas”. Estudantes, coordenadoras e amigas pediam para denunciar o caso, ligavam umas para as outras, tentavam averiguar mais. Até que, após as 23h, a Coordenadora Feministas em Luta publicou um comunicado.

Pelo whatasapp, uma Zicuta preocupada por suas colegas reagiu com uma mensagem: “nem Kast (político de ultradireita, espécie de Bolsonaro chileno), nem lenços celestes (símbolo do movimento antiborto), nem Santelices (ministro da Saúde do atual governo de direita, de Sebastián Piñera, e contrário ao aborto) com sua misoginia, nem punhais dos mais reacionários e fascistas poderão frear a maré verde, decidimos ir por tudo, para conquistar o aborto legal”. E ela tem razão. O coração verde já é um abraço que alcança a muitas. O coração verde bate forte.





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