Sociedade e Cultura

A hora da verdade - quando o coronavírus encontra a mudança climática

Ciclones no Pacífico e pandemias dizem muito sobre a desigualdade global e destacam nossa busca fútil por lucro

17/05/2020 14:11

As pessoas se reúnem perto de uma figueira derrubada pelo ciclone Pam em 2015 em Tanna, Vanuatu (Mario Tama/Getty Images)

Créditos da foto: As pessoas se reúnem perto de uma figueira derrubada pelo ciclone Pam em 2015 em Tanna, Vanuatu (Mario Tama/Getty Images)

 

Em meio a choques econômicos e fechamentos de fronteiras causados pela pandemia de coronavírus, a região do Pacífico foi novamente devastada por um ciclone de categoria 5 que deixou um rastro de destruição em quatro países insulares do Pacífico em um período de quatro dias, de 5 a 8 de abril .

O custo econômico do ciclone Harold e em função da pandemia de coronavírus às economias do Pacífico ainda não foram determinados, mas eles certamente provocaram o recuo de ganhos econômicos significativos nesses países.

Os impactos econômicos, sociais e ambientais da pandemia, exacerbados por desastres causados pelo clima, como o ciclone tropical Harold, repercutirão no futuro desses países.

A COVID-19 e as mudanças climáticas enfatizaram novamente a fragilidade das economias do Pacífico e sua vulnerabilidade aguda aos fenômenos globais.

O relatório da Oxfam sobre o potencial impacto econômico do coronavírus - Dignidade não Destituição - demonstra que o cenário que se desenrola no Pacífico é uma realidade, à qual os países em desenvolvimento, mais vulneráveis e pobres do Sul Global, podem estar conectados, à luz da atual precariedade e incerteza global.

O duplo infortúnio do Pacífico nos leva a um momento importante para o mundo reexaminar nossa atual abordagem de desenvolvimento, especificamente o modelo econômico dominante que prioriza o lucro sobre as pessoas e o meio ambiente.

Tanto a COVID-19, quanto as mudanças climáticas continuam a expor as falhas em nossas estruturas econômicas e a necessidade de mudar nossa abordagem no modo de governar nossas economias.

Desigualdade - o denominador comum

A desigualdade talvez seja a falha mais óbvia do atual modelo econômico. Tanto os ciclones quanto as pandemias exacerbam as desigualdades persistentes nos diferentes níveis de nossas sociedades.

Aqueles destinados a sofrerem mais, com os efeitos extremos desses dois fenômenos, são os mais pobres e os despossuídos nas sociedades.

Em uma economia global em que o 1% formado pelas pessoas mais ricas do mundo possui mais do que o dobro da riqueza de 4,6 bilhões das pessoas mais pobres do mundo, de acordo com um relatório da Oxfam em 2020, a capacidade da maioria da população no momento de acessar os recursos necessários para construir holisticamente sua resiliência e se recuperar da crise global são severamente limitados e, em alguns casos, inexistentes.

O relatório da Oxfam, Dignidade não Destituição, prevê que meio bilhão de pessoas provavelmente serão levadas à pobreza, por causa da pandemia, se não houver um pacote global urgente, que seja orientado às pessoas e compassivo com as necessidades dos países mais pobres e vulneráveis do mundo.

O que precisamos é de um pacote de resgate global que não se concentre apenas na proteção de pequenos negócios, mas que também forneça redes de segurança para as populações mais vulneráveis.

É importante ressaltar que a pandemia e as mudanças climáticas mais uma vez iluminaram as duras desigualdades sociais de gênero em nossas comunidades.

A situação das mulheres e meninas, em toda a sua diversidade em tempos de crise, foi novamente revelada. Enquanto diferentes grupos são afetados de maneira diferente em tempos de crise, os encargos econômicos e as dificuldades recaem desproporcionalmente sobre as mulheres.

Como a economia global está atualmente parada, as mulheres estão assumindo cada vez mais cargas de trabalho domésticas e familiares, expondo-as a maiores riscos sociais e de saúde.

Essa desigualdade de gênero se estende muito além da economia informal de cuidados familiares, agora, no mercado formal de trabalho. Os principais trabalhadores dos serviços essenciais, que agora mantêm unido o próprio tecido de nossa sociedade, são mulheres em sua maioria.

As mulheres representam a maioria na linha de frente dos setores de varejo, agricultura e saúde - setores essenciais que, por tanto tempo, têm sido subestimados e sobrecarregados.

Ironicamente, as mesmas pessoas em quem negligenciamos investir e capacitar são as que agora estão fazendo horas extras, sob circunstâncias estressantes e com más condições de trabalho. Eles são aqueles em quem, agora, depositamos nossas esperanças de nos levar por esses tempos precários.

Construindo uma economia diferente

A crise climática em andamento e a chegada da pandemia de coronavírus nos lembram a loucura de dar as costas aos valores que tanto prezamos em nossas sociedades. Essa crise trouxe à tona o fato de que o que buscamos em termos de segurança, conforto e consolo em tempos difíceis são nossos relacionamentos, nossos parentes, nossas conexões e compaixão humanas.

Cuidamos uns dos outros sempre será nosso plano alternativo, quando os outros derem errado. É fundamental que esses valores ganhem mais destaque nas novas formas de governar nossos negócios, ao tentarmos conter o impacto da crise e, ao mesmo tempo, traçar um caminho para a recuperação econômica.

Os governos precisam prestar atenção às lições dolorosas dos impactos das mudanças climáticas e da pandemia. Eles precisam agir com urgência para fazer a transição para um modelo econômico que seja cuidadoso, humano e justo, em vez de apenas alimentar a busca interminável por lucro.

Mais importante, é fundamental que canalizemos nossas prioridades de investimento para a construção e o fortalecimento dos sistemas eficazes de proteção social, de forma a podermos responder efetivamente a crises globais como pandemias ou desastres mais localizados como o ciclone Harold.

Os governos precisam reverter a tendência passada de se esquivar de suas responsabilidades pela prestação de serviços essenciais a seus cidadãos, especificamente em proporcionar proteção social, saúde, moradia, água e outros serviços públicos, em vez de vendê-los a empresas privadas, que são movidas exclusivamente pela criação de riqueza, ou contar com instituições de caridade em dificuldades.

Ao redefinir a prioridade das estratégias econômicas nacionais durante a situação pós-crise, o exame das desigualdades de gênero e de classe, bem como dos direitos humanos, deve se tornar componente integral para garantir que a economia funcione para todos nós, em vez de privilegiar alguns poucos.

Agora estamos nos aproximando de uma encruzilhada; podemos continuar com o modo de desenvolvimento normal, ou podemos mudar: transformarmos a maneira como fazemos as coisas e construirmos uma economia que nutre nosso povo e nosso planeta.

Esta é a escolha política que está em jogo. Pelo nosso bem e pelo bem de nossos filhos, instamos nossos líderes a escolherem o último, porque manter o status quo só trará mais sofrimento e destruição ao mundo.

O Dr. Jale Samuwai é o Diretor de Finanças da Oxfam no Pacífico.

*Publicado originalmente em 'Aljazeera' | Tradução de César Locatelli

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