Sociedade e Cultura

A pandemia de Covid-19 aumenta a pobreza extrema nos países mais frágeis

O coronavírus ameaça eliminar décadas de esforços de desenvolvimento nos países menos desenvolvidos, alerta a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento

04/12/2020 17:35

Distribuição de alimentos em Dhaka, Bangladesh (Mohammad Ponir Hossain/Reuters)

Créditos da foto: Distribuição de alimentos em Dhaka, Bangladesh (Mohammad Ponir Hossain/Reuters)

 

Como um salto sem pára-quedas, os países de baixa renda mergulham na crise econômica sem ajuda ou proteção. Ao contrário das economias desenvolvidas ou emergentes, não podem contar com a dívida pública nem com planos generosos de recuperação para amortecer o choque da crise ligada à Covid-19, e menos ainda com a solidariedade internacional, enquanto o destino de um bilhão de pessoas está em jogo.

De acordo com estimativas publicadas quinta-feira, 3 de dezembro pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), os 47 estados mais pobres do planeta devem registrar, no período de outubro de 2019 a outubro de 2020, o pior desempenho dos últimos trinta anos com, em média, uma contração do produto interno bruto (PIB) de 0,4%. A Unctad chega a estimar que, até o final do ano, cerca de 32 milhões a mais de pessoas serão empurradas para a pobreza extrema nesses países, eliminando dezenas de anos de esforços de desenvolvimento.

No dia 1º de dezembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que a crise econômica pode se transformar em uma tragédia humanitária em algumas regiões, com a fome no horizonte. “Aqueles que já viviam no fio da navalha foram severa e desproporcionalmente afetados pelo aumento dos preços dos alimentos, queda da renda, interrupção dos programas de vacinação e fechamento de escolas”, advertiu a ONU, que lançou um apelo humanitário recorde de 35 bilhões de dólares (29 bilhões de euros) para 2021.

Trabalhadores migrantes vulneráveis

Os países de baixa renda, relativamente poupados da crise da saúde, sofrem mais com a recessão global do que com a contenção (derivada do confinamento) parcial de suas economias.

Países como a República Democrática do Congo, Zâmbia e Guiné, que dependem da exportação de matérias-primas, deverão ver suas receitas caírem devido à queda dos preços. Bangladesh, Laos e até mesmo o Nepal estão sofrendo com uma queda de 20% em suas exportações de roupas. Espera-se que o colapso do turismo, outro setor empresarial vital, desacelere as economias de pequenas ilhas do Pacífico como Vanuatu, mas também do Camboja e Gana.

Soma-se a essa queda na renda o esgotamento das remessas enviadas pelos migrantes para suas famílias. Em 2020, quase um milhão de bangladeshianos e 200.000 etíopes tiveram que deixar a Arábia Saudita para retornar ao seu país, privando famílias inteiras de renda. E, quando não voltam para casa, os migrantes sofrem o impacto da recessão na Europa ou nos Estados Unidos, que os impede de sustentar suas famílias.

O mesmo sistema financeiro que veio em socorro dos países ricos durante a pandemia precipitou a queda das economias mais frágeis. Em 2020, os países pobres testemunharam uma fuga de capitais, um esgotamento de suas reservas cambiais e uma queda no valor de suas moedas, enquanto nos Estados Unidos e na Europa, os bancos centrais compraram trilhões de euros em dívida pública e facilitaram o lançamento de gigantescos planos de recuperação.

"Precisamos de um plano Marshall"

“O sistema monetário internacional impõe o ônus desses vários ajustes aos devedores e às economias deficitárias”, denuncia a UNCTAD. A agência da ONU reconhece prontamente que os países desfavorecidos precisam mobilizar mais poupança interna e melhorar a eficiência de seus gastos públicos, mas alerta que "isso é insuficiente no contexto atual". “Devido aos escassos recursos dos países de baixa renda e à redução de seu espaço fiscal de manobra, é necessário um Plano Marshall”, conclui a ONU.

As economias pobres, destinos arriscados para os investidores, dependem sobretudo de aportes públicos para o desenvolvimento. Porém, longe de aumentar, eles, pelo contrário, podem diminuir quando são mais necessários.

O Reino Unido decidiu assim, no final de novembro, reduzi-los em 5,5 mil milhões de euros, passando-os de 0,7% para 0,5% da renda nacional bruta (RNB). O ministro britânico de Relações Exteriores, Dominic Raab, disse que deseja concentrar a ajuda em países onde "os interesses econômicos, de segurança e de desenvolvimento estão alinhados".

Os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por sua vez, gastaram apenas 0,31% de sua renda nacional bruta em 2019, contra uma promessa de 0,7%. “No entanto, esses valores representam apenas uma pequena fração do gasto com planos de recuperação”, lamenta Rolf Traeger, responsável pelos países menos desenvolvidos da Unctad. A organização também observa que a comunidade internacional falhou muito na meta de um plano de ajuda de US $ 2,5 trilhões para os países pobres, lançado pelo Fundo Monetário Internacional no início da pandemia.

 “Não há multilateralismo sem solidariedade internacional e, portanto, ajuda ao desenvolvimento”, disse Pierre Jacquet, economista e presidente da Global Development Network (GDN). Enquanto os países ricos se recusam a ajudar os países pobres em nome da solidariedade, eles poderiam fazê-lo em nome da defesa de seus próprios interesses, julga Traeger: “Investir nos países menos desenvolvidos é investir na estabilidade do sistema internacional". A pobreza alimenta focos de instabilidade e insegurança, que por sua vez levam a migrações significativas. Os países de baixa renda já abrigam 14% da população mundial e metade dos pobres do mundo que vivem com menos de US $ 1,9 por dia. A pandemia de Covid-19 aumentará ainda mais essas desigualdades globais.

*Publicado originalmente em 'Le Monde' | Tradução de Aluisio Schumacher

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