Sociedade e Cultura

A (real e sutil) ideologia de gênero

 

16/09/2019 14:45

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Na pós-modernidade, gênero é uma temática discutida sob dimensões complexas. A fragmentação do sujeito, político por essência, se aprofunda em um tempo histórico-cultural de profunda polarização e retrocesso. Ainda que habitando apenas um corpo físico, cada ser humano se torna várias pessoas habitando diversas realidades. Intensamente conectados às redes sociais e (des)atentos à realidade material, assistimos nossa capacidade de pensar terceirizada para diversos aplicativos.

Tendo, aparentemente, inúmeras possibilidades, parecemos ser tudo aquilo que desejamos. Esse ideal de total liberdade, além de atraente, sub-repticiamente ofusca a real potencialidade de vivenciar nossa essência em plenitude. Estamos sendo induzidos a acreditar em nossas ações como resultado de nossas próprias escolhas. E isso se constitui como perigo à nossa humanidade, porquanto o inconsciente tem sido manipulado sem precedentes.

Os algoritmos utilizados para acessar as bases de dados obtidas nas redes sociais têm sido utilizados por vários grupos políticos para reforçar velhos preconceitos. Paradigmas outrora considerados retrocessos são, hoje, para muitos, respeitáveis. O patriarcado, em seu caráter mais reacionário, atinge as mentes de milhões e iça as velas do conservadorismo, difundindo a crença de uma civilização viável apenas se formada por pessoas heterossexuais e cisgêneras. Movimentos sociais, como o LGBTQ e o feminismo, de acordo com tal viés, ameaçariam os pilares da sociedade, haja vista lutarem, respectivamente, por direitos sociais de não-pessoas e pela autonomia das mulheres.

O discurso religioso tem fundamental importância para o crescimento dessa forma de pensar a ordem sociocultural. No Brasil, as religiões denominadas cristãs, especialmente àquelas de matriz neopentecostal, têm sido a alavanca para o crescimento da bancada evangélica no Congresso e para a mixórdia entre Estado Laico e poder religioso. Seu principal lema é a suposta supremacia de homens cis e héteros. Ser macho ou pelo menos representar socialmente o ideal do macho alfa, denota dignidade, respeito e os mais altos valores humanos.

Eis a ideologia de gênero, expressão criada na Conferência Episcopal Peruana de 1998, a qual demoniza a perspectiva feminista e inferioriza minorias sociais, impondo o conceito de gênero como um chamado divino. Esse ponto de vista, repleto de desumanização, proporciona o real perigo e desafia à igualmente real luta a ser travada em nossa época, mutuamente: o apagamento das identidades e o confronto pela continuidade do pensamento livre, que faz de nós homo sapiens sapiens.

Armando Januário dos Santos Sexólogo. Pós-graduado em Psicanálise. Concluinte da graduação em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br 



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