Sociedade e Cultura

A revolução dos ressentidos

 

13/03/2020 11:23

(Duke)

Créditos da foto: (Duke)

 

Apesar da incompetência administrativa, da inaptidão política e dos resultados pífios ao longo de um ano e três meses de mandato, um terço do eleitorado persiste aprovando o atual presidente. Um eleitorado que o apóia irrestritamente, apesar dos saldos em termos de geração de emprego, distribuição de renda, aumento do consumo, PIB, financiamento público e preservação ambiental. E apesar da postura patética, da truculência, dos desmandos, das macaquices performáticas, da sua desorganização administrativa e de sua inépcia política.

 Entre esses 30% fidelizados, não se pode esquecer os incautos envolvidos por redes sociais de desinformação, que propagam diariamente notícias falsas, outras parcialmente verdadeiras (que superestimam pequenas realizações), memes e outros conteúdos destinados a encorajar e a insuflar ódio. Uma parte destes 30% vive uma ilusão de realidade, evitando os jornais a pedido de seu próprio mandatário.

Mas, além dos desinformados da era da informação, há nestes 30% o eleitorado atento aos rumos da política e que, apesar dos resultados adversos, das mazelas gestoras de nosso capitão e de sua equipe, reiteram seu apoio. Seguem com o presidente, apesar do presidente.

Por que o fazem? Primeiramente, porque já não esperam transformação. Não esperam nada da política. Aliás, é contra ela que insurgem (nada mais político que a antipolítica). Por isso já não se incomodam com as trapalhadas, com o trato com jornalistas, com o nepotismo descarado, com as obscuras relações com a milícia ou com o ministro da educação que é, em si, uma aberração.

Este eleitorado atento e, por vezes, envergonhado, reitera seu apoio por motivações subjetivas: vingança e ressentimento.

Uma vingança difusa, contra inimigos variados (e por vezes, imaginários). Contra o politicamente correto, que obriga a respeitar as pessoas e reprime o sagrado direito à infâmia, à injúria e às piadas jocosas sobre grupos oprimidos. Contra protocolos internacionais de sustentabilidade ambiental e direitos humanos, que não deixam destruir nada (nem a natureza nem pessoas). Contra a democratização do ensino superior. Contra partidos progressistas e o legado dos governos populares, aqui e ao largo do Cone Sul. Contra as insolentes reivindicações igualitárias, que ousam transformar privilégios em direitos. Contra as normas de trânsito que regulam o tráfego, que só servem para tirar o prazer de dirigir. Contra minorias empoderadas e insubmissas que, com mobilização coletiva e visibilidade crescente, obtiveram conquistas políticas expressivas. Contra adversários políticos, tornados inimigos a serem combatidos e, eventualmente, eliminados. Contra a morosidade do regime de democrático, que não leva a soluções contundentes e paralisa do país. Contra pilares da civilização como órgãos de controle e de fiscalização, imprensa, parlamentos e tribunais, que não fazem outra coisa a não ser impedir o mito de salvar o país. Contra o saber e a cultura, esse povo que se acha: professores, estudantes, pesquisadores, intelectuais, artistas e peritos de toda ordem (é divertido ver os ministros lutando contra evidências empíricas obtidas pelo método científico. Culpam o termômetro pela febre). Contra os povos originais – esses sim, donos da terra. Contra as diversas formas de amar e as múltiplas configurações familiares. Contra todo mundo que, de uma forma ou de outra, escapa da ortodoxia cristã, mas que, justamente por isso, não escapa dos cristãos.

O tiozão do churrasco, o vizinho pilantra, o colega de trabalho machista e misógino e a classe média frustrada se sentiram destronados. O que nem sempre se explica por uma questão de ódio de classe, pois boa parte dos ressentidos revolucionários são pobres. E de direita (o que sugere que a pobreza não é apenas socioeconômica). Agora, só falta criarem a semana da consciência racista, o dia internacional do misógino e parada do orgulho homofóbico (embora a Marcha para Jesus já desempenhe bem essa função).

A revolução dos ressentidos é violenta e está em marcha. De famílias fuziladas gratuita e impunemente pelo exército. Da Amazônia posta abaixo enquanto São Paulo anoitece às três da tarde por causa da fumaça. O país em chamas. Inclusive literalmente. De causas assassinadas junto com a vereadora que as defendia.

Pela revolução dos ressentidos o Brasil reencontra a si mesmo. Reencontra suas estruturas de poder e sua base econômica arcaica, sua vocação colonial. Sua herança escravagista, patrimonialista, patriarcal, subserviente, dependente, periférica e agroexportadora. O Brasil de tiranos e da violência miliciana. De policiais partidarizados, de mulheres assassinadas, de negros escrachados e indígenas massacrados. De professores perseguidos. O Brasil em que a justiça tem lado e o poder tem dono. Em que o privado compra e vende o público. Estado mínimo para os pobres, Estado interventor na bolsa para investidores fracassados. Pela revolução dos ressentidos, o Brasil finalmente se revê no espelho.

E é uma insurgência tragicômica. Como manifestar-se democraticamente nas ruas contra a própria democracia. Uma passeata contra os poderes da república significa fazer valer o direito à ditadura. Cães implorando carrocinha.

E assim segue a revolução dos ressentidos: cega, estúpida e passional. Alheia ao futuro do país, aos desempregados e precarizados. Uma revolução sem destino, sem projeto, sem objetivo, gratuita, numa revanche furiosa contra qualquer mínimo gesto rumo a uma socialdemocracia na qual caiba todo mundo. Na revolução dos ressentidos, cidadania é palavrão.

Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo, professor e doutor em Sociologia

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