Sociedade e Cultura

A verdadeira escolha: controle social ou investimento social

Algumas sociedades se concentram no controle social, outras no investimento social

24/07/2020 14:59

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As sociedades de controle social investem recursos substanciais em polícia, prisões, vigilância, contenção da imigração e forças armadas. Seu objetivo é utilizar o medo, a punição e a violência para dividir as pessoas e manter o status quo - perpetuando a opressão sistêmica sobre negros e pardos e beneficiando ninguém além das elites ricas.

As sociedades de investimento social investem mais recursos em saúde, educação, moradia a preços acessíveis, benefícios aos sem emprego e às crianças. Seu objetivo é libertar as pessoas dos riscos e ansiedades da vida cotidiana e dar a todos uma chance justa de conseguir viver.

Donald Trump simboliza a primeira opção. Ele se autodenomina presidente da "lei e ordem". Ele até mesmo quer colocar os militares para caçar os norte-americanos que estão protestando contra os horríveis assassinatos policiais.

Ele criou um exército inexplicável de agentes federais que entram em cidades como Portland, Oregon - sem mostrar suas identidades - e atacam norte-americanos inocentes.

Trump é o apogeu de quarenta anos de aumento do controle social nos Estados Unidos e de diminuição do investimento social - uma tendência que, dada a profunda história do racismo nos Estados Unidos, cai desproporcionalmente sobre negros, indígenas e não brancos.

Os gastos com policiamento nos Estados Unidos quase triplicaram, de US$ 42,3 bilhões em 1977 para US$ 114,5 bilhões em 2017.

Os Estados Unidos agora mantém 2,2 milhões de pessoas em prisões e cadeias. Isso representa um aumento de 500% em relação a 40 anos atrás. O país agora tem a maior população encarcerada do mundo.

A agência de controle de imigração e alfândega (ICE) explodiu. Agora, mais pessoas estão detidas pelo ICE do que nunca em nossa história.

Os gastos militares totais nos EUA subiram de US$ 437 bilhões em 2003 para US$ 935,8 bilhões neste ano fiscal.

Quanto mais as sociedades gastam em controles sociais, menos sobra para investimento social. Mais polícia significa menos serviços sociais. Os contribuintes norte-americanos gastam US$ 107,5 bilhões a mais em polícia do que em habitações públicas.

Mais prisões significam menos dólares para a educação. Na verdade, os EUA estão gastando mais dinheiro em prisões do que em escolas públicas. Agora, quinze estados gastam US$ 27.000 a mais por pessoa na prisão do que por estudante.

À medida que os gastos com controles aumentaram, os gastos com assistência pública diminuíram. Menos pessoas estão recebendo vale-refeição. Os gastos com saúde pública diminuíram.

Os Estados Unidos parecem nem encontrar dinheiro para estender os auxílios-desemprego durante esta pandemia.

As sociedades que economizam no investimento social acabam gastando mais em controles sociais que perpetuam a violência e a opressão. Essa tendência é uma parte arraigada na nossa história.

Os Estados Unidos começaram como uma sociedade de controle. A escravidão - o pecado original da América - dependia dos controles mais severos possíveis. Jim Crow e redlining [a marcação de bairros não brancos] continuaram esse legado.

Mas nas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial, o país começou a avançar em direção ao investimento social - a Lei dos Direitos Civis, a Lei dos Direitos de Voto, a Lei da Habitação Justa e investimentos substanciais em saúde e educação.

E em seguida, os Estados Unidos voltaram ao controle social.

Desde que Richard Nixon declarou uma "guerra às drogas", quatro vezes mais pessoas foram presas por posse de drogas do que por vendê-las.

Dos detidos por posse, metade foi acusada de possuir cannabis para uso próprio. A estratégia de Nixon teve um efeito devastador sobre os negros ainda hoje: uma pessoa negra tem quase quatro vezes mais chances de ser presa por porte de maconha do que uma pessoa branca, mesmo que a use em taxas semelhantes.

Bill Clinton colocou 88.000 policiais adicionais nas ruas e conseguiu que o Congresso determinasse sentenças de prisão perpétua para pessoas condenadas por um crime depois de duas ou mais condenações anteriores, incluindo crimes relacionados a drogas.

Essa lei apelidada de "três strikes e você está fora" foi replicada por muitos estados e, mais uma vez, impactou desproporcionalmente os norte-americanos negros. Na Califórnia, por exemplo, os negros eram 12 vezes mais propensos do que os brancos a serem encarcerados sob as leis dos "três strikes", até que o estado reformou a lei em 2012. Clinton também "reformou" a assistência [welfare] ea tornou um programa restrito que, hoje, pouco faz para as famílias pobres.

Por que os Estados Unidos voltaram ao controle social?

Parte da resposta tem a ver com o aumento da desigualdade. À medida que a classe média desabava e as fileiras dos pobres cresciam, os que estavam no poder viam os controles sociais como mais baratos que o investimento social, o que exigiria impostos adicionais e uma redistribuição maciça de riqueza e poder.

Enquanto isso, políticos cujo poder depende da manutenção do status quo, usavam o racismo - da "lei e ordem" de Nixon e as "rainhas de bem-estar" de Reagan à retórica descaradamente racista de Trump - para desviar as ansiedades de uma classe trabalhadora branca cada vez mais oprimida. É a mesma velha estratégia. Enquanto existir a animosidade racial, os pobres e a classe trabalhadora não se unirão para derrubar o sistema que mantém tantos norte-americanos na pobreza e os negros norte-americanos oprimidos.

As últimas semanas de protestos e manifestações expuseram o que sempre foi verdade: os controles sociais são mortais e insustentáveis. Eles exigem meios cada vez mais opressivos para aterrorizar as comunidades e drenam recursos que assegurariam que os negros não apenas sobrevivessem, mas prosperassem.

Esse momento nos exorta a abandonar o controle social e aumentar nosso compromisso com o investimento social.

Chegou a hora de investir em moradias e educação a preços acessíveis, não em gás lacrimogêneo, cassetetes e assassinatos sancionados pelo Estado. É hora de investirmos em manter as crianças alimentadas e fora da pobreza, não colocando seus pais atrás das grades. É hora de cortar recursos direcionados à polícia e investir em comunidades. Não temos tempo a desperdiçar.

*Publicado originalmente no site do autor | Tradução de César Locatelli

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