Sociedade e Cultura

Aids: medo e incompreensão persistem

Carta Maior entrevistou o diretor do documentário 'Carta para além dos muros', André Canto

27/09/2019 13:29

(Divulgação/Canto Produções)

Créditos da foto: (Divulgação/Canto Produções)

 
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∴ Leia mais: resenha do filme Carta para lém dos muros, de André Canto
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Abaixo, a entrevista de Carta Maior com André Canto, autor do primeiro longa metragem sobre a Aids, Carta para além dos muros. Ele já trabalhou com diversos realizadores do cinema nacional: Di Moretti, Kátia Lund, Laís Bodanzky, Lina Chamie, Luiz Bolognesi e Ugo Giorgetti, e em diversos documentários para cinema e TV. O seu documentário conta com depoimentos preciosos do ex–Ministro da Saúde José Gomes Temporão, do médico Drauzio Varella, de Marina Person, José Serra, Lucinha Araújo, entre outras pessoas relacionadas ao tema.

Canto lembra que ''o número global de mortes relacionadas à Aids continua caindo à medida que o acesso ao tratamento segue em expansão e mais progressos são feitos na melhoria da prestação de serviços de HIV e da tuberculose. De 2010 para cá, as mortes relacionadas à AIDS caíram 33%''.

''O progresso varia entre as regiões. O declínio global nas mortes relacionadas à Aids foram, em grande parte, impulsionados pelo progresso no leste e no sul da África. Na Europa Oriental e na Ásia Central, no entanto, as mortes relacionadas à Aids aumentaram 5%. Desde 2010, no Oriente Médio e Norte de África, em 9%''.

Já no Brasil, segundo dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, foram 11 463 mortes por causa básica de Aids, em 2017.

A conversa de Carta Maior com o cineasta André Canto, por email:

Carta Maior – Por que a idéia de realizar esse documentário tão importante, mas que antes não tinha sido produzido? Como ela surgiu?

André Canto
– Contar a história da epidemia da Aids significa tocar nos medos e nas memórias soterradas de ao menos duas gerações. Dezenas de milhões de pessoas chegaram à vida adulta, no Brasil, dominadas pelo pavor de se verem infectadas. Os gays viveram um medo duplo: pela doença, que no início os afetava mais do que à média da população, e pela discriminação daqueles que já sofriam com a Aids e este sofrimento aumentava com a atmosfera de incompreensão que cercava o HIV.

CM – Hoje ainda é assim?

AC
– Apesar de todos os avanços no tratamento e no entendimento da doença, muito desse medo e dessa incompreensão persistem. Uma experiência pessoal reflete a experiência coletiva: como jovem gay nos anos 90, minha descoberta da sexualidade foi estruturada pelo medo, como a de tantos outros adolescentes daquele período. Esse medo permaneceu ativo no inconsciente mesmo durante minha vida adulta; ativo, mas invisível e silencioso. Foi necessário um extenso e doloroso trabalho de psicanálise para enxergá–lo e aprender a lidar com ele.

CM – É importante exibir o seu filme em instituições diversas, de saúde, e em ambientes educacionais, escolas, universidades etc. Há algum programa para a realização dessas exibições com debates?

AC –
Estamos enfrentando muitas dificuldades no lançamento do filme nas salas de cinemas. Mas, claro, desde o inicio o projeto do filme foi pensado como um dispositivo e não como um fim. Queremos que o filme venha gerar debate, e com certeza a escola é o local mais importante para isso, principalmente por nos colocar em contato com os jovens. Além das escolas e universidades, queremos levar o filme para diversas outras realidades, como por exemplo, para os presídios. Esse aspecto do tema não foi abordado no filme no espaço de tempo do presente, porém esse tema terá muita relevância na série de TV que entrará em edição ainda esse ano para estrear em 2020. A situação das pessoas privadas de liberdade e que vivem com HIV é desumana.

AC – Por que o título do filme?

AC –
Quando jovem, no meu processo de fobia em relação à Aids, foi no Caio Fernando Abreu que encontrei um interlocutor. Eu não ousava falar do assunto com ninguém, porém a literatura do Caio e as suas cartas – principalmente a sequência de cartas intituladas Carta para além dos muros – me ajudou; na ocasião, eu ainda tinha muito medo de enfrentar pela primeira vez esse tabu. O título do filme é uma homenagem ao Caio.

CM – Os preconceitos em relação ao HIV – o silêncio talvez seja o maior deles – está aumentando ou diminuiu, dos últimos anos para cá?

AC –
Não conseguimos mensurar se o preconceito aumentou ou diminuiu, pois as pessoas falam pouco sobre isso. Sim; o silêncio é o maior obstáculo para enfrentar a discriminação e o preconceito. Não falamos sobre isso, às vezes por medo, às vezes por desinformação. A ala progressista da sociedade tem se desconstruído para tantos temas, porém até os mais desconstruídos não abrem espaço para essa discussão, ou buscam um discurso mais conservador, mais cuidadoso.

 CM – Esses preconceitos são mais frequentes nas classes trabalhadoras ou nas classes médias?

AC –
O preconceito é geral, e acredito que independe de classe. Mas o impacto, as novas infecções, e principalmente os casos de Aids e óbitos em decorrência da Aids atingem as classes trabalhadoras, os negros, a comunidade LGBTQI , ou seja, as populações sempre marginalizadas.

CM – CM – No seu filme, fala–se da importância da PrPEP e da PEP. Reforce e esclareça, por favor, o que são esses dois métodos de prevenção.

AC –
A Profilaxia Pré–Exposição (PrEP) tem a mesma lógica de usar um anticoncepcional. É um método de prevenção que consiste no consumo de um comprimido diário para impedir a infecção do HIV, caso você se exponha ao vírus. Já a PeP, ou Profilaxia Pós–Exposição, é uma medida emergencial para impedir a infecção do HIV. Popularmente conhecida como “pílula do dia seguinte” do HIV, ela deve ser utilizada caso a pessoa desconfie que tenha se exposto ao vírus (quando a camisinha estourou, ou se a pessoa não usou preservativo, por exemplo). O uso da PEP deve ser iniciado até 72 horas depois da relação. O indivíduo recebe uma caixinha de comprimidos que deverão ser tomados durante 28 dias para garantir que não ocorra a infecção pelo HIV. Tanto a PEP quanto a PreP podem ser encontradas gratuitamente nos serviços da rede pública de saúde.

CM – Há alguma tendência atual para diminuir e/ou dificultar a distribuição gratuita de medicamentos de prescrição continuada, uma obrigação legal do estado?

AC–
No momento, não há nenhuma medida efetiva deste governo relativa à restrição na distribuição dos medicamentos. Mas essa sempre foi uma preocupação e devemos estar sempre atentos para impedir que isso aconteça.






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